Cultura

Lasanha domina menu do Festival de Nova Veneza

Sabores do Festival Gastronômico de Nova Veneza estão de volta. Em sua 16ª edição, que acontece nesta semana, menu tem como destaque a lasanha, cuja origem - segundo a historiografia - é incerta

diario da manha
Tradicional lasanha à bolonhesa: mamma mia, o prato dá até água na boca - Foto: Freepik/ Divulgação

Sua origem é nebulosa. Já reivindicaram até se seu berço de nascença é Grã-Bretanha ou Itália. E isso atingiu o status – vejam como a coisa é séria por lá – de mal-estar diplomático entre os dois países. Mas o fato é que ninguém coloca em cheque a destreza com a qual os italianos moldaram a iguaria e, de quebra, espalharam ao mundo a fórmula que perdura até hoje nas cozinhas: folhas de massa, molho, ragu e, claro, queijo. Com o paladar molhado ao sabor de um bom vinho e uma boa companhia, a experiência se torna uma delícia.  

A lasanha, um dos pratos mais democráticos da gastronomia mundial, será destaque no menu do 16° Festival Italiano de Nova Veneza, que acontece entre quinta-feira, 4, e domingo, 7, no município goiano cuja população estima-se que seja formada por 60% de descendentes ou pessoas que adotaram cultura italiana. Neste ano, em relação aos demais, o sabor promete ser mais especial, porque marca o retorno do festival ao calendário cultural do Estado e, segundo a organização, a expectativa é que 100 mil pessoas visitem a cidade, apreciando os tesouros gastronômicos da terra de Dante Alighieri com um toque de pequi.  

Inclusiva, gostosa e saborosa, mamma mia!, a historiografia documenta que a lasanha espalhou-se após a Segunda Guerra Mundial, quando os pracinhas (soldados que enfrentaram o nazi-fascismo no front europeu) ficaram impressionados com a massa. No Brasil, a iguaria aportou no final do século 19, assim que os primeiros imigrantes italianos colocaram os pés em terras tupiniquins. É desse período a ideia de que o prato, por encher o pandu com certa facilidade, foi alçado à condição de refeição completa, ou seja, feita para ser degustada sem acompanhamento – embora, é verdade, tenha quem prepare um arrozinho.

Segundo o pesquisador Francesco Zambrini, a lasanha já era servida em camadas de queijo e, graças ao esforço dele em registrar sua descoberta em livro, é que o prato conquistou a forma que conhecemos. Com o passar dos anos, a iguaria se tornou popular e amada mundo afora por causa de restaurantes da Bologna, na Itália, que criaram a versão bolognesa do prato (carne moída, dente de alho amassado, óleo ou azeite, sal e pimenta a gosto) que teria nascido no início do século passado. Mas a consagração veio graças a um jornalista, em 1935. 

Apreciador de boa culinária, na obra “Il Ghiottone Errante”, ou “O Glutão Errante”, Paolo Monelli tece elogios ao prato, descreve a sensação despertada no paladar pelas camadas de sabores e, fazendo dar água na boca de quem o lê, narra o prazer provocado pela iguaria. Até adquirir essa feição, porém, ela possuía pequenas grandes quantidades de massa e era feita de planos cozidos e cobertos com um molho, de acordo com historiadores. Foi isso, por exemplo, o que aconteceu em Roma Antiga. Já na Idade Média, ainda segundo estudos, os chamados macarrões de lasanha foram utilizados de maneira idêntica a uma crosta de torta. 

À maneira de cada região

Na Itália, a lasanha continua popular, com cada região contribuindo à sua maneira para a receita, seja com uma massa diferente das outras, cortada em tamanho e larguras distintas, macarrão assado e, como não poderia deixar de ser, acompanhada por molhos. Pode ser branco, bolonhesa ou qualquer outro que venha à cabeça do cozinheiro. O modo de preparo é simples: farinha, ovos e água. E, de olho na praticidade da vida contemporânea, o prato pode ser adaptado para massas pré-assadas, congeladas, tendo ou não berinjela e abobrinha. 

De acordo os organizadores, neste ano, o Festival Gastronômico de Nova Veneza vai misturar culturas numa programação dedicada à cultura italiana e à goiana, realizando missas, músicas, apresentações artísticas, belezas culinárias, cheias de massas, sobremesas e artesanato. Quem tocará na abertura do festival é Sérgio Reis, cantor conhecido por nomes como “Menino da Porteira”, “Panela Velha”, “Coração de Papel” e “O Menino e o Italiano”. 

Com sabor democrático, macarrão ocupa lugar de destaque em menu

Macarronada à bolonhesa com porpeta: gastronomia italiana atrai turistas goianos e do DF – Foto: Prefeitura de Nova Veneza/ Acervo 

Além da boa e velha lasanha, outra delícia merece destaque no menu do Festival Gastronômico de Nova Veneza, que será realizado de quinta-feira, 4, até domingo, 7, é o macarrão. Prato tradicional da culinária italiana, a iguaria está presente em restaurantes badalados, alguns nem tanto, pode acompanhar muito bem uma carne moída, seja ou não com molho à bolonhesa – ou com porpeta. Sua principal característica, assim como a lasanha, é o espírito democrático. E só de falar nele já dá uma água na boca danada. 

Há quem fale que a iguaria origina-se na China e, ao contrário do que se diz, não na Itália. Já parte da historiografia defende a tese segundo a qual o macarrão nasceu na Sicília, pelo menos um século antes do nascimento do navegador Marco Polo, que seria – conforme estudos – o responsável por trazer a comida da China para seu país, no século 18. Mas isso não passa de lenda, uma vez que os sicilianos já moíam o trigo e misturavam vinho branco à água, criando o “maccarini”. Teria sido difundido na mesma época em Marco nascia.

Nesse período, comer massa era considerado um privilégio destinado apenas às elites. Era produzido de forma artesanal, com homens esmagando grãos de farinha com os pés e, em seguida, misturando-os à água e aos ovos. Dois séculos depois, o rei Francisco I achou que precisava ser desenvolvido um método mais higiênico para produzir a iguaria. Surgiram, então, as primeiras prensas hidráulicas e, por volta de 1800, com a expansão marítima, o macarrão conheceu o resto da Europa, viajou pelo mundo e, enfim, chegou ao Brasil. 

Por aqui, como se percebe ao primeiro restaurante que se entra, a iguaria se aclimatou bem. Veio para cá junto dos imigrantes italianos, na segunda metade do século 19, atrás de melhores oportunidades de vida nas fazendas de café do sul e do sudeste. Nesta época de ciência e das ideias socialistas, ele foi morar na autogestionária e anárquica Colônia Cecília, em Palmeira (PR). Essa história é narrada pelo escritor e reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Miguel Sanches Neto, na obra “Um Amor Anarquista”. 

Com o lema “uma boa massa, bom vinho e boa companhia”, o Festival de Nova Veneza tenta estimular a confraternização entre as pessoas, que ficaram afastadas umas das outras por causa da pandemia de coronavírus. “Nosso festival é um ambiente alegre, familiar e de mesa farta, ingredientes que temperam os reencontros entre as famílias”, afirma o prefeito de Nova Veneza, Valdemar Batista Costa, cuja cidade pode ser definida como um pedacinho da Itália na região Centro-Oeste do Brasil. Até 1958, por exemplo, dado o grande número de imigrantes que por lá moravam, era chamada de “Colônia dos Itálianos”. (M.V.B)

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