Cultura

“Eu amo a vida, amo viver”, disse Elza Soares ao Diário da Manhã, em 2016

Cantora lançava na ocasião o aclamado disco "A Mulher do Fim do Mundo", com o qual foi elogiado por crítico do mundo inteiro

diario da manha
Elza recebe diploma de Embaixatriz do Samba no Museu da Imagem e do Som, com Garrincha ao fundo, em 1971 - Foto: Arquivo Nacional/ Correio da Manhã

Rariana Pinheiro

Ela parece uma força da natureza. Mas é somente uma batalhadora da música brasileira, com ares de diva. Passou por muitos, mas muitos “perrengues”. E foi julgada apenas por ser o que é: mulher e negra. Estas duas condições poderiam até calar sua voz. Mas, isso absolutamente não aconteceu. Tanto que hoje, Elza Soares, aos 78 anos – e se recuperando de uma cirurgia na coluna – tem rodado o país com a turnê do seu primeiro disco com canções inéditas da vida: “A Mulher do Fim do Mundo”. Este  show, que ela apresenta hoje, às 21 horas, em Goiânia (no Palácio da Música – Centro Cultural Oscar Niemeyer) é sucesso de público e crítica e, em breve, vai ganhar DVD.

O álbum “A Mulher do Fim do Mundo”  foi lançado em 2015, mas já consegue ter o peso de um clássico. Felizmente muitos reconheceram rápido isto. No Brasil, o disco ganhou diversas premiações, como a de “Melhor Show Nacional”, da Folha de São Paulo e do Estado de São Paulo de “Melhor Álbum”. Só para citar alguns. Este ano, a obra foi lançada também na Europa onde chegou com o  título “The Woman at The End of World”. A recepção não foi nada diferente: o trabalho ganhou citações em jornais como o “The Guardian” e “Financial Times”.

Composto especialmente para Elza Soares por uma boa leva de novos e ousados compositores paulistas, à exemplo de Rodrigo Campos, Kiko Dinucci e Romulo Fróes, os figurinos nada discretos da cantora, não conseguem brilhar mais que a força de sua interpretação. As canções tocam na ferida da sociedade contemporânea, que ainda não conseguiu evoluir em alguns pontos. É profundo, algumas vezes triste, mas é recheado pelo humor.

Assim, no disco, que tem a produção de Guilherme Kastrup (o produtor e diretor do trabalho), a artista canta em tom sombrio e desafiador, composições que falam claramente de agressão contra a mulher, como em  “Maria de Vila Matilde”, que traz  versos, a exemplo de:  “Cadê meu celular? Eu vou ligar prum oito zero. Vou entregar teu nome. E explicar meu endereço. Aqui você não entra mais. Eu digo que não te conheço. E jogo água fervendo. Se você se aventurar”. Por outro lado, a faixa “Benedita”, pela qual  Elza Soares coloca em pauta a vida de uma mulher transexual.

No show, que Elza canta sentada em um trono metálico em meio a um cenário cercado por mil sacos plásticos de lixo preto, feito pelas mãos de Anna Turra, que assina cenário, luz e projeções, haverá tempo para nostalgia dos sucessos passados. O show inclui também sucessos que coroaram sua trajetória, como:  “Malandro”, “A Carne” e “Volta Por Cima”. 

Aliás, “Volta Por Cima” é uma música que combina muito com a própria vida desta mulher, que mesmo quando triste era ousada e criativa no palco. Na profissão de cantora ela contou, em entrevista ao DMRevista, que entrou por necessidade e, não foram poucos os perrengues que passou nestes 60 anos de vida artística. Ela, por exemplo, neste período já perdeu quatro filhos (o último, inclusive,  se foi recentemente enquanto a cantora gravava “A Mulher do Fim do Mundo”).

Teve ainda a casa metralhada na ditadura e viveu duras penas com o alcoolismo do ex-marido, o grande jogador de futebol, Garrincha. Porém, ela não guarda mágoas da vida. E vive dizendo por aí: “My Name Is Now” (que significa meu nome é agora em inglês. O termo intitula seu documentário, lançado em 2014 e que tem direção de Elizabete Martins Campos).  

O passado para ela não importa. O que ela quer é tentar mudar um presente, para um futuro, assim como ela: mais deslumbrante. E, talvez, por tanta garra e talento, que Elza foi eleita em 2000 como a “Cantora do Milênio”, por ninguém menos que pela BBC, de Londres. Em entrevista ao Diário da Manhã, a cantora compartilhou um pouco de seu sucesso e a vontade de viver. Confira a conversa a seguir:

Diário da Manhã – Você tem vivido nos últimos 15 anos momentos de amplo reconhecimento. Foi considerada em 2000 pela BBC a Cantora do Milênio e o álbum e show de “Mulher Do Fim Do Mundo” tem sido bem recebido pelo público e crítica. Elege esta fase atual como a melhor da sua carreira?

Elza Soares- My name is now, não é? Sou muito grata por tudo que vivi, mas gosto de viver o presente. “A Mulher do Fim do Mundo” tem um sabor muito especial. É o meu primeiro disco de inéditas, foram músicas pensadas para mim. Direto da rapaziada talentosa de São Paulo. É uma emoção ter um disco premiado como este, ainda mais pelo discurso que ele carrega.

DM- Por que demorou mais de 50 anos para Elza Soares gravar um disco somente de canções inéditas?

Elza – Aconteceu agora. Tinha que ser. O momento no mercado musical era outro, a gente ia fazendo. A princípio, o meu disco de 2015 não seria de inéditas também. Até que o produtor do disco, o Guilherme Kastrup, me colocou em contato com os compositores de  São Paulo. E deu no que deu, nessa maravilha.

DM – Em entrevistas você já deu pistas de que uma continuação de Mulher do Fim do Mundo poderia sair. Já existe algo concreto neste sentido?

Elza Soares: Antes de qualquer coisa, tenho a vontade de gravar A Mulher do Fim do Mundo em DVD. O projeto está andando e o registro deve ser feito em uma comunidade de São Paulo.

DM – “Mulher do Fim do Mundo” traduz a contemporaneidade de forma muito clara e poética? Como as pessoas tem reagido, por exemplo, à música Benedita e Maria de Vila Matilde? Tem despertado consciências?

Elza – No show, eu percebo que as pessoas cantam junto, gritam junto as letras das música. Acho que isso acontece porque se sentem representadas. Na minha página no Facebook, também chega muita mensagem dando o retorno, as pessoas fazem verdadeiros depoimentos de como essas músicas as ajudaram.

DM – A sua voz há décadas ecoa forte, literalmente, contra o preconceito racial e de gênero. Um exemplo é a música de A Mulher do Fim do Mundo “A Carne”. Depois deste tempo de resistência e cantorias, acredita que sua trajetória tornou o caminho mais brando para outras mulheres negras?

Elza – Sem dúvida, mas o mérito não é só meu. Muitas mulheres maravilhosas e inspiradoras colaboraram. Acho a representatividade algo muito importante e ainda tem um longo caminho pela frente.

DM – Quando foi que viu que seu destino estava ligado à música?
Elza –
Eu comecei a cantar por necessidade. Não tinha dinheiro, meu filho doente, e fui fazer um teste no programa do Ary Barroso. A partir dali, não teve saída.

DM Você casou com 12 anos, ficou viúva aos 21 anos, perdeu cinco filhos, mas sempre que cai parece surgir mais forte. Qual é o segredo desta sua fortaleza?
Elza –
Eu amo a vida, amo viver. A música, os desafios. É o prazer de viver.

DM – A vida com Garrincha não foi muito fácil, né? Mas, olhando para trás, ele foi o grande amor da sua vida?
Elza Soares –
Não foi fácil. Mas o Mané foi um grande amor. Tanto que tô falando dele até hoje!

DMRevista: Pode fazer um convite para os goianos assistirem ao show?

Elza Soares: Goiânia, venha assistir o show “A Mulher do Fim do Mundo”. Tem sido emocionante em todos os lugares do Brasil e agora chegou a vez de vocês. Espero todos lá. Um selinho da Elza!

Comentários