Cultura

Em novo disco, Criolo agarra-se à música para suportar dor da perda

Terceiro disco do rapper estava com tudo certo para se chamar “Diário do Kaos”, nome da primeira faixa do disco

diario da manha
Criolo: rapper lança disco atento ao Brasil pós-pandemia - Foto: Helder Fruteira/ Divulgação

Criolo tem pressa. Após se dedicar ao samba em “Espiral de Ilusão” (2017), o cantor e compositor lança um disco em sintonia com as turbulências do Brasil contemporâneo. Nada escapa de suas lentes, nem a covid-19 (ele perdeu a irmã, aos 38 anos), muito menos o racismo, tampouco a desigualdade ou as turbulências sociais. A dimensão, como não poderia ser diferente, é de um disco poderoso. Milton Nascimento canta nele, revela-se a erudição do maestro Jaques Morelenbaum, bem como a intensidade do soul de Liniker e o equilíbrio da poeta Maria Vilani, mãe de Criolo

“Sobre Viver”, álbum disponível no streaming, tem tudo para ficar. Sua gestação ocorreu a partir da dimensão de perenidade, porque é um retrato de autor com a experiência de quem viveu na periferia e sentira o peso dos ‘corres’ da vida. Amarrado ao passado, ao hoje e ao agora, o disco pode ser compreendido, logo na primeira audição, como uma sequência natural da trilogia iniciada nos – esses alçados, sim, à condição de clássicos da música brasileira nos anos 2010 – “Nó na Orelha”, de 2011, e “Convoque Seu Bunda”, de 2014, álbum apresentado em Goiânia no Bananada, em 2015.

O terceiro disco do rapper estava com tudo certo para se chamar “Diário do Kaos”, nome da primeira faixa do disco. Mas sendo Criolo um cara antenado ao Brasil contemporâneo, às cartadas dadas na arena política e à dor de ter um familiar perdido na pandemia, optou por mudar. O novo título? “Sobre Viver: “A música fala da importância do rap nas nossas vidas. Tem outros temas, mas não quero falar, porque essas ideias só se completam quando chegam no coração de cada pessoa.”

Da primeira à última estrofe, como se estivesse pedindo um minuto da nossa atenção, a letra versa sobre uma sociedade desigual, profundamente adoecida, com medo e desesperança, em que tudo aparece estar perdido, pessoas tristes e mergulhadas no caos. É uma tragédia, porém representa um sentimento coletivo, de crise, mais de 600 mil mortos. Todo o disco de Criolo está permeado por esses sentimentos e, na primeira faixa, ele diz que “se isso é um pesadelo/ aonde a morte se aproxima/ tudo o que te leva à depressão/ a quase morte/ o rap salva/ o rap é mundo/ esperança.”

“Eu vim do bairro que depende do Bom Prato, irmão. E os que nem o Bom Prato tem? Todo dia é vitória do sistema. A diferença é que, para vocês, nós temos que ficar só onde nós ficamos. E aí, conversa com a ‘Pretos Ganhando Dinheiro Incomoda Demais’. Eu poderia dar outro nome para a canção, mas eu faço questão do título ser o bagulho central, para quando estiver numa rádio, na televisão, a pessoa falar o nome da música. Mesmo sem ouvir, o nome da música já abre o debate”, diz Criolo, comentando a faixa “Pretos Ganhando Dinheiro Incomoda Demais”, uma das mais politizadas do disco.

Criolo se movimenta com grandeza entre o luto e a luta que regem o engajado  álbum 'Sobre viver' | Blog do Mauro Ferreira | G1
Sem citar Bolsonaro, músico tece críticas ao governo do ex-capitão – Foto: Helder Fruteirta/ Divulgação

Na faixa “Moleques São Meninos, Crianças São Também”, a terceira do disco “Sobre Viver”, o rapper mostra-se cirúrgico ao tocar num ponto delicado para uma elite que trata seus filhos como crianças e as crianças das classes menos favorecidas são taxadas, por eles, como desimportantes. “Filho de rico é tratado como criança, filho de pobre é tratado como lixo. É sobre como a crueldade vai visitando cada vez mais cedo nossas crianças, como nós vamos perdendo a juventude do país. É sobre como morre a infância no Brasil por causa do descaso social, do abandono”, analisa.

Em “Ogum Ogum”, num dueto com Mayra Andrade, Criolo faz uma espécie de prece e pede licença para uma benção, numa tentativa de relembrar a fé de matrizes afro. A música, que traz uma força poética, quase como se fosse um pedido de perdão, é um dos momentos mais grandiosos do disco. “A gente teve uma reaproximação recente, por causa do trabalho, a canção já estava se encaminhando e veio a ideia de apresentar para ela. Ela gostou muito da música e colou junto, deixou a energia maravilhosa dela lá”, afirma o músico, dizendo essa canção é um “grito de desabafo”.

Embora não cite o governo de Jair Bolsonaro, Criolo fala sobre a gestão do ex-capitão em “Sétimo Templário”. Segundo o rapper, a letra mostra como hoje, apesar de o mundo ser civilizado, “ultra pós-moderno”, existem linhas antigas sobre como lidar com a civilização ao redor do mundo. “O medo é a ferramenta fundamental de várias coisas que regem o planeta. Vai para além do texto escrito. E quem está aí, está porque tem que estar, mas não é tudo isso. É um boneco utilizado por uma força muito maior.”

A música “Me Corte na Boca do Céu A Morte Não Pede Perdão” é um dueto com Milton Nascimento a partir de uma melodia conhecida de Chico Buarque, numa letra que desagua perto daquilo que, de acordo com Criolo, é a pedra fundamental de como a música surgiu. Mais uma vez, diz o músico, ele cantou com “arranjos incríveis”. Já Milton Nascimento declarou que, assim que ouviu a música, quis gravá-la. E Criolo rasga elogios ao músico mineiro. “É o maior de todos, mano. Ele faz uma coisa dessa, ele dá um presente que não é só meu, é de todo mundo que acredita em mim.” 

Se “Yemanjá Chegou” é “um sorriso” – nas palavras de Criolo – que se expressa por meio da fraternidade, “Pequenina”, que tem a participação de MC Hariel, Liniker, Maria Vilani e Jaques Morelenbaum, é definida por Crilo como “aquele rap nosso de cada dia”. Para o músico, contar com Liniker, expressão máxima de pureza na arte musical, de se esparramar, de fazer com que todos beijem seu coração quando está no palco, é uma honra muito grande. “E que honra foi quando eu mostrei o som para ela, que é uma música especial que fala muito da minha mãe.”  

Por fim, a faixa “Quem Planta Amor Aqui Vai Morrer”, com participação de Tropkillaz”, dispensa maiores apresentações e diz que, em meio ao ódio, o amor não tem serventia – embora seja essencial para suportar a vida. Com “Aprendendo a Viver”, última música do álbum, descobre-se o motivo pelo qual “Sobre Viver” é um dos grandes lançamentos de 2022 em que Crilo, junto com Emicida, Marcelo D2 e Rappin Hood”, amplia as possibilidades de estética do rap no Brasil.   

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