Cultura

Reunião de crônicas resgata força do lirismo de Antônio Maria, o nosso bom Maria

Dispersas na imprensa, crônicas de Antônio Maria são reunidas em obra organizada pelo escritor Guilherme Tauil e editada pela Todavia

diario da manha
Recifense de uma decadente família estruturada em torno da exploração da cana, o jornalista desembarcou no Rio pela primeira vez em março de 1940, aos 19 - Foto: Instituto Moreira Salles/ Acervo

Antônio Maria, um metro e oitenta, cento e vinte quilos de lirismo, flanava com Vinícius de Moraes, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos. Era a geração de ouro da crônica, ofício no qual era inigualável, como atestou Paulo Francis. Jornalista, cronista, locutor esportivo e compositor que transitava entre o bêbado e o operário, o bom Maria partiu na madrugada de 15 de outubro de 1964, ao sofrer um infarto fulminante, rodopiar, cair e bater a cabeça na calçada após trocar um cheque no restaurante Le Rond Point: estava na rua, de madrugada, como atravessara seus dias.

Nos botequins do Rio de Janeiro, o que se viu naquele dia e nos subsequentes foi um chororô a cada copo de uísque virado pelos amigos Vinícius, Paulo Mendes, Francis, Dorival Caymmi, Aracy de Almeida, Dolores Duran, Millôr Fernandes e Ivan Lessa. Com vocação para a cardisplicênica e profissional que batia ponto na esperança, Maria ainda se remoía de amores pela modelo Danuza Leão, esposa de Samuel Wainer, chefe do cronista no jornal Última Hora – e, vale lembrar, irmã de Nara, figura central no movimento bossanovista. Danuza chegou a dar por encerrado seu matrimônio para amar Maria.

Para sentir o sabor dessa nova paixão, ganhou as contas e se divorciou de Mariinha Gonçalves Ferreira. Wainer, na situação do sujeito corneado, não colocou empecilho. Em julho de 1961, Danuza e Maria, ela aos 27 e ele com trinta e poucos, quase quarenta, tinham o caminho assentado. Mas não podiam morar juntos: Danuza perderia a guarda dos filhos se dividisse o teto com outro sujeito. Recluso, fora das noitadas e namorando, só lhe importava a vida ao lado do amor, com a luz do sol consagrando marcas em sua literatura e fazendo dele um desfalque às mesas de bar.

Recifense de decadente família estruturada em torno da exploração da cana, o jornalista desembarcou no Rio pela primeira vez em março de 1940, quando tinha 19 anos e era movido por um desejo de vencer na vida. Estava procurando emprego na então capital da República, e a seu favor contavam anos de experiência na Rádio Clube de Pernambuco, a pioneira no Brasil. Seus pais, descapitalizados por causa da desvalorização da cana provocada pela Segunda Guerra Mundial, já não mais podiam lhe proporcionar as possibilidades de antes, então precisava se mover, quem não reage, rasteja.

“Nas memórias de Maria, dispersas em suas crônicas, a infância é recontada com aguçado senso de aventura de meninos desbravando matas, espiando moças nos rios, enfrentando assombrações; ao mesmo tempo, com o tom melancólico das descobertas de um observador que se soube, desde muito cedo, deslocado no mundo – como se fosse necessário refletir sobre a solidão, o grande fantasma da vida de Antônio Maria”, diz o escritor e pesquisador Guilherme Tauil, no texto de apresentação da obra “Vento Vadio: As Crônicas de Antônio Maria”, publicada pela editora Todavia.

Antônio Maria: um centenário de palavra, samba e paixão
Antônio Maria com sua fiel companheira, a máquina de escrever – Foto: Reprodução

Entre idas e vindas, com empregos em rádios de Recife e Salvador, fixou moradia no Rio. Certa vez, ainda durante sua primeira tentativa no Rio de Janeiro, acabou parando na cadeia por barulho. Maria passou a noite preso. O episódio, conta Tauil, rendeu-lhe uma de suas crônicas mais sensíveis, “A Senha do Sotaque”, na qual – detido entre criminosos – o cronista tem sua liberdade devolvida após um policial o chamar pelo nome completo, e os dois, sem falarem nada um para o outro, ficam se encarando por instantes.

Antônio Maria teve por certo que levaria um tapa, um murro ou outra apunhalada dos homens da lei. Se antes o sotaque recifense provocou sua demissão na Rádio Ipanema, agora contribuiu para livrá-lo do xilindró. Mas o preconceito adiou por oito anos a estadia dele no Rio, ao humilhá-lo com uma visão que até hoje se reproduz por lá: a contra o nordestino. De volta à casa, arranjou um emprego e, em 1944, viveu sua primeira experiência no jornalismo, quando assinou na edição vespertina da Folha da Manhã uma coluna onde abordava o universo radiofônico do Recife.

No final da década de 1940, já de volta ao Rio como dirigente de emissoras ligadas aos Diários Associados, Maria se tornou figura cativa na noite carioca. Caymmi foi o primeiro a falar dele na imprensa. Nesse gesto, nasceu uma das amizades que duraram até o final da vida do cronista, tornando-se personagem de suas crônicas, em todas as vezes num tom de afeto: “Meu querido e fraterno Dorival, em nome dos teus amigos, fazendo destas palavras e desta profunda emoção o dizer e o sentir de todos os que te querem bem, deixa que eu te aperte num abraço quente e demorado.”

Rubem Braga, repórter que viveu da crônica após a imprensa no Brasil se industrializar, também mereceu saborosas descrições de Antônio Maria, algumas das quais de fazerem o leitor gargalhar até perceber os olhos marulhados nas águas do bom-humor que colocou Maria entre os grandes nomes de nossa literatura produzida no século 20. “Acordado ou dormindo, sofre 23 horas por dia de dor de cotovelo, dedicando a hora restante a pensamentos bancários, o que vale dizer: pensar em letras”, perfila Antônio Maria, numa cirúrgica descrição sobre Braga.

Mas um dos momentos mais hilários de “Vento Vadio: As Crônicas de Antônio Maria” fica por conta de “Crônica Fora de Tempo Para Marilyn Monroe”, uma espécie de obituário da atriz americana. Pouco versado no inglês, Maria disse que os intérpretes sempre lhe deixavam enervados, como se nunca traduzissem o que ele queria perguntar e por isso desistiu de a entrevistar. “Iria ficar humilhado em duas línguas, numa só burrice, suando na testa e no pescoço”, confessa o mestre da lauda jornalística.

Compositor, assinou com Dorival Caymmi composições agarradas à bossa, hinos do samba-canção, música de dor, dores fortes: “Ninguém me ama, ninguém me quer/ Ninguém me chama de meu amor/ A vida passa, e eu sem ninguém/ E quem me abraça não me quer bem”, disse o homem em “Ninguém Me Ama”, música gravada por gente de ponta da MPB. Antônio Maria nunca fez questão de dispensar a dor de corno, e essa vivência nas entranhas da fossa criou textos e versos que ficaram marcados.

Antônio Maria | Autores | Portal da Crônica Brasileira
Maria produziu crônicas que seduziram leitores de seu tempo – Foto: Reprodução

Versátil, o nosso bom Maria produziu crônicas que seduziram leitores de seu tempo. A disputa, é importante ressaltar, era acirrada. Além de Antônio Maria, o leitor abria uma página e contava com Rubem Braga no auge do seu lirismo. Foleava uma outra publicação e lá estava Fernando Sabino. Numa revista, Paulo Mendes Campos dissertava sobre os bares. E batia o olho nos poetas que embelezavam o público, como Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes, dois estilistas dos versos que também ganharam uns trocados batucando na apressada lauda jornalística.

E na mesma máquina de escrever, fazendo tudo que um trabalhador da palavra faz, estava o nosso bom Maria. Sem querer tecer loas excessivas ao cronista, ele está entre os maiores do gênero. Uma pena, no entanto, que os textos com os quais entrou no panteão da fina flora da crônica brasileira tenham se perdido ao longo do tempo: nunca guardou nem uma palavra do que publicava na correria das redações e lançou um livro apenas depois de morto – tem-se a impressão que, ao tirar a escrita do cotidiano do lirismo ensolarado de Braga, achou que isso bastava. E ele está certo.

Em 185 crônicas, a maioria delas inéditas, o escritor Guilherme Tauil proporciona uma viagem ao passado, porém sem se distanciar do presente, quando a bossa, a noite carioca, os amigos, os perrengues, as lembranças, os amores reais, os desamores, o preconceito, a origem nordestina se tornam desnudados a partir de um estilo único: Antônio Maria foi resgatado e, ironia do destino, já que sequer ele se dava conta de seu talento despretensioso, agora ressurge em “Vento Vadio”. É uma maneira elegante de celebrar o centenário de um dos maiores cronistas dos anos 1950.

E, em mais um abraço, como escreveste em “Discurso a Caymmi”, deixa que eu te diga, meu bom Maria: viveste o mais importante e, da saudade que deixou da tua esperança, fizeste eterno a tua canção, hoje cada vez mais bela, cada vez mais poderosa! Um brinde, meu nosso bom Maria!, como dizia teu velho amigo de uísque Vinícius de Moraes.

‘Vento Vadio: As Crônicas de Antônio Maria’

Organizador: Guilherme Tauil

Editora: Todavia

Gênero: Crônicas

Preço: R$ 89,90 (impresso) e R$ 54,90 (e-book)

Vento vadio: As crônicas de Antônio Maria - Antônio Maria

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