Cultura

Da pequena Taiobeiras ao sucesso, entenda como Marina Sena virou fenômeno

Marina Sena – que se apresenta em Goiânia na próxima sexta, 6 – estourou, logo de cara, com o primeiro disco que lançou

diario da manha
Marina Sena - Fotos: Fernando Tomaz/ Divulgação

Seus braços estão abertos, sua roupa brilha, seu jeito cativa. O sorriso, a partir do qual ela desnuda-se para o público, hipnotiza a plateia. Está agarrada ao microfone, andando pelo palco. A voz é deliciosamente anasalada. Os cabelos perdem-se pela força do vento. E movem-se no ritmo das faixas do disco “De Primeira”. E ela mexe os quadris embalada pelo suingue dançante que lembra Duda Beat. Há nela o empoderamento de Gal Costa com a sensualidade de Sônia Braga. Há nela a vontade de posicionar-se contra o machismo, o sexismo, a porra toda. Há nela a força do desejo.

Marina Sena, 25, é uma artista e tanto. É uma popstar sedutora, cheia de brasilidade, dessas que fazem o jornalista, num estalar de dedos, perder a objetividade no texto. Mas essa recente revelação da música brasileira estourou não foi à toa. Com um jeito simpático e sexy, por vezes até fofo, o mesmo que ela utiliza nas redes sociais para ter um diálogo desprovido de filtros com os fãs, Marina embalou noites quentes, lembrou-nos das delícias em se mergulhar na piscina para saborear laranjas, se tocar, me tocar, te tocar: é impossível, ao escutá-la, não recordarmos as galas do amor.

Toda a percepção estética de Marina, assim que lançado o disco “De Primeira”, em agosto do ano passado, logo a fez alcançar 4,5 milhões de reproduções no Spotify e outros bocados mais no Youtube. O clipe de “Me Toca”, por exemplo, mostra a cantora num cropped de strass, rebolando ao ritmo sensual da música, brincando com buquê de rosas, bebendo taças de Martini e saboreando pedaços de pizza, com suas peças de roupas coloridas e brilhantes cheias de ousadia e, por que não?, alegrias também: Marina é uma estrela que não deve deixar de brilhar nos holofotes tão cedo.

Segundo o crítico musical Mauro Ferreira, em retrospectiva no ano passado, Marina explodiu com um álbum mix pop de ritmos tropicais sem abrir mão de um refrão bem urdido em músicas como “Me Toca”. “O grande diferencial para a projeção do álbum ‘De Primeira’ e da própria Marina Sena no universo pop foi a propagação viral da música ‘Por Supuesto’ na rede social TikTok. O poder multiplicador dessa jovial rede de compartilhamento de vídeos catapultou Marina Sena ao sucesso de forma instantânea”, analisou Mauro, que é ligado à música popular brasileira.

Nascida em Taiobeiras, município interiorano de Minas Gerais, Marina Sena sentia-se excluída durante a infância a parte da adolescência, pois a viam como a maluca da cidade, com gostos diferentes, sonho de ser artista e ganhar o mundo. Aos 18, no entanto, a sorte mudou: ela meteu o pé na estrada, like a rolling stone, e mudou-se para Montes Claros, cidade dez vezes maior que o município em que veio ao mundo. Lá, como ela mesma diz em entrevistas, tornou-se uma celebridade e símbolo de uma artista que sabia a medida certa de expressar-se com o corpo.

Marina Sena sentia-se excluída durante a infância a parte da adolescência

Para a DJ Gabi Matos, uma das idealizadores do coletivo Selvática, Marina Sena – ao tomar posições claras em seus shows – representa “muito mais do que a gente imagina”. “Com isso, vai criando um reforço nas pessoas sobre posicionamentos, sobre a posição da mulher. Em suas músicas, ela fala sobre sentimentalismo, mas ela também fala sobre o estar só da mulher. Aquela música que ela fala ‘eu voltei pra mim’, que é estar bem na solitude, acho incrível. E isso cria um reforço positivo às mulheres e também para as outras pessoas”, afirma Gabi, em entrevista ao Diário da Manhã.

Durante a apresentação da mineira no Lollapalooza, enquanto cantavam a música “Me Toca”, ela e as bailarinas fizeram o “L” com a mão. O símbolo, identificado com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, descumpria uma decisão do TSE que proibia manifestações a candidatos ou partidos políticos no festival. Essa, contudo, não foi a primeira vez que a artista – compositora de todas as faixas do disco “De Primeira” – revelou seu posicionamento político. Em suas redes sociais, expressa seus posicionamentos e, se nelas compartilha a sensação que foi conhecer Gal Costa, de quem Marina é fã de carteirinha, também não deixa de mostrar suas opiniões políticas.

Marina pede ainda que os fãs maiores de 16 anos tirem seus títulos de eleitor. Aplaudida pelo público, a cantora, agora mostrando o dedo do meio, declarou que “não é possível que com tanta gente tirando isso nós não consigamos (eleger o ex-presidente)”. “Eu acredito que qualquer mulher que esteja à frente da mídia, de um sucesso, já é uma própria imagem do empoderamento feminino, do que a gente pode fazer, do que a gente pode alcançar, e como a gente se sente representada por ser uma mulher chegando a esse patamar na cena alternativa brasileira.”

Caso raro de disco de artista estreante a provocar burburinho, “De Primeira” foi um dos melhores lançamentos de 2021

Caso raro de disco de artista estreante a provocar burburinho, “De Primeira” foi um dos melhores lançamentos de 2021. Os singles, “Me Toca” e “Voltei Pra Mim”, estão na boca do povo. E seus refrões, que ela já revelou ser por eles apaixonada, são criados no momento em que lhe vem uma melodia à cabeça ou uma letra qualquer. “Nome incontornável na retrospectiva da música brasileira em 2021, a cantora e compositora mineira Marina Sena pode ser apontada como a revelação do ano, embora, a rigor, já estivesse em cena desde 2015 como vocalista d’A Outra Banda da Lua e, a partir de 2019, da já extinta banda Rosa Neon”, diz Mauro Ferreira.

Quem se importa? Para os fãs, resta esperar mais uma semana para assisti-la subir ao palco do Centro Cultural Oscar Niemayer (saída para Senador Canedo) e tocar a íntegra do álbum “De Primeira”. “Como qualquer outro artista maior, grande, trazendo-os e viabilizando suas apresentações em Goiânia, ainda é difícil. Porque, normalmente, são eventos feitos sem patrocínio. É um tiro que você dá, tentando e esperando que as pessoas valorizem a cultura. Acho que a dificuldade maior é tentar conscientizar o público a voltar aos eventos pós-pandêmicos, apesar dos resquícios do coronavírus”, aponta Gabi Matos. O aceno é claramente positivo, por que não voltarmos à cultura com Marina Sena no Festival Obalalá?

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