A força da imperfeição
Redação DM
Publicado em 4 de junho de 2017 às 01:59 | Atualizado há 1 ano
Van Arno é conhecido pela forma que mistura sexualidade com símbolos míticos e religiosos. Nasceu em Chattanooga, no estado do Tennessee, e cresceu em St. Louis, Missouri, onde estudou em uma escola cristã até os 12 anos de idade. Enquanto frequentava a Escola Otis Parsons de Design em Los Angeles, sustentava-se trabalhando como segurança de uma boate chamada Club Lingerie. No início dos anos 1990, suas ilustrações foram incluídas em vários produtos, como Roboteck (animação produzida na Inglaterra), produtos da marca Powell Peralta (empresa que trabalha com skates) e na arte de embalagem de jogos virtuais da empresa Bandai Games. Na indústria da música, produziu tantas ilustrações que fica difícil mencionar todas as suas as suas parcerias.
Nos anos seguintes, direcionaria o foco de seu trabalho na criação de trabalhos figurativamente heróicos, com nuances de cultura pop, religião, folk e misticismo. Sua série “Olívia Palito” chamou bastante atenção no cenário artístico, pela forma de documentação que ele escolheu para a conhecida personagem dos cartoons, envolta por uma flutuância decadente. Desde então, seus trabalhos têm ganhado exposições em museus de de várias cidades, como Los Angeles, Seattle, Santa Fe, Nashville e Nova Iorque. Segundo a biografia do artista, em seu site oficial, Van Arno trabalha atualmente em um novo trabalho, que eleva a figura humana a alguns extremos, principalmente em relação à postura, cor e design.
Ilimitado
Segundo as próprias palavras do artista, existe uma busca constante em construir ruídos extra-visuais ao redor de seus trabalhos, de forma que eles não sejam poderosos apenas no campo da visão. “Eu tento pintar o momento arquetípico da clareza e da paixão. Mas, acima de tudo, as imagens devem ser tomadas por uma atmosfera excitante e vívida”. Quanto à parte técnica, Van Arno garante que continua seus estudos pessoais, desviando do limite das técnicas e buscando artimanhas intuitivas que façam com que as imagens saltam da tela diante dos olhos do público, transmitindo assim sua mensagem. “As regras de iluminação, anatomia, gravidade e física devem ser dobradas ou quebradas para tornar a imagem barulhenta. Esse é o objetivo final do meu trabalho”.
De acordo com Nikola Milosevic, que escreve para o site Widewalls, destaca a forma como o artista quebra as regras da ciência na criação imagética de seres contemporaneamente épicos. “Quando até mesmo os anjos desistem de sua perfeição, quando os corpos de humanos comuns tornam-se torcidos e quase inumanos, Van Arno encontra lugar para sua arte”. A explicação para tais transgressões, segundo Milosevic, estaria na limitação que ronda aquilo que é perfeito e real, e na força que se ganha ultrapassando a perfeição da realidade. “Devasso e sem falhas, Arno procura quebrar as regras de anatomia, física e até de iluminação e gravidade, para que suas peças consigam ganhar o nível de excitação e vitalidade que jamais apresentariam em formas perfeitas”.
Uber-maneirismo
Apesar de ter começado a trabalhar profissionalmente como ilustrador, Arno direcionou-se para a pintura à medida que se viu interessado em ícones da história e da cultura. Suas peças são, segundo Milosevic, consideradas provocativas, à medida que ele também apanha figuras religiosas e as pinta da forma que ele as percebe. O autor faz uma referência ao Maneirismo, movimento artístico que se desenvolveu na Europa no século XVI, revivendo valores clássicos e naturalistas. “Seu estilo pode ser descrito como um passo à frente do maneirismo. Quando as pessoas ficam entediadas com a harmonia clássica e naturalismo idealizado da Renascença, o movimento ganhou força, rodeado principalmente por uma artificialidade assumida”.
O que Nikola Milosevic tenta passar com seu artigo, é que a postura artística de Arno é evoca o maneirismo do século XVI de uma maneira exponencializada, infectada pelo poder icônico dado a algumas figuras populares, algo que só seria possibilitado pelos avanços tecnológicos dos últimos séculos. “Arno dá um passo adiante, criando algo que pode ser compreendido como Uber-maneirismo, onde ele coloca a figura humana em posturas extremas, utilizando design e cores vívidas completamente não usuais”. Ultrapassar barreiras e criar discussões é outra característica do pintor. “Não existem linhas que Arno não cruzaria em sua perseguição aos limites do corpo humano e da humanidade em geral”, conclui.


