Cultura

"O vizinho silencioso": caderno virtual traz reflexões e depoimentos de vítimas do Césio-137

O cineasta Benedito Ferreira traz seis personagens que viveram o evento para contar suas histórias em seu projeto "O vizinho silencioso", ele conta também com fotografias e desenhos dos dois principais terrenos contaminados pelo césio

diario da manha
Foto: Reprodução/Benedito Ferreira

O ano de 1987 foi traumático para Goiânia, uma pequena cápsula azul estava prestes a mudar a história da metrópole que, mais tarde, se tornaria o local com o maior acidente radiológico em área urbana no mundo. O Césio-137 fez vítimas fatais e os goianienses se viram diante de um desastre sem precedentes.

Para contar as histórias, o cineasta Benedito Ferreira traz seis personagens que viveram o evento para contar suas histórias em seu projeto “O vizinho silencioso”, ele conta também com fotografias e desenhos dos dois principais terrenos contaminados pelo césio.

Um dos entrevistados é Roberto Santos Alves, catador de recicláveis que teve contato com a cápsula de Césio-137 na antiga sede do Instituto Goiano de Radioterapia, e precisou amputar o braço em decorrência do que a cápsula fez com seu corpo.

Benedito conta sobre o processo de criação do projeto, que foi o único de Goiás aprovado no Rumos Itaú Cultural, um dos prêmios mais importantes do país.

“Mais do que tratar da ideia de passado, para mim o que me intriga como artista é pensar no e para o presente. Moro no centro de Goiânia e é inevitável não pensar nisso. O vizinho silencioso foi aquecido depois que realizei um filme de ficção, que se chama Algo do que fica, cujo mote era uma família numa Goiânia contemporânea que vive na rua 57. Agora, em O Vizinho Silencioso, o objetivo é ouvir, abrir a câmera e encontrar as pessoas”, conta.

O cineasta afirma que aborda o tema para que não seja esquecido e que esta é uma maneira singela de pensar a história de Goiânia.

“Gostaria que mais pessoas no Brasil, e no mundo, pudessem conhecer, não fizessem que essa história seja esquecida. Sinto que a arte de estimular o lembrar também esteja no cerne de quando a gente faz um projeto como esse. É também uma maneira singela de pensar a história da cidade”, afirma.

“Acredito que os terrenos cimentados, sem qualquer tipo de identificação, funcionam como parênteses na arquitetura e na memória do centro da cidade, especialmente. Gostaria que esses espaços pudessem, ao menos, contar um pouco da tragédia. São locais muito emblemáticos”, destaca, sobre a casa onde viveram vítimas do acidente na região central.

Contar uma história que mudou a história da cidade não é uma tarefa fácil, e Benedito trata o assunto com cuidado ao falar com as vítimas.

“Na operação de lembrar e narrar, muitas vítimas nos contam trechos do que viveram em 1987 e nos anos seguintes. São depoimentos marcados por muitas temporalidades, mas o que mais me chama a atenção é perceber como estão hoje, quais são suas questões, como pensam o futuro, o que querem para Goiânia e para suas vidas”, conta o cineasta.

O artista finaliza falando sobre alguns detalhes do projeto.

“O caderno digital é a primeira parte de O Vizinho Silencioso, num segundo momento vamos realizar uma videoinstalação em espaços institucionais, como em uma exposição de arte, por exemplo. Levou um tempo para ser finalizado. Eu queria um projeto de escuta, sem firulas. Que fosse essencialmente simples e trouxesse a fala como ponto de partida. Esse jeito de conceber o projeto é uma maneira de afirmar que precisamos sim enquanto sociedade encarar os desdobramentos da tragédia”, conclui.

O caderno pode ser acessado gratuitamente a partir do dia 28 de maio em beneditoferreira.com.

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