Cultura

Poetas versam sobre possibilidades de futuro

Em estrofes sobre os olhos piscados para despregar a remela da perplexidade, Jamesson e Tarsilla situam os poemas ao contexto das crises políticas brasileiras

diario da manha
Tarsilla Couto de Brito assina a obra junto com Jamesson Buarque (foto no corpo da matéria) - Foto: Facebook/ Reprodução

Máquinas não acordam com o cheiro do café e nem sulcam a língua para textualizar o mundo. Em 35 poemas, dos quais 32 são distribuídos em quatro conjuntos organizados em quatro partes, a obra “Coisas Que Máquinas Não Podem Fazer”, dos poetas Jamesson Buarque e Tarsilla Couto de Brito, versa sobre possibilidade de futuro a respeito de políticas de controle social que empreendem seus atos com suporte em tecnologias, desde aquelas atualizadas no passado até as conhecidas como de inovação.

Em estrofes sobre os olhos piscados para despregar a remela da perplexidade, Jamesson e Tarsilla situam os poemas ao contexto das crises políticas brasileiras, às turbulências sociais, a política da morte na qual agarra-se o bolsonarismo e seus militares saudosos dos calabouços e porões da ditadura, ao conhecimento do amor na carne, “nenhuma estrutura de vidro/ suposta proteção/ ficará inteira/ quando eu chupar seu pau”, vixe, diz o eu-lírico no terceiro poema de “(dois) Amor”.

Na revolução do tesão encontra-se outra língua, “eu só tiraria a máscara para lamber sua buceta e só a colocaria de novo pra sair contigo à rua”, como se às máquinas fossem dadas a fazer quanto à humanidade no tête-à-tête do que é possível à humanidade: os poemas, sem trazer a si a máxima de que as máquinas maldosas aos seres humanos, percorrem tensões e não tensões entre ciência, tecnologia, história, conjuntura política (“o não que consenti/ o molotov que não joguei”) e mitos.

Nesse momento, o leitor vai esbarrar em declarações, indagações, reflexões e crônicas que se relacionam com o presente numa simbiose com passados conhecidos e perspectivas para o futuro que se formam entre um verso e outro, uma estrofe e outra, mas sempre respirando o lirismo de uma máquina que não pode chorar enquanto corta ou pica cebola, por exemplo. Afinal, como nos dizem Jamesson e Tarsilla, uma máquina não atenta, escuta, nem tem direitos, há éticas e éticas como há chips e chips.

Ou, se a vida fosse de fato um conto de fadas, para referenciar “Sonhar o Passado”, “contaríamos às nossas crianças que a madrasta, arrependida de ter pedido o coração de branca-de-neve, encontrou seu final feliz no gesto permanente de vestir os amantes com as roupas da enteada pra sempre-sempre perdida? “Máquinas prendem seres humanos achando que protegem os seres humanos – isso elas podem, devem?”, reflete o eu-lírico, anunciando que a morte tem suas maneiras naturais e nem precisa de auxílio ou empurrão: a morte, de fato, tem olhos muito atentos às necessidades.

Professores da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás (UFG), Tarsilla Couto de Brito e Jamesson Buarque despertam a atenção do leitor para que, de março a março, 2020 e 2021, a covid-19 ceifou mais vidas que o HIV e ainda, como fruto do neoliberalismo selvagem, em sua faceta de necropolítica, mais fome de morte nutrindo “gentchy faminta, se podem matar 12, podem matar mias, podem matar 24 e podem matar 3000 e tantas, e uma não-política só matou mais de 300.000”.

História, tecnologia, ciência, amor, morte, vida, tesão, foda e línguas se misturam a visível preocupação dos poetas de mostrar, a partir da revolta da linguagem, elemento próprio da poesia, que o abismo no qual o país se encontra gera angústia, mal-estar de uma civilização forjada sob a ética do sangue e da peste. “Coisas Que Máquinas Não Podem Fazer” será lançada nesta quarta-feira, 24, das 17h30 às 20h30, no Muquifu Cultural, na Rua do Lazer, a 8, no Centrão de Goiânia.

Confira a íntegra, a seguir, entrevista que o professor Jamesson Buarque concedeu ao Diário da Manhã:

Diário da Manhã – Quais são as coisas que as máquinas são podem fazer?

Máquinas não podem chorar enquanto cortam ou picam cebola. Um/a robô doméstico/a poderia liberar fluídos que nem lágrimas, decerto, não devido ao efeito ácido da cebola, e se sabe lá por que alguém fabricaria tal máquina.  Máquinas não podem chorar, não podem amar, não movem revoluções. Máquinas não podem manipular pessoas. Tudo ao contrário disso que há em ficção implica, por alegoria, condutas humanas. São coisas que gente faz ou faria e que são transferidas pras máquinas na ficção. Máquinas não podem mostrar à humanidade quem essa é, a humanidade fabrica máquinas e termina mostrando a si mesma quem é. Se a uma máquina fosse dada a questão sobre amar o passado, tal máquina agir à maneira duma pessoa de orientação idealista, como Benedetto Croce, dizendo, conforme esse disse, que o passado não pode ser amado porque não existe, que é um modo ideal-lógico de pensar o passado. Diante duma questão sobre o futuro, a máquina teria de desejar o futuro, mas não pessoas que desejam o futuro, não máquinas. Gente se vicia em máquinas, logo, gente faz máquina pra consumo, e o consumo pode causar vício. Máquinas não podem ser gente.

DM – No poema “Sonhar o Passado”, na primeira estrofe, vemos uma imagem interessante: máquinas trabalhando em prol da renda universal, com corpos livres e o ócio democraticamente distribuído. Por que isso seria uma utopia?

Jamesson Buarque – Não é uma utopia, é uma distopia. Há nesse movimento, o (1), de “Sonhar o passado”, um jogo irônico sobre a utopia, comumente dada como algo que diz respeito a um ideal de perfeição, um modo de vida perfeito, uma sociedade perfeita, com tudo bem unitário. Pra algo assim se realizar, é preciso considerar uma distopia. Somente um fascismo muito poderoso, bastante totalitário, com muita investida autoritária, coisa que se dá por opressão e repressão, formaria realmente uma utopia. Assim, conforme o movimento (1) de “Sonhar o passado”, restaríamos em “corpos pesados e mudos e/ algumas poucas pessoas reescrevendo o passado// pra que esqueçamos/ como e quando nos tornamos mecânicos vazios inúteis incapazes de sonhar”. Observe: “algumas poucas pessoas reescrevendo o passado”, e se leia: ditando-o doutra forma, conforme o molde utópico almejado. Pra isso, fascismos existem, e o governo federal brasileiro atual serve de exemplo. Se uma política tal, com o tempo, lograsse êxito, o resultado utópico que atingiria seria tal pra um nicho da sociedade, logo, pra uma utopia acontecer, teríamos a maioria da sociedade vítima duma distopia. Incapacidade de sonhar seria um resultado. Quem ainda com vida num futuro em que seríamos incapazes de sonhar estaria numa distopia, não numa utopia, porque nesta estaria apenas a gente fascista, num caso de êxito dessa gente. Retomando a questão anterior, convém acrescentar que máquinas não podem sonhar, então, as pessoas atendidas por uma utopia, eis parte da ironia, restariam que nem máquinas, logo, seriam somente pessoas aquelas pras quais tal futuro seria distópico.

Pode ser uma imagem em preto e branco de uma ou mais pessoas, barba e área interna
Jamesson Buaarque: “Fascistas vislumbram manipular máquinas pra exterminar pessoas”

DM – Na sequência, o eu-lírico diz que “as máquinas não podem acordar com o cheiro do café que minha mãe fazia”. Como elas, as máquinas, estão substituindo lembranças afetivas, cheiros da infância e a beleza em coisas aparentemente pequenas da vida?

Jamesson – Não vislumbramos máquinas substituindo gente. Fascistas vislumbram manipular máquinas pra exterminar pessoas, inclusive, agem a serviço disso, enquanto também vislumbram um mundo com gente que nem máquinas, incapazes de sonhar, incapazes – conforme a eu lírica do movimento (2) de “Sonhar o passado” diz sobre se pegar “em dúvida se tudo o que vivi até aqui foi um sonho e se/ de fato ainda tenho oito anos acordando com minha mãe fazendo café”. Em tempo, mais algo pra primeira questão e pra todas: uma máquina não tem dúvida. Enfim, não vislumbramos nada daquilo. Não somos fascistas. Somos antifascistas. Coisas que máquinas não podem fazer é um livro antifascista. Máquinas não estão, portanto, substituindo gente quando às lembranças afetivas, cheiros da infância etc. Máquinas podem servir a tais lembranças, cheiros etc. Uma máquina, inclusive, pode ser um objeto de afeto, mas as máquinas – outra coisa a acrescentar, de certo modo já dito, a respeito de amar – não têm, não sentem afeto. Há, é fato, políticas de fazer com que pessoas considerem fazendo o que fazem, como há o desemprego de pessoas devido ao emprego de máquinas, mas isso é uma política de miserabilidade, que por princípio deixa de formar pessoas pra exercerem uns tantos trabalhos em paralelo ao trabalho exercido por máquinas. A causa da miserabilidade é inerente ao capitalismo, com ênfase sobre as sociedades colonizadas. Por si, por decisão própria, por auto-operação – eis mais algo a dizer da primeira questão em relação a esta e às demais –, máquinas não causam miséria, não causam memoricídio, etnocídio nem genocídio, são movidas por um tanto pouco de gente contra um tanto bastante gente a causarem tudo isso.

DM – Podemos afirmar que o poema deserdou da página como um cigarro um café quente? Por quê?

Jamesson – Acontece nesse caso, correspondente ao movimento (4) de “Sonhar o passado”, que a vida narrada é pouco narrada, conforme é dito que “a vida narra” “não passou duma arte da brevidade”. Convém enfatizar, ainda que noutros termos dos termos já dados, que há na história – com a aristocracia e a burguesia na regência juntamente com mais poderes – um contar tirando um tanto gigante que importava, mas que importava pra muita gente, que não é a gente que faz a ablação, não é a gente que tira, que apaga e silencia, causando memoricídio, etnocídio e genocídio. No movimento (4) de “Sonhar o passado”, a imagem “como o poema que deserdou da página um cigarro um café quente” implica a vida conforme narrada, pela comparação dada, afinal, um poema dado a deserdar um cigarro, um café quente, dado a deserdar, a exemplo disto e daquilo, seja lá o que for, é algo que se diz excluindo muito do que lhe foi pertinente a existir. É comumente dito que poemas resultam dum impulso pessoal vindo se sabe lá donde ou que resultam meramente dum trabalho técnico. Aquilo e isto, nos dizeres mais recorrentes, meio que formam a feitura de poemas numa gangorra ou cabo de força de disputa entre o impulso e o trabalho técnico. Nisso, quem faz o poema resta como uma figura iluminada, se sabe lá por qual ordem, ou numa figura maquinal. Dores, angústias, desesperos, depressões, raivas, alívios, esperanças, ânimos, complacências e o mais possível de viver, como a resistência são um todo suprimido, que suprime a pessoa, que é suprimir toda uma existência social, que é suprimir muitas realidades sociais. Eis como a vida é narrada. Coisa que se máquinas pudessem fazer, mas não podem, seria, por incrível que pareça, diferente, afinal, pela Lei Zero de Isaac Asimov, máquinas não podem causar mal à humanidade nem por omissão permitir que a humanidade sofra algum mal. Apagar ou silenciar memórias, etnias e, num todo, vidas, são coisas – convém acrescentar – que máquinas não podem fazer, mas gente faz.

DM – Num sentido figurativo, qual seria a importância de jogar um molotov que não foi jogado?

Jamesson – Um molotov apagado jogado é caso incluso no propósito de jogar um molotov. Pra antes de estar apagado, o molotov esteve aceso. O molotov já não é o mesmo, uma vez apagado, mas o propósito de jogar o molotov, estando apagado ou aceso, ainda é o mesmo. Isso inclui o ato de enfrentamento, que é um ato de resistência, de quem joga um molotov, que inclui a pessoa que joga o molotov e todo o conjunto social do qual a pessoa é integrante e, logo, ao qual é inerente. Conta o próprio corpo, e um corpo não é uma unidade limitada em si, não é uma individualidade disputando individualidade no conjunto da vida. Um corpo é a vida de alguém, e a vida de alguém é a história da pessoa com ascendência, com tudo que a pessoa é e pode vir a ser em relação às vidas a ela coetâneas e contemporâneas e às vidas que a precedem na história. O corpo é uma classe. Um corpo é uma identidade. Um corpo é uma comunidade. Há muita vida vivendo e já vivida sincrônica e diacronicamente à vida dum corpo. Quem joga um molotov se não concerne a apenas o ato de jogar o molotov, se concerne a tudo a respeito dum processo revolucionário, dum movimento de resistência, incluindo consigo, por classe, por identidade e por mais que lhe diga respeito, revoluções e, logo, resistências ancestrais àquilo que participa. Quem joga um molotov, mesmo já apagado, é alguém muitíssimo inerente à realidade a transformar. O molotov apagado é o molotov que não foi jogado.

A busca pelo não feito pra fazê-lo agora importa pra que o corpo se constitua de mais a mais em sua história, pra que lide com o não consentido a fim de consenti-lo, de realizá-lo, afinal, as opressões continuam, as repressões seguem atuando, e assim o corpo inerente a necessariamente resistir pode muito bem superar a resistência à qual, num tempo, não se engajou, pra então se engajar. No processo de formação revolucionária que move às resistências, o corpo que não sabia, que mal sabia ou que pouco sabia de si, segue no tempo tomando consciência de si, que tomar consciência dos corpos aos quais é inerente. Assim, importa muito a quem, por qualquer motivo, não se consentiu a um ato revolucionário, se conciliar consigo na história pra um ato revolucionário. Isso se dá, de exemplo, como é o caso da questão o movimento (6) de “Sonhar o passado”, ao alguém tomar consciência de que “o tempo não me esquece”, tomando consciência de que o tempo “dissimula destinos/ brinca de lineariedades”.

DM – É possível notar ainda uma maneira atrativa de se falar sobre amor. Em tempos reacionários, onde práticas de ódio imperem, o que é (dois) amor?

Jamesson – Resistir é ato de amor. De exemplo, o autoconhecimento da sexualidade que há numa pessoa, quando essa sexualidade é oprimida, é um ato de amor, e o é não somente a si, mas também a toda uma comunidade de contexto mesmo ou similar. A devoção a alguém é, a rigor, devoção a alguém, mas tal é movida a ser chamada de amor. Que devoção seja pareada com amor, vá lá, mas que redunde em dizer do amor, é obra de opressão pra reprimir pessoas mediante uma restrita concepção de amor. Noutro exemplo, cada poema LGBT+ que dá a saber, que mostra, que enfatiza, que milita por tal realidade, é um poema de amor, e são poemas de amor todos os poemas constituídos em exprimir contra opressões e repressões. Distinguindo população de comunidade, a considerar que população inclui toda gente humana, inclusive fascistas, bem como toda gente rica exploradora da miséria – é de ver a quantidade de gente bilionária a mais no mundo durante o horror da pandemia de Covid-19 –, e a considerar comunidade a gigante parcela da população que resta, em diversos modos, sob opressão e repressão, Coisas que máquinas não podem fazer é um livro de amor à comunidade.

Pra nós, em tempos sombrios, tempos reacionários, o amor é resistir, é enfrentar. No livro, não se deixa com isso, de considerar que uma pessoa ame outra, que pessoas formem casais, inclusive, que formem coletividades de amor numa relação mútua de intimidades, considerando as tantas intimidades que existam. Em mais um exemplo, amamos as pessoas pobres, não amamos a pobreza, afinal, amar a pobreza daria em, no mínimo, respeito a riqueza, que não respeitamos. Por sua vez, amar as pessoas pobres não é, em poesia, dá voz a elas, pois quem tenta ou busca dar voz a pessoas, apenas garante que pessoas sem voz continuem silenciadas. Amar as pessoas pobres é dizer delas, e circular poemas que dizem disso, pode aguçar as pessoas pobres à fala, a constituir a voz que têm pra que resistam, quando isso implica em se mobilizarem à revolução, e não a se manterem vivas enquanto são massacradas. No sentido disso tudo, apostamos, e apostando, militamos, que o amor, conforme dito, deve ser mais assumido em tempos reacionários. O contrário será não atuar por amor, mas servir a uma concepção de amor, anulando as demais.

DM – Como nasceu a ideia de construir a obra a quatro mãos?

Jamesson – Falávamos em escrever nos juntando tem um tempo. Em datação, isso pode vir de 2013 ou de 2016. Num caso e noutro, politicamente, 2013 deu em 2016. Aquele ano das Jornadas formou coletivos no Brasil, e este ano, das Ocupações, exprimiu o resultado dos coletivos formados. Tudo se deu de modo inerente a como entre 2013 e 2016 a política foi sendo maquina no país, até descambar em 2018 e então resultar numa ascensão do fascismo. As manifestações entre 2013 e 2016, que foram constituindo movimentos, que forma constituindo coletivos, terminaram servindo à maquinação política do impeachment e da arregimentação de forças fascistas pra ocupação do governo federal. Calham a todos os interstícios envolvidos entre 2013 e 2018 várias conjunturas a serem analisadas, mas que pontuar uma a uma aqui, além de delongar a resposta, poderia levar a um distanciamento da questão. Fizemos, em diversos momentos, umas tantas análises, conversamos bastante a respeito. Tínhamos, cada qual conforme uma orientação política, um tanto de considerações comuns, de perspectivas comuns, todas sempre com a comunidade em vista, com a liberdade de expressão em vista, com uma compreensão muito parente sobre as diversidades, que devem atuar pra garantia de sua existência, e logo, de sua permanência, e isso devidamente como são, sem serem subsumidas. Tínhamos, e a bem da verdade, sempre tivemos, uma formação intelectual e artística parente, logo, também tínhamos, como também sempre tivemos, grande afinidade estética. Tudo já dá, caso se queira, conforme quisemos, numa possibilidade de cumprir a realização dum trabalho poético a quatro mãos.

“Resistir é ato de amor. De exemplo, o autoconhecimento da sexualidade que há numa pessoa, quando essa sexualidade é oprimida, é um ato de amor, e o é não somente a si, mas também a toda uma comunidade de contexto mesmo ou similar”

Se deu que a Tarsilla andava envolvida no trabalho de produção poética já pensado por ela no que deu no título do livro, Coisas que máquinas não podem fazer. Do diálogo que tínhamos, e do qual não nos perdemos, mesmo à distância devido ao necessário isolamento no contexto da pandemia de Covid-19, Tarsilla conversou com Jamesson sobre a possibilidade de tocar o trabalho de Coisas que máquinas não podem fazer a quatro mãos. De tudo dito sobre a afinidade, e isto nem é estranho dado o que se disse, Jamesson tinha poemas que calhavam ao caso. O passo seguinte era a junção, que devido à afinidade, nem seria difícil, como não foi. Salvo engano, tudo se resolveu num mês, mas é de observar que um mês responsivo à afinidade, logo, responsivo a muito de história comum, a muito de conversas pra lá de bem afinadas, sobretudo, a uma amizade indelével. Todo livro a quatro mãos, pelo menos em nossa concepção, carece duma grande amizade, e esta entrevista é importante pra nós a fim de que a vida narrada tenha bastante da gente em junção no que deu em Coisas que máquinas não podem fazer, muito embora, pra evitar resposta que não chegue a termo, bastante de tudo fique pra outras conversas. A princípio, o modelo de trabalho era até simples, pois bastava juntar tudo selecionado por duas mãos com tudo selecionado pelas demais duas mãos. E se deu isso. O passo seguinte foi a afinação, correspondente a ajustar escritos dum par de mãos pra escritos doutro par de mãos. Essa foi a fase da interferência mútua sobre ambas a produções. Vislumbrávamos que nada daria, como não deu, em embate, logo, nada daria em disputa de protagonismo. Assim, houve interferência de passagens de escrita nos poemas de ambas as mãos, houve sugestão de título das partes, da organização do que vem em que ordem na disposição de tudo no livro, e isso deu na distribuição das quatro partes, que terminou dando na inserção dum poema prévio às duas primeiras partes, noutro prévio as duas últimas partes e num poema final.

Ora mais, como no caso desses três poemas, e ora menos, como no caso dos poemas de cada uma das quatro partes, as mãos participavam. Se deu que o ora mais e o ora menos deixou de contar, afinal, havia as quatro mãos em tudo, inclusive, se houvesse apenas na disposição dos poemas, mas não foi o caso, já seria muito de interação. Tudo, é bom ressalvar, em respeito ao devido isolamento, ou seja, à distância. Coisa que nos afetava por não permitir encontros pessoais, mas não nos afetava de impedir nada porque a amizade é mais potente. E amizade, convém enfatizar, somente se mantém mediante o amor, do qual já foi falado. Convém também dizer que quem nos conhece saberá, lendo livro, onde as mãos de quem esteve mais presente, como saberá que o todo final decorreu da afinidade, e não duma partição de X pra lá e Y pra cá. Se não existíssemos dos corpos que somos sabendo, numa medida bastante razoável, dos corpos que viemos, não teríamos nos encontrado pra feitura do livro, até porque, não teríamos nos encontrado pra amizade que temos. Nossa amizade, importa enfatizar, além do encontro pessoal, inclui um encontro de comunalidade, logo, nossa história nos une porque nos demos, cada qual, a observar sem dispersar a atenção de nossa história. É de julgar disso que pessoas que escrevem e têm encontro pelo menos semelhante poderiam se dar ao trabalho de escrever a quatro e até a mais mãos, afinal, se não disputarmos protagonismo, se não formos personalistas, historiais que são nossos corpos, com tudo que há de classe e de identidade neles, além do mais que houver, o encontro está dado, basta não meramente apostar nele, mas confiar nele. Confiamos.

Coisas Que Máquinas Não Podem Fazer

Autores: Jamesson Buarque e Tarsilla Couto de Brito

Gênero: Poesia

Editora: Caravana

Preço: R$ 40, 90

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