Cultura

‘Talvez Goiânia seja metonímia do Brasil’, diz poeta Tarsilla Couto de Brito

Professora de Literatura na Faculdade de Letras da UFG, Tarsilla Couto de Brito lança a obra “A Mulher Sem Metafísica”, na qual discute por meio da linguagem poética o papel da mulher na sociedade

diario da manha
A poeta Tarsilla Couto de Brito: literatura contra o autoritarismo - Foto: Divulgação

Nunca é apenas raiva. Segundo Tarsilla Couto de Brito, professora de Literatura na Faculdade de Letras da UFG, os bancos financiam a grande mídia, bancam guerras, eleições. Bancaram também o rompimento na barragem de Mariana, o incêndio na Boate Kiss, os deslizamentos em Teresópolis, o massacre em Suzano, o rompimento da Barragem em Mariana. Em “A Mulher que Nasceu em Metafísica”, obra que Tarsilla lança pela editora Grafisch Hidrolands Atelier, esses temas costuram os versos e, como se fosse um grito contra o autoritarismo, tornam o livro urgente.

Ao DM,a autora fala sobre os três títulos que publicou, comenta o movimento de novos autores que toma conta da literatura goiana, analisa a crônica no mundo contemporâneo e diz: “não sei se desmundar é necessário, mas é meu jeito de circular.” Tarsilla participa neste domingo, 12, do Palavra Cruza, encontro de escritores promovido pela feira e-cêntrica. Confira os melhores momentos da entrevista a seguir:

Diário da Manhã – “A Mulher que Nasceu sem Metafísica” é sua terceira obra, mas você mesmo diz que é a primeira. Como nasceu essa parceria com o artista visual Marcelo Solá, que sempre prima nas obras que lança pela Grafisch Hidrolands Atelier por belas artes gráficas?

Tarsilla Couto de Brito –  Em 2019, os poemas estavam prontos mas eu ainda não tinha ideia de como publicar. Então houve uma convocatória para a 2ª edição do Festival de Arte Experimental Refluxo organizado pelo professor Juliano Moraes da FAV. Eu estava em Buenos Aires fazendo um curso de formação. Mas a professora Alice Araújo da UNB, com quem trabalho no grupo de Crítica e tradução do Exílio, teve a ideia de inscrever os poemas como proposta de performance no Festival. Participaram da performance tanto os integrantes do meu grupo Desmundo quanto integrantes desse grupo que chamamos de Exiladas.

A performance consistiu em escrever trechos dos poemas no pátio de entrada do Centro Cultural da UFG. Há o registro fotográfico da performance no final do livro, feito pela professora Alice. A partir daí veio o convite do artista Marcelo Solá para a publicação do livro, o que me deixou muito feliz, pois o Marcelo é um artista que eu admiro e que soube reunir os poemas num livro que pode ser entendido como um objeto de arte. Quando penso nessa história, quando tenho a oportunidade de contá-la, faço questão de mencionar tantos nomes porque essa história mostra como um livro é produto de muitos encontros – da poesia com a arte, neste caso; e de muitas pessoas também.

DM – Em “A Mulher que Nasceu sem Metafísica”, no poema VII, há um trecho que particularmente acho interessante: “no ano em que david bowie morreu/ com sessenta e nove anos/ teresa nasceu/ com cinquenta e dois centímetros”. Mais adiante, no texto de número “XV”, o eu-lírico diz que “não queria ter filhos/ estava decidida a não ter filhos/ mas teve (porque sem metafísica/ as coisas mudam)”. Por que tudo se transforma com a falta de uma metafísica?

Tarsilla –  Acredito que essa coerência que você encontra entre as peças advenha do fato de que O livro A mulher que nasceu sem metafísica não é apenas uma coletânea de poemas, antes é um projeto poético que surgiu da leitura do “Tabacaria” de Álvaro de Campos em que o sujeito lírico avista “Esteves”, um personagem pessoano sem metafísica. O poema do Pessoa é pontuado por uma vontade de acreditar em alguma coisa e esse Esteves, quando aparece, ele olha para o sujeito lírico, lhe dá existência real, porém sem ideal nem esperança. Essa ausência de descrição mais detalhada do Esteves sempre me fez perguntar o que seria uma pessoa sem metafísica. Sem nunca ter encontrado uma resposta certeira, mas sempre compartilhando das angústias do não-saber, resolvi inventar essa mulher sem metafísica e, por meio dela, viver as experiências que só a linguagem poética pode oferecer.

O livro estrutura-se, assim, em quatro partes que brincam com os princípios da Metafísica, essa “ciência” que pretendeu estudar e analisar o objeto primeiro de todas as filosofias, aquele que condicionaria a validade de todos os saberes. Por outro lado, há filósofos que já declararam a morte da metafísica. Os títulos das partes jogam com essa “morte”, quando, por exemplo, transforma a ideia de “filosofia primeira” em uma filosofia do Oco. Seguem-se vários poemas sobre esse vazio que não é primordial, mas um vazio que foi intencionalmente escavado. Juntando essas coisas, tabacaria e metafísica, incertezas e possibilidades de reinvenção das verdades tidas como prontas, acabei escrevendo esse conjunto de poemas em terceira pessoa que imagina a vida, a linguagem, as raivas, as frustrações, os amores de uma mulher que nasceu sem a certeza de que exista esse conhecimento primeiro. Daí nasce a imagem dessa mulher que compara a ausência de metafísica a um corpo que não possui um dos pulmões. Ninguém morre por não ter um pulmão, mas sobrevive-se, segue-se vivendo, em permanente transformação porque o pulmão que sobra tem de expandir-se, dar conta de manter o corpo vivo, e essa expansão é da ordem do que pode ser dito, imaginado, questionado. Isso está muito claro nos dois poemas que você menciona na pergunta, afinal a maternidade é um desses temas que são tratados como verdade absoluta, mas cuja vivência, ao mesmo tempo, traz muitas dúvidas que precisam ser “cavadas”.

DM – Como todo um todo, “A Mulher que Nasceu sem Metafísica” é permeada por imagens poéticas, por assim dizer, intrigantes, como a que afirma que “goiânia é um câncer azul a céu aberto”. Quando a capital goiana virou esse câncer?

Tarsilla – Talvez Goiânia seja uma metonímia do Brasil nesse poema. Ali os versos tensionam o modo como mudando o nome das ruas nós apagamos uma memória que nunca deveria ter sido abandonada pelo que de ético, político e público ela contém. O acidente do césio 137 e todas suas consequências letais foram apagadas assim como nossa memória da ditadura e da colonização tem sido apagada há tempos. O câncer surge então como uma metáfora desse apagamento, desse esquecimento forçado por políticas públicas, um esquecimento instrutivo, pedagógico, educador mesmo. Veja o que estamos vivendo agora politicamente neste país: essa conjunção maldita de governo, pandemia e negação.

Mas isso não se resume a um agora que começou em 2018. E infelizmente não vai terminar com o novo presidente com que tanto sonhamos, ainda que esse seja o primeiro passo. O poema foi escrito antes. Assim como bolsonaristas existiam antes e infelizmente vão continuar existindo depois. Isso diz muito desse sentimento de “doença incurável”: se nós abandonamos a arena de conflitos que é a rua, a memória de um povo, de uma cidade, de um país, nós deixamos que outras histórias sejam contadas, e num efeito perverso, essas histórias sequestram a esperança de um mundo melhor.

DM – Os quatro autorretratos complementam os poemas apresentados na obra e eles até dialogam com os versos que saíram no número 1 da revista “Tem Base?!”, iniciativa da poeta Alda Alexandre. Como a linguagem poética se casa com a fotográfica?

Tarsilla – A história da arte e da fotografia está aí para mostrar que esse diálogo tem sido explorado há algum tempo. No meu caso, a fotografia surgiu como uma forma de fazer ficção. Eu sempre escrevi poemas, mas nunca escrevi contos nem romance. Essa é uma limitação que ainda pretendo superar. Talvez seja o meu desafio mais pulsante. Que vontade de contar histórias! Enquanto isso não acontece, encontrei no autorretrato uma forma de fazer um tipo de narrativa visual. Não há exatamente um enredo nos meus autorretratos, mas há a construção de uma personagem. Eu chego mesmo a escrever um perfil antes de conceber a personagem que vai ser fotografada. No caso da série que saiu na revista Tem base? tudo começou com um estudo que fiz sobre a personagem mitológica conhecida como medusa.

Acabei chegando à tela A origem do mundo do Courbet, que curiosamente apresenta uma mulher sem cabeça. Com esse percurso em mente produzi as fotos e os versos de Somos todas medusa. Para a mulher que nasceu sem metafísica, eu imaginei aquela cabeça encapuzada, um capuz que não bloqueia totalmente a visão, posto que cheio de perfurações, mas ainda assim a oblitera. Como disse antes, o livro todo é uma espécie de biografia de uma mulher inventada. Primeiro escrevi sua história por meio de poemas, depois veio essa vontade de dar um corpo para essa mulher que nasceu sem um pulmão. O Mauricio Mota completou a concepção trazendo o reticulado do capuz para a superfície do papel e conseguiu, com isso, materializar a falta de ar e o cansaço de quem nasce sem o pulmão da metafísica.

DM – Seu segundo lançamento, “Coisas que Máquinas Não Podem Fazer”, reúne poemas que você escreveu e também outros de autoria de Jamesson Buarque. Neste livro, é possível perceber versos afiados contra ideias autoritárias.

Tarsilla – Acho que minha aversão ao autoritarismo aparece nos três livros, incluindo aí Sentimentos Carimbados que saiu pelo selo do Goiânia Clandestina, de formas diferentes. Mas neste último, especificamente, o trabalho com a linguagem a partir da ideia de inventar uma mulher sem metafísica me levou a tratar de temas bem identificáveis na história e nos jornais. Muitos poemas chegam a fazer uma relação direta entre fatos dessa vida inventada e fatos da vida coletiva. Porque é disso que se trata: ser contra o autoritarismo não é ser individualista, para mim é conectar-se ao todo (corpo político) pelo contato com outras pessoas, com outras histórias.

Mesmo que esse contato seja imaginário. Eu tenho a mania de fazer isso com minha própria vida. Por exemplo, quando eu lembro de uma data histórica importante: onde eu estava no dia da queda do muro de Berlim? Quantos anos eu tinha? Onde eu estava no dia do massacre do Carandiru? O que me preocupava nesse dia? Onde eu estava na noite em que Marielle Franco foi covardemente assassinada? Como recebi a notícia? É assim que eu me conecto, me solidarizo e me enredo na história que ultrapassa o comezinho do cotidiano e da vida privada. É na coletividade que encontro o sentido da liberdade e é na imaginação que encontro força para reagir ao autoritarismo.

DM – Ainda falando sobre política, a coluna NoNaDa, que você assina para a revista digital Ermira, pinça por meio de crônicas e ensaios pensamentos captados por uma lente textual-subjetiva a respeito das turbulências do mundo contemporâneo. Qual é o papel da crônica – ameaçada de extinção nas publicações tradicionais – em tempos obscuros?

Tarsilla – Eu adoro escrever crônicas, que não sei se podem ser chamadas assim, porque esse gênero é que nem o Proteu da Odisséia: pode assumir várias formas. Moacyr Scliar escrevia crônicas que eram verdadeiros contos, Rubem Braga conseguia iluminar qualquer folha velha de palmeira com um holofote de poesia, Hilda Hilst escrevia crônica comentando notícia de revista veja – há tantas maneiras colocar em prática esse “exercício datado”… Mas não acredito que esteja datado, a não ser no sentido mais literal de crônica, aquele de registrar os fatos de um dia do calendário; e lamento que venha perdendo espaço porque sua plasticidade é um desafio de criação e de recriação da vida. É isso que me apaixona na crônica, parafraseando Drummond: a possibilidade de transformar a cara das coisas com palavras.

É nas crônicas que escrevo para Ermira que encontro a minha palavra. Para uma pessoa de formação acadêmica clássica como eu, isso é um exercício e tanto. Muito fácil sair um artigo de divulgação científica ou uma resenha. E era assim no começo, quando decidi publicar fora da academia. Com o tempo, fui desafinando até perder os limites, sem perder a inteligibilidade, é claro. Isso é que estou chamando de encontrar a minha palavra. Ali eu junto o que eu quero, o que outros espaços me proibiriam ou me censurariam. Da visão do Bariani Ortêncio velhinho na janela de sua casa na praça cívica eu vou para um texto literário, notícia do dia, pintura antiga, fotografia, lembranças pessoais, quadrinhos, enfim, organizo meu caos cotidiano de modo que possa dialogar com os acontecimentos e com outras pessoas.

DM – Em Goiânia, vemos autoras, da nova geração ou de uma mais antiga que nunca tinham publicado ainda, lançando seus livros. Na condição de estudiosa da escrita de mulheres, como analisa esse movimento literário?

Tarsilla – Como pesquisadora, entendo que muito do que não se produziu em termos de livro antes tem a ver mercado editorial. Ou seja, não é verdade que as mulheres não escreviam antes, elas, assim como autores negros, indígenas, trans não tinham oportunidade de publicação. Mas o cenário de publicação mudou bastante. Desde o começo dos anos 2000, editoras independentes, autopublicações, editais, prêmios, feiras literárias, coletivos e escolas autônomas de escritores – tudo isso tem criado espaços para as escritas que não se acomodam aos critérios das grandes editoras e das academias oficiais de uma forma geral. É um movimento de cultura e cultivo do livro muito interessante e, para além do que eu faço na academia, que é dar recepção para essas escritas, precisamos de estudos sobre esse movimento editorial. Mapear essas editoras, entender seus modos de financiamento e produção, entrevistar essas pessoas que, para além de escrever literatura, transformam literaturas (no plural mesmo) em livro.

DM – Por fim, por que é necessário desmundar por aí?

Tarsilla – Não sei se é necessário, mas é o meu jeito de circular, buscando atravessar as fronteiras que me limitam, virando o mundo do avesso com alegria e poesia.

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