Cultura

Elza Soares deixa legado imensurável ao mostrar capacidade de misturar estilos

Elza morreu nesta quinta, 20, em sua residência no Rio de Janeiro. Segundo a assessoria da artista, em nota divulgada no Instagram, o falecimento foi provocado por causas naturais

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Elza foi vítima de racismo e combateu o patriarcado por meio da música – Foto: Instagram/ Reprodução

Elza Soares está encantada. Em sua carreira como cantora, que passou de seis décadas, ela sentiu o gosto do sucesso, nos anos 60 e 70, e também do total obscurantismo, nas décadas de 80 e 90. Como uma fênix que ressurgia após entrar num período de esquecimento, ela voltou aos palcos e de lá nunca mais saiu. Nos últimos anos, aos oitenta e tantos – é difícil precisar sua idade –, esteve maior do que em qualquer fase, mesmo quando chacoalhou a música com o disco “Sambossa”, lançado em 1963.

Sua voz, de uma mulher típica do fim do mundo, foi calada. Elza morreu nesta quinta, 20, em sua residência no Rio de Janeiro. Segundo a assessoria da artista, em nota divulgada no Instagram, o falecimento foi provocado por causas naturais. “Teve uma vida apoteótica, intensa, que emocionou o mundo com sua voz, sua força e sua determinação. A amada e eterna Elza descansou, mas estará para sempre na história da música e em nossos corações e dos milhares de fãs”, diz o comunicado.

Para o biógrafo Zeca Camargo, autor de “Elza”, a cantora zombou da ziquizira, chamou para zoeira, tirou da zica e da dor, prazer e luz. Ela precisava de um “Z” no destino e ganhou assim que veio ao mundo: foi batida Elza. “Foi seu primeiro zumbido, de zilhões que viriam depois – e ainda vêm”, escreve o jornalista. A artista zelou por seus amores, deslumbrou nos palcos, emocionou em duetos como “Falamos”, ao lado de Chico Buarque, e ficou atordoada com as tragédias pessoais.

Vítima do racismo e do patriarcado, Elza nasceu numa família pobre e, aos 19, quando começou a cantar escondida, sofreu com um país guiado pela ótica do machismo. Difícil encontrar alguém na música brasileira que tenha sido tão castigada como Elza Gomes da Conceição foi. Até a data em que nasceu é incerta, pois foi emancipada para casar contra sua vontade. Aos 13, engravidou do primeiro filho. Dois anos depois, tinha perdido um deles para a miséria. Com 21, jovem de tudo, enviuvou.

Para ajudar em casa, quando ainda era casada com quem não gostava, trabalhou numa fábrica de sabão. Mas seu talento era cantar e, em 1953, participou do programa “Calouros em Desfile”, de Ary Barroso, na rádio Tupi. Apresentou uma releitura de “Lama”, composição de Paulo Marques e Ailce Chaves, deixando o público e os jurados impressionados, ao ponto de Barroso, boquiaberto com o que havia presenciado, sentenciar: “Senhoras e senhores, nasceu uma estrela.”

Série Mulheres e o Arquivo: Elza Soares — Português (Brasil)
Elza sagrou-se uma das principais vozes do samba-jazz – Foto: Arquivo Nacional/ Correio da Manhã

À noite, tornou-se figura constante nos bailes pelo Rio – então capital da República – à frente de uma orquestra, porém era tolhida de cantar entre os granfinos por ser negra. Eram os mesmos que haviam, décadas antes, zombado de Pixinguinha. Passaram-se anos até que Elza despontou com “Se Acaso Você Chegasse”, música assinada pelos mestres da dor de cotovelo Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins: ali estava o estilo rasgado que mais tarde lhe conferia um lugar entre as grandes da MPB.

Na década de 1960, já amiga de Astor Piazolla e regressa de turnê por Buenos Aires onde dormiu pela primeira vez num colchão, Elza sagrou-se uma das principais vozes do velho samba. Seu estilo em discos como “A Bossa Magia”, de 1960, “O Samba é Elza Soares”, lançado no ano seguinte, e “Sambossa”, de 63, asseguraram o rótulo de Rainha do Samba, alcunha que a acompanharia por toda a vida. Neste disco, é possível observar versões apimentadas de composições da dupla Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

Como se já não fossem suficientes esses discos, a cantora ainda agraciou a história com “Na Roda do Samba”, de 64, “Um Show de Elza”, de 65. Era a grande estrela da gravadora Odeon, por onde lançou singles e álbuns que mostraram a bossa negra que encontrava em sua voz a força para arrebentar corações, com malemolência. Segundo o crítico Mauro Ferreira, em resenha do LP “Sambossa”, Elza atravessou os anos 60 como “hábil cantora de sambalanço”. “Quarto disco da cantora, “Sambossa” se inseriu nesse sincopado universo musical, como já sugeriu o título”, afirma.

Entre seus fãs, estavam nomes como o ídolo do jazz Louis Armstrong e o violonista João Gilberto. Foi nesta época que teve um relacionamento com o músico Milton Banana. Depois, conheceu o jogador Mané Garrincha. Durante o Mundial de 62, ela estreitou laços com o craque do Botafogo e principal nome da Seleção – Pelé, que quatro anos antes havia brilhado na Suécia, estava fora por lesão. Garrincha, em sua melhor atuação numa Copa, dedicou a conquista à amada. E foram morar juntos.

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Não demorou até que Elza fosse taxada como “destruidora de lares”. Bobagem que Ruy Castro, biógrafo de Garrincha e autor de “Estrela Solitária”, tratou de desmentir: “Acompanhou-o por toda parte, defendeu-o de críticas, ocultou as suas bebedeiras, deu-lhe um filho e sustentou-o financeiramente.” Cansada do comportamento alcoólico do jogador e das ofensas que lhe eram dirigidas por fãs do craque, Elza o abandonou em 1977: “se não era possível salvar Garrincha, ela tentaria salvar-se.”

“Sem ela, ele só resistiu por cerca de cinco anos. Em janeiro de 1983, estava morto. E Elza, profissionalmente, também estava. Ela, que fora a estrela da poderosa gravadora Odeon nas duas décadas anteriores, trabalhava agora para gravadoras menores e não conhecia nem sombra do antigo sucesso”, anotou Castro, num artigo publicado no jornal português Diário de Notícias, na ocasião em que a peça teatral “Elza” chegou à terra lusitana. Como revela Zeca Camargo na biografia em “Elza”, a cantora mergulhou – após a morte do filho Garrinchinha, em 1986, num acidente de carro – nas drogas.

Dona de quilométrica discografia que possui 34 discos lançados, Elza Soares nos últimos anos procurou misturar samba com jazz, música eletrônica com hip-hop e funk. Para ela, a monotonia era cansativa. “Eu sempre quis fazer coisa diferente, não suporto rótulo, não sou refrigerante”, dizia a Rainha do Samba, acrescentando que “acompanho o tempo”. Em seu último disco “Planeta Fome”, cuja capa conta com desenhos da cartunista Laerte, ela apostou em músicas engajadas e, nas entrevistas, afirmava que vinha do “planeta fome” e era “a mulher do fim do mundo”.

Ao Diário da Manhã, numa entrevista publicada em 2016 na ocasião em que tocou na capital goianiense, Elza confessou que começou a cantar por necessidade. “Não tinha dinheiro, meu filho doente, e fui fazer um teste no programa do Ary Barroso. A partir dali, não teve saída”, disse a Rainha do Samba, destacando que Garrincha foi um grande amor. “Eu amo a vida, amo viver. A música, os desafios. É o prazer de viver.”

O último show de Elza foi em Belém (PA) no Festival Psica, em 19 de dezembro do ano passado. Elza Soares, para usar uma expressão consagrada pelo escritor João Guimarães Rosa, encantou no mesmo dia que Mané Garrincha há 39 anos. Se na música “A Mulher do Fim do Mundo” dizia que havia “quebrado a cara”, ela permaneceu na avenida até o fim, como uma mulher do fim do mundo: “Eu sou e vou até o fim cantar.” E até o fim, de fato, sua voz rouca deu sentido para nossas vidas. (Colaborou Rariana Pinheiro)

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