Cultura

"Temos hoje sequer uma única rua com o nome da artista", afirma jornalista Marcos Gomes

Documentário conta a história das duas edições de projeto que enaltece período de ouro da música popular goiana

diario da manha
Há três anos o jornalista iniciou uma pesquisa e desenvolveu ações para exaltar a MPB goiana nos bares

Nos últimos três anos, o jornalista, pesquisador e produtor cultural, Marcos Gomes, tem focado em criar projetos que mostram às novas gerações – e relembram as anteriores – da importância da MPB tocada ao vivo nos bares de Goiânia, entre as décadas de 1990 e 1970. Nessa missão, lançou os documentários Bons Tempos Goiânia – A Capital da MPB Ao vivo nos bares e O Criador do Cliff. Também conseguiu junto à Prefeitura de Goiânia, que a MPB tocada ao vivo nos bares da capital se tornasse Patrimônio Imaterial da cidade.

E não parou por aí. Entre diversos outros projetos para manter vivo este movimento cultural, o jornalista lançou, no último sábado (18) em seu canal YouTube, o terceiro documentário sobre o assunto: o “Noites Memoráveis da Música Goiana”. A produção, que possui livre acesso, conta em cerca de 50 minutos, a história das duas edições do projeto “Noites Goianas”, realizado no final da década de 1990, pela Organização Jaime Câmera.

Com direção do diretor musical Ricardo Leão e do diretor artístico Jonas Pires, o “Peninha”, o projeto se tornou o primeiro disco gravado ao vivo, exclusivamente com cantores goianos. Ambos trabalhos foram gravados com plateia cheia e participativa no Teatro Rio Vermelho do Centro de Convenções de Goiânia.

A primeira edição, realizada em 1997, homenageou a cantora Ely Camargo e focou no estilo MPB. A saudosa artista entre vários outros feitos, foi a responsável por popularizar a música “Noites Goianas”, de autoria de Joaquim Bonifácio e Joaquim Santana, que foi oficializada como Hino do Estado de Goiás.

“O projeto nasceu de forma despretensiosa. Eu havia lido uma matéria sobre Ely, na qual falava que a cantora já havia tido sucesso em Portugal, em São Paulo e Rio de Janeiro, mas nem tanto em Goiás. Achei estranho uma cantora com quatro LPs lançados, que não tinha uma carreira respeitada e vista de forma carinhosa em Goiás”, diz o compositor Peninha, sobre a primeira motivação do “Noites Goianas”, no documentário.
Porém na produção fica claro que, além de Ely, o projeto deu novo fôlego aos cantores locais. No palco, a artista teve a companhia dos cantores de maior ascensão na época: Marcelo Barra, Fernando Perillo, João Caetano, Maria Eugênia e Pádua.

“Com a repercussão do projeto, as lojas de disco da cidade, começaram a se interessar em ter o trabalho dos artistas da proposta individualmente. Foi um grande momento da música popular feita em nosso estado”, argumenta em outro trecho do filme, o cantor Pádua.
Já o “Noites Goianas, o Show 2”, gravado em 1997 trouxe artistas com pegada pop. Estavam presentes os cantores: João Marcelo, Gilberto Correia, Maíra Lemos, Cláudia Vieira, Marco Antonini e Nila Branco. O homenageado desta vez foi o cantor e compositor Odair José, que também subiu ao palco.

“Foi um momento especial, uma produção maravilhosa. Tive o privilégio de conviver e cantar com artistas que não conhecia. Eu digo em uma música que a felicidade não existe, o que existe são momentos felizes e toda preparação, ensaios convivência de ‘Noites Goianas’ foi um desses momentos felizes”, diz Odair, se referindo à canção “A Noite Mais Linda do Mundo”.

Vale lembrar, que os dos trabalhos podem ser conferidos, em formato digital, também com acesso gratuito no canal de Marcos Gomes, os dois CD´s de “Noites Goianas”. A seguir, confira a entrevista com o documentarista Marcos Gomes:

Diário da Manhã – Por que exaltar a MPB tocada nos bares de Goiânia entre as décadas de 70 e 90, virou sua missão?

Marcos Gomes – Em setembro de 2019, um amigo paulista, em visita à Goiânia, a trabalho, queria curtir a noite ao som de MPB. Era um sábado e eu fui tentar ajudá-lo. Procurei, fiz contatos com amigos, liguei pra vários bares e não achei nenhum com MPB ao vivo. Esse desapontamento ficou na minha cabeça. Comecei então um trabalho de pesquisa que levou-me a uma incrível descoberta: Goiânia, entre a segunda metade da década de 1970 e o início dos anos 90, era conhecida nacionalmente como a capital da MPB ao vivo nos bares. Deparei-me com a existência de um movimento musical único, diferenciado e de altíssima qualidade. Não entendi como algo tão substancial para a nossa cultura havia sido esquecido pela história e deletado da memória. Determinei-me, desde então, como uma missão, fazer esse resgate, inclusive, cobrando dos donos de bares a abertura e a ampliação dos seus espaços para a MPB goiana e outros estilos e, não apenas o sertanejo.

DM – Quais foram as primeiras ações nesta missão?

Marcos – Diante de um acervo cultural musical tão rico e significativo para sociedade, decidi reivindicar junto a Prefeitura de Goiânia, o seu reconhecimento como bem do patrimônio cultural imaterial, o que foi oficializado, por meio da Resolução n. 03/2022, que está publicada no Diário Oficial do Município, edição de 5 de maio deste ano. Portanto, o poder público e a sociedade têm agora o dever de proteger esse movimento para que ele nunca mais fique esquecido.

DM – “Noites Goianas” é o terceiro filme sobre o tema. Pode falar um pouco das produções anteriores?

Marcos – O primeiro foi “Bons Tempos Goiânia – A Capital da MPB ao vivo nos bares”. Depois fiz o documentário “O Criador do Cliff”, que foi um dos bares mais importantes daquele movimento, por ocasião do falecimento do empresário André Custódio, criador desse estabelecimento, em janeiro deste ano.

DM – A primeira edição do Noites Goianas homenageou Ely Camargo e no documentário, uma das falas de Peninha ressalta o pouco reconhecimento que tinha na época. Acredita que algo mudou ao longo dos anos, ou ela ainda precisa de mais reconhecimento?

Marcos – A primeira edição do projeto Noites Goianas prestou uma linda homenagem à cantora e folclorista, Ely Camargo e o documentário enfatiza a importância da Ely Camargo para a nossa cultura, inclusive, com vários depoimentos de cantores, comunicadores e escritores, fazendo essa abordagem. Solicitei, recentemente, à Câmara Municipal de Goiânia um projeto para que haja a designação de um logradouro público com o nome da Ely. Não temos hoje sequer uma única rua com o nome da artista, que mais divulgou pelo país o folclore goiano.

DM – Quais são os próximos projetos em divulgação da MPB goana?

Marcos – Além do seu reconhecimento como patrimônio cultural imaterial, eu entendi que essa homenagem deveria ser materializada, através de um monumento a ser instalado na Praça Tamandaré, pois, lá foi o epicentro desse movimento com dezenas de bares em suas imediações, trazendo cantores goianos com produção própria de MPB. Contactei o amigo Siron Franco, o qual foi um frequentador dos bares naquela época e ele se dispôs a colaborar, criando a arte desse monumento, que deverá, conforme ficou acertado numa reunião de artistas e empresários com o prefeito Rogério Cruz, ser inaugurado no próximo 24 de outubro, no aniversário de Goiânia.

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