Cultura

Casa das Máquinas retorna com discão que mescla hard rock e progressivo

Cartão de visitas começa com o vocalista Cadu Moreira, também guitarrista e por vezes violonista da banda, urrando qualquer coisa como “ando tão down, quero extravasar, jogue pra cabeça”

diario da manha
Casa das Máquinas: clássico do rock progressivo - Foto: Divulgação/ Monstro Discos

Notícia de última hora: a Casa das Máquinas está de volta. Após hiato de 46 anos, a banda pioneira do rock progressivo brasileiro lança pela gravadora goiana Monstro Discos um disco vigoroso, com riffs ao sabor do hard rock, sintetizadores psicodelicamente lisérgicos, baixo marcando o compasso da música, letras afiadas e um vocalista que sabe cantá-las como se estivesse voando no ar. Não duvide, “Brilho nos Olhos” – álbum cujo nome o Diário da Manhã havia antecipado em 2020 – sai do forno pegando fogo após ser cozido na temperatura do caldeirão de um rockão magistral.

O cartão de visitas começa com o vocalista Cadu Moreira, também guitarrista e por vezes violonista da banda, urrando qualquer coisa como “ando tão down, quero extravasar, jogue pra cabeça”. Vamos viajar, juntos eu e você? Apertem os cintos. Depois de “Tão Down”, a primeira faixa do disco, parece que retornamos aos anos 1970, longe de toda a cidade, nessa casa do tal rock and roll e no ninho do passarinho que já nasce voando sem aza: “Brilho nos Olhos” é um lar de maravilhas que faz brilhar seus olhos e ouvidos. Seja bem-vindo, está na hora de curtir, ufa, o rock vive!

É que os certo que os roqueiros brasileiros, nos anos 70, tinham cara de bandido. A Jovem Guarda migrara para o pop romântico, com as baladinhas inocentes de Roberto Carlos. Riffs? Nada deles, ficaram de lado. Os Beatles já não existiam. Mick Jagger, Keith Richards e companhia ainda lançaram “Sticky Fingers” e “Exile On Main Street”. Abaixo da linha do Equador, contudo, a tropicália – seja com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Tom Zé ou Os Mutantes – buscava botar nas paradas uma música jovem, mas foi uma experiência que não durou até o final de “Alegria, Alegria”.

Nessa época, nadando contra a corrente, surgem bandas que mudaram tudo, como Bixo da Seda, O Terço, Vínama e, óbvio, Casa das Máquinas: padrões foram rompidos, uma cartela de ácido jogada sob o rock brasileiro e a estética progressiva, em voga na Europa com Jethro Tull, Emerson Laker & Palmer e The Moody Blues, dava indícios de que era preciso refinar o rock. Foi nessa toada que a Casa das Máquinas gravou o disco homônimo em 1974, “Lar de Maravilhas” no ano seguinte e “Casa de Rock”, de 1976. Os paulistanos, então, entraram num hiato findado há pouco.

Com a sonoridade alternando entre o rockão puro do primeiro disco e a viagem lisérgica dos dois seguintes, o single “A Rua” (escolhido como música de trabalho, ainda existe isso?) traz versos com pegada social que falam sobre um problema bem comum nas cidades. “Nunca fizemos críticas social e política, mas chegou a hora. Criança na rua é um problema desde os anos 60”, disse ao DM o tecladista Mario Testoni, que está na banda desde o segundo álbum. “A música é do Aroldo Binda, ex-guitarrista da Casa das Máquinas, e existe há 25 anos: estava guardada na gaveta.”

Mas a mudança mais perceptível, que atinge seu ápice em “Ato Lisérgico” e “Drama da Vida”, está no vocal. Nos anos 70, contou Testoni ao repórter, eles eram agudos e tinham um quê hard rock. “Mas o mundo mudou. É difícil seguir com a mesma sonoridade. Hoje, toca-se diferente”, afirmou. Apesar das peculiaridade de uma época e do desafio em voltar à parada sabendo que o rock se transformou, uma coisa é certa: a Casa das Máquinas segue com o estilo que lhe colocou entre os maiores nomes da história do rock brasileiro. “A banda é uma banda de classic rock e rock progressivo, por isso a nossa demora em gravar. Não queríamos perder nossas raízes.” 

Os fãs já puderam sacar as músicas antes do lançamento do disco (que também terá versão em LP). Por ser o primeiro de inéditas desde “Casa de Rock”, havia uma espécie de transtorno generalizado entre os roqueiros, os lisérgicos e de bons ouvidos: “A Rua”, “Tão Down”, Horizonte” e a faixa-título chegaram ao público como hits entre os anos de 2020 e 2021, porém aparecem num disco, costuradas por outras canções e inseridas num conceito. Até Kiko Zambianchi, sabendo que um álbum da Casa das Máquinas é um acontecimento histórico, cedeu uma faixa para o grupo.

Não qualquer uma, dessas que servem para encher linguiça, mas uma boa música, uma das melhoras. Qual?  Ora vejam, “Ato Lisérgico”. Enquanto as novas versões de velhas (e boas) canções não chegam, fiquem com “Brilho nos Olhos”: não é qualquer disco. É – repitam comigo – um discaço de rock para ser ouvido no último volume. Só ouçam.

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