Cultura

Toda fake news é baseada em fatos surreais, reflete Ranga Sri Navaranda

Alexandre Perini põe no papel o que as redes sociais transformaram em efemeridades e a galera chama de memes. E diz: ‘bom proveito’

diario da manha
Alexandre Perini - Foto: Facebook/ Divulgação

Vai ler que passa, toda fake news é baseada em fatos surreais, meu rapaz, a posteridade é a única meta que não se atinge com o esforço dos outros, obrigado.  

Um poema do piauiense Torquato Neto conclama a geleia geral que o Jornal do Brasil anuncia em suas páginas preenchidas pelas letras da civilização, espremendo onomatopeias, é bumba-iê-iê-boi, zumbido verbal, pra dizer o mínimo na língua do desbunde, pobre nação estirada em berço esplendido de farda, essa coisa maldita que ainda insiste em dar as caras no noticiário: “o mim é foda, ele mim fodeu.” 

Testemunho em primeiríssima mão a hilária cagação de regras que o ex-guru ocidental, arquiteto, desenhista, DJ e produtor musical Alexandre Perini condensa em provérbios, aforismos e trocadilhos – que, ora vejam, fossem bons, não seriam publicados. Mas aqui, nesta minha tentativa de levar o jornalismo ao texto literário, caro Torquato, isso não tem relevância, pois “Vai Ler Que Passa”, obra escrita por Ranga Sri Navaranda, será lançada no dia 3 de dezembro, às 19h, na Livraria Palavrear, em Goiânia. 

No livro, Ranga Sri põe no papel o que as redes sociais transformaram em eferimidades nas quais a galera decidiu denominar de memes. E diz ao leitor, categoricamente: “bom proveito.” Como não fazer, ora pois? “Coach é tipo um guru de aplicativo”, sentencia, para acrescentar na sequência: “o lance/ não é dar o pense/ é ensinar a pensar.” 

Volto à poesia dissertativa torquadiana em que os fatos do país tropical desabençoado por Deus são descritos a fim de situá-los no tempo. No caso, é bom lembrar, numa época onde organizar o pensamento em palavras seria motivo para o sujeito a ser convidado para passar dias, talvez semanas, no xilindró. O Brasil, durante a “Geleia Geral” escrita por Torquato e musicada por Gilberto Gil, estava sob a batuta dos censores xaropes que, com um, dois ou três tragos de uísque, confundiam Brasil com batuque – quem conta é Chico Buarque na fita “Chico: Artista Brasileiro”. 

De repente, num relapso literário, onde já se viu esquecer da quarta capa, esbarro em Roberto Lima, o Bob, que esteve entre nós para ser redator publicitário (e dos bons), irmão (família numerosa), marido, pai, usuário de branco às sextas-feiras, que não deixou barato: em anos místicos, alguns dos quais cabalísticos e de 365 dias entre 1980 e 1990, espinafrou pertinentes questões para a vida pública brasileira. Sim, sua postura implacável diante do cretinismo nosso de cada dia que nos assaltava o bom-senso – e ainda assalta, no presente do indicativo – é a inspiração para “Vai Ler Que Passa”. 

Ranga Sri, obviamente, acertou. E, com sua sabedoria telegráfica, atesta: “que o seu salário deste mês caia/ mas não tenha fraturas./ apenas escoriações leves.” Ou “que os grafites de barba e coque toquem na vitrolinha de vinil universal do hambúrguer gourmet tatuado em nossos pets resgatados” e “que a maçaneta da porta da percepção/ não se solte na sua mão pelo lado de fora/ do universo celestial”. 

Desnudo de percepções e presunções sonolentas, a velocidade dos versos versam sobre o aspecto frenético da bizarrice contemporânea: é coloquial, mas apunhala, como se o leitor estivesse não diante de três poemas distribuídos na página, tipo geração mimeógrafo, e sim prestes a levar uma traulitada pela sagacidade do desnunde internético. Afinal, o Hermeto é sujeito de sorte porque nasceu na páscoa, enquanto nós doemos por doar com medo no palacete dos museus de velhas novidades – nossas hilux não brilham e tentamos apagar a dos outros, vê se pode, camarada! 

Ao lado de Torquato Neto e Gilberto Gil, com a benção do viejo Roberto Lima, Ranga Sri compila traços de uma vida marcada pela efemeridade, onde tudo se resolve com a mesma rapidez de um cheiro de alguém que não vai comer. É preferível, como anuncia o ex-guru, a ralé do que gente rala que nunca ralou na vida. Esse, senhoras e senhores, vão para o ralo das boas convivência: “Vai Ler Que Passa” ajuda a assentar a estrada do desbunde. Alexandre Perini nos premia com a bondade de um texto esperto, ágil, fluído. Lê-lo é como puxar uma cadeira no bar do amigo e sorver conversa fiada.  

Vai Ler Que Passa 

Autor: Ranga Sri Navaranda 

Editora: Mmarte 

Lançamento: dia 3 de dezembro

Horário: às 19h 

Onde: Palavrear                                            

Endereço: R. 232, 338 – Setor Leste Universitário 

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