Cultura

Novela Pantanal tem potencial para ser tão revolucionária quanto a obra original?

Especialistas falam sobre avanço da devastação, mudanças nos modos de vida e impactos da concentração de terra no bioma

diario da manha
Juve e Juma em cena da novela - Foto: João Miguel Júnior/ Globo

Nara Lacerda

Brasil de Fato

Fenômeno raro em tempos de streaming: a novela Pantanal tem alcançado recordes impressionantes de audiência para a TV aberta. De acordo com o site especializado Na Telinha, na última semana do mês de maio, a trama foi vista por mais de 77 milhões de pessoas. O alcance é o maior registrado em um ano pela TV Globo, que transmite a obra de Benedito Ruy Barbosa em horário nobre.

O impacto não é novo para o autor. A primeira versão de Pantanal – exibida pela extinta TV Manchete em 1990 – é considerada um marco da dramaturgia brasileira e trouxe impactos sociais inéditos para uma peça de ficção. Além de ter batido recordes de audiência e revolucionado a linguagem das novelas, a trama foi responsável por popularizar o discurso de preservação do meio ambiente.

“A novela abriu um leque bastante largo para as pessoas não apenas admirarem a natureza, mas para pensarem nela como um santuário de vida. Uma essência pujante de vida, porque nós dependemos dela, nós somos partes integrantes dela” afirma o jornalista, crítico e professor de cinema Luiz Joaquim.

Admirador declarado da primeira versão de Pantanal, o professor conta que a trama usou recursos que transportavam espectadores para o bioma, o que ajudou a criar o sucesso e o impacto. “A novela tinha muitos respiros entre as cenas, muitos momentos de imagens do pantanal, cobertas por música. Como se fossem tempos mortos, mas no fim das contas não eram. Era uma imersão do espectador naquele ambiente”.

O papel de obra na criação de uma consciência ambiental popularizada no Brasil é reconhecido inclusive em trabalhos acadêmicos. Em texto apresentado no Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação de 2008, que virou livro, os pesquisadores Beatriz Becker e Arlindo Machado, afirmam que a novela parecia “querer praticar uma intervenção ecológica” na televisão. Essa intervenção também foi observada no campo da política. “Pantanal antecipou, portanto, o debate sobre o tema no país, estimulando ações políticas e movimentos sociais”, diz o artigo.

Devastação ambiental

Mais de trinta anos depois, a versão atualizada da trama precisou se adaptar à realidade de um bioma que sofreu grande devastação no período. Análises feitas pela plataforma MapBiomas desde 1985 indicam que a área destinada a atividades humanas, como agricultura e pecuária, cresceu mais de 260%. Desde 1988, o Pantanal perdeu quase 30% das superfícies de água.

O impacto é mencionado entre personagens, que narram como paisagens mudaram ou desapareceram. Vivido pelo ator Marcos Palmeira, o pecuarista José Leôncio costuma contar sobre ninhais de pássaros que sumiram. Símbolo do Pantanal, a aglomeração de aves para reprodução em cenários paradisíacos é cada vez mais difícil de ser vista, segundo o personagem.

As queimadas históricas que destruíram entre 20% e 30% do Bioma em 2020 também aparecem no enredo. Em encontro com a personagem Irma, de Camila Morgado, o chalaneiro Eugênio, interpretado por Almir Sater, levantou a temática. 

“Acho que tem mais avião no céu do que arara azul. Para quem conhecia isso aqui do jeito que eu conheci… as lavouras vindo para perto do Pantanal, nosso rio assoreando, dejetos na água, fogaréu alastrando e os bichos, coitados, tendo que se virar sozinhos. Eu amava mais o Pantanal de antigamente, quando o tal dito progresso estava mais longe de nós”.

Para causar o mesmo impacto da antecessora, portanto, a obra terá que lidar com novos e mais graves problemas e ir além do simples reforço da conscientização ambiental que já existe. “O desafio é atualizar o cenário de pressão que o bioma vem sofrendo”, afirma o ambientalista Vinícius Silgueiro, que coordena o Núcleo de Inteligência Territorial, do Instituto Centro de Vida (ICV).

Concentração de terra

A percepção do personagem de Almir Sater sobre os impactos do que ele chama de progresso no Pantanal se traduz também na concentração de terra. Histórica no país, ela se apresenta de maneira preocupante no Bioma. No artigo A Estrutura Fundiária do Pantanal Brasileiro, os pesquisadores Adalto Moreira Braz, Danilo Souza Melo, Paola Vicentini Boni e Hermiliano Felipe Decco apontam que o predomínio das grandes propriedades é notório na região.

Apenas 3% das terras são públicas e se dividem entre Unidades de Conservação, Reservas Indígenas e assentamentos da reforma agrária. Os outros 97%  das propriedades são terras privadas, a maior parte destinada a atividades da agropecuária. “O controle da terra pelas propriedades privadas, permite o controle da natureza no Pantanal, muito maior do que as Unidades de Conservação”, alertam os autores. 

O estudo destaca ainda que a tradicional pecuária pantaneira, conhecida por gerar impactos menos violentos ao bioma, vem sendo substituída pela pecuária extensiva tradicional, “caracterizada pelo modo de produção capitalista, ameaça a natureza e populações tradicionais colocando em oposição interesses privados e públicos”.

Na novela, a luta pela terra é representada de certa forma pela família Marruá. O casal Maria e Gil chega ao Pantanal fugindo de pistoleiros envolvidos em um esquema de grilagem em Santa Catarina. No novo lar, os dois ocupam um pedaço da propriedade do pecuarista José Leôncio, que permite que a família siga vivendo no local. 

A história romantizada mostra uma relação de paz entre o grande fazendeiro e a família sem terra, pouco crível. Já o grileiro Tenório, vivido por Murilo Benício, representa melhor a realidade. Especulador e envolvido em esquemas de corrupção, ele foi responsável por fraudar documentos e enganar Maria e Gil com a venda de terrar irregulares no passado, enredo que terminou com a morte do casal. 

Sem pudor, o próprio personagem admite os crimes em uma das cenas da trama e diz que começou no ramo de venda e compra de terras como “caçador de Jacu”. O personagem diz que “a gente chamava de jacu os trouxas que compravam terras sem examinar direito os documentos, as escrituras. A maioria eram pequenos sitiantes que tinham juntado um dinheirinho”.

Modos de vida

A novela faz questão de marcar os contrapontos entre as figuras de José Leôncio e Tenório – respectivamente o fazendeiro do bem e o especulador corrupto. Leôncio representa uma figura típica da região, o pantaneiro, que historicamente cria gado em acordo com o tempo e as características da natureza local.

“Os pantaneiros entendem muito bem a dinâmica do bioma. Eles não lutam contra a natureza e isso é muito claro. Tem várias ameaças que estão fora do Pantanal e que ameaçam mais do que quem está dentro”, afirma o biólogo Gustavo Figuerôa, da organização SOS Pantanal. Ele ressalta que a pressão sobre o ecossistema atualmente vem do crescimento da monocultura de soja e do aumento da pecuária não sustentável.

Figuerôa afirma que  muitas fazendas estão sendo passadas de geração ou vendidas. “Pessoas de fora, que não entendem essa dinâmica, querem produzir como produzem em outras biomas, que já destruíram muito. Estão com essa mentalidade de ir para lá, explorar o máximo que dá e é aí que está o problema, o Pantanal não sustenta.”

Entre 2006 e 2017, o número de cabeças de gado presentes nos municípios do Pantanal do Mato Grosso do Sul saltou de cerca de 780 mil para mais de 4,2 milhões. Em Mato Grosso, a escalada também é expressiva, foi de pouco mais de 500 mil para 3,4 milhões. 

O biólogo considera que a novela coloca pontos cruciais de forma que a população possa entender. Mas somente a obra não tem como abarcar toda a situação complexa que vive o bioma. “Meu sonho é que a novela conseguisse tocar na ferida, para que políticas públicas fossem mudadas, para que a opinião popular entendesse  que é importante preservar as cabeceiras dos rios, preservar o entorno do Pantanal e preservar lá dentro. Não dá para plantar soja, não dá para super explorar as áreas, precisa fazer o manejo integrado do fogo. Esse seria o ideal”, conclui.

Edição: Thalita Pires

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