Cultura

Contista se utiliza de linguagem minimalista em ‘Nanocantos’

Escritos por Tom Wilton, textos foram reunidos pela editora Thaise Monteiro e não tinham pretensão de virar livro

diario da manha
Tom Wilton na bibliofuscoteca: em “Nanocantos”, a morte canta, porém não a favor da velhice - Foto: Divulgação

Os pequenos contos que o leitor vê em “Nanocantos”, do escritor Tom Wilton, foram concebidos sem nenhuma pretensão. Escrito às sextas-feiras e aos sábados entre 2013 e 2015 diretamente no Facebook pelo aparelho celular, a obra, que será lançada nesta quinta-feira, 16, às 19h, no Evoé Café, começou a tomar forma como livro em 2021, numa conversa que o autor teve com a poeta, editora, atriz e professora Thaise Monteiro, sem a intensão que um dia pudessem ser reunidos em um livro-caixa.

Telegráficos e concisos, as frases apresentam uma voz narrativa não inventada de pronto, como em “11/04/2015”. “Fui, segundo o poeta, esporrado”, diz, desprezando qualquer tipo de firula verbal e desferindo uma porrada. “Aquilo de porra não usada em sexo. Concebido no meio do mundo, entre o Vácuo e o Vazio, carregando inscrito nas costas “não fui feito pra loucura”, ora, muito menos pra amenidades. Sou do riso frouxo, do choro etílico, da madrugada em claro, do desmedido. Sou esquizofrênico, suicida e puta. Sou um sempre-aí, nunca dado, suposto. Ainda me inventam.”

Não existiu papel, nem lápis ou caneta, porém dedos deslizando pela tela de um celular que clicava um teclado virtual. Nesse período, Tom conta que buscava reelaborar a partir da escrita que utiliza o mínimo da linguagem. Quanto mais conseguia dizer com poucas palavras, mais interessante achava o processo. Quanto mais sinônimos e estruturas mínimas para convocar o leitor, mais continuava a produzir. Até que chegou num ponto ao qual prestava atenção à quantidade de palavras utilizadas e depois à quantidade de caracteres de cada nanocanto.

“Daí, quando eu terminava, postava no meu perfil pessoal da rede social e observava as interações, os comentários de quem visualizava a postagem”, recorda-se o autor, em entrevista ao DM concebida nesta quarta, 15. Para ele, esse processo foi interessante, porque era coletivo. “Não era só eu, ensimesmado em mim com minhas questões, era muita gente junta também. Se eu me debatia com as questões de saúde mental, sexualidade, relacionamentos … eu soube ali que não era só eu, tinha História comigo. Talvez um processo que se apresentou como sujeito pra mim mesmo.”

Em geral, os dedos em escrita de Tom oscilam de cinco a 25 palavras. De 125 nanocantos, só 15 variam a mais, de 28 a 87. Segundo o professor de literatura da Universidade Federal de Goiás (UFG) e poeta Jamesson Buarque, autor do nanoprefácio “A Pegada de Tom”, os textos podem ser definidos como prosemas, mas ele pontua: “Tanto faz. Há apenas três distribuídos em versos. Podem ser crônicas. Tanto faz. As contas são inerentes aos nanocantos, convergem pra concisão, já que gêneros de escrita, tanto faz. Pegada contra pegada dá em enfrentamento”, explica.

Pela concisão, em “Nanocantos”, a morte canta, porém não a favor da velhice, doença ou acidente. Canta o suicídio ou homicídio. O mundo massacrando homossexuais que acabam por se matar, já que não mais aguentam a roleta-russa desse delírio cotidiano diário. O mundo ceifando a vida de gays por não os suportarem. O mundo narrado nas páginas do noticiário o reacionarismo dos escandalizados com “caralho, porra, puta e cu”, que espancam, esquartejam, estupram, torturam até que o corpo suicide, mas se não os leva à morte ou ao suicídio, o mundo vai os definhando até que os deprime.

O que te levou, Tom, a abordar esses temas? “Foram assassinatos de mulheres cis, de mulheres trans, de travestis, de crianças que brincavam de boneca, era tanta desgraça junta naquele momento como hoje que eu implodi. Foi pra dentro o estouro e eu não tinha morrido, eu ainda estava aqui e o que é que eu iria fazer com aquele corpo implodido, repleto de vísceras estilhaçadas?”, afirma o escritor, dizendo que a língua o interpelou e o poético se impôs.

“O que eu fiz em Nanocantos é gritar alto, muito alto com muita gente para que possam nos escutar outros tantos, para que possam entender que também se grita de dor, mas sobretudo de raiva, de indignação, para dizer que juntes a História é outra, juntes nossos gritos históricos não deixarão a Casa Grande em paz nunca mais (para registrar aqui a mestra Conceição Evaristo)”, atesta o autor.

Se para essas notícias efêmeras o espaço é pouco e a atenção é reduzida, Tom mostra em “Nanocantos” conflitos que fazem coincidir uma realidade imaginada. “Pode causar síncope no senso sensível. Convém aguentar. O senso conservador dirá que é coisa de bicha. E é. Vai censurar. Dane-se”, anota Jamesson. Sem dúvida, “Nanocantos” é um livro necessário, porque se alia a concisões transigentes entre si, revidando à altura contra o senso conservador. “Revida com muitos socos. Todos muito rápidos. Precisos, porque concisos. Necessários, porque resistentes.”

Lançamento Nanocanto

Quando: quinta-feira, 16

Horário: às 19h

Onde: Evoé Café com Livros

Endereço: R. 91, 489 – St. Sul

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