Desativada 2

Aquarius é arrebatador

Redação DM

Publicado em 10 de setembro de 2016 às 01:32 | Atualizado há 1 ano

  •  Equipe do filme protestou em Cannes, França, contra o impeachment no Brasil, em 2016

  •  Sonia Braga, sempre exuberante, condena a “eleição indireta” do golpista Michel Temer

  •  Kleber Mendonça Filho faz um filme libertário, de resistência, com a cara dos dias de hoje

  •  No avant première, no Cinema Bougainville, um cinéfilo disparou, sem medo: “Fora, Temer!”

 

Fil­me-sím­bo­lo da épo­ca de som­bras em que vi­ve, ho­je, o Bra­sil, com o gol­pe con­tra Dil­ma Rous­seff, sem tan­ques nem me­tra­lha­do­ras, mas com o su­por­te do apa­ra­to po­li­ci­al e ju­rí­di­co do Es­ta­do e dos gran­des con­glo­me­ra­dos de co­mu­ni­ca­ção, Aqua­ri­us, de Kle­ber Men­don­ça Fi­lho, com So­nia Bra­ga co­mo pro­ta­go­nis­ta, na­da tem de re­a­lis­mo so­ci­a­lis­ta, mas é ar­re­ba­ta­dor. Pre­mi­a­do, es­tre­ou, on­tem, em Go­i­â­nia, no Lu­mi­é­re Bou­gain­vil­le, em ‘avant pre­mi­è­re’.

– Fo­ra, Te­mer! [Um ci­né­fi­lo gri­tou no es­cu­ro do ci­ne­ma]

Com uma mú­si­ca do ve­lho co­mu­nis­ta Ta­i­gua­ra, nas­ci­do no Pa­ra­gu­ai e que fez car­rei­ra no Bra­sil, ao fun­do, ima­gens de Re­ci­fe do pas­sa­do inun­dam a te­la. As­sim co­me­ça a pe­lí­cu­la. Ce­nas da praia de Boa Vi­a­gem. Aqua­ri­us é di­vi­di­do em três par­tes. A Par­te I é O Ca­be­lo de Cla­ra. Anos 80. Es­ter­to­res da di­ta­du­ra ci­vil e mi­li­tar. Ares de li­ber­da­de po­lí­ti­ca e com­por­ta­men­tal. Cla­ra apa­re­ce de ca­be­los cur­tos. É que ela en­fren­ta­ra um cân­cer e re­ti­ra­ra uma ma­ma.

– Mas ven­ceu a do­en­ça.

De­pois de ou­vi­rem Que­en, na ines­que­cí­vel voz de Fred Mer­cury, so­bem pa­ra o apar­ta­men­to na praia de Boa Vi­a­gem. É o ani­ver­sá­rio da tia Jú­lia, uma li­ber­tá­ria dos anos da re­vo­lu­ção se­xu­al. Uma mu­lher à fren­te do seu tem­po. Ela com­ple­ta­va 70 anos de ida­de. Com as mar­cas da re­pres­são dos anos de chum­bo em seu cor­po. A sua vi­da da­ria um li­vro, um fil­me, uma mú­si­ca, dis­cur­sou um dos pe­que­nos fi­lho de Cla­ra, an­tes de ini­ci­ar o tra­di­cio­nal “Pa­ra­béns”.

– Vo­cês pu­la­ram a re­vo­lu­ção se­xu­al [É o que diz Jú­lia]

A fes­ta co­me­ça e é em­ba­la­da pe­lo som do bom ba­i­a­no Gil­ber­to Gil. “To­da me­ni­na ba­i­a­na” dá o rit­mo da dan­ça. O com­pa­nhei­ro de Ca­e­ta­no Ve­lo­so so­fre­ra tam­bém as di­gi­tais da cen­su­ra, da vi­gi­lân­cia e do exí­lio nos tem­pos du­ros do re­gi­me ci­vil e mi­li­tar. Lo­go de­pois, So­nia Bra­ga en­tra em ce­na co­mo Cla­ra. Exu­be­ran­te. Uma mu­lher lin­da, sen­su­al e re­bel­de. Jor­na­lis­ta e es­cri­to­ra, aman­te de vi­nis, os ve­lhos “bo­la­chões”, que vi­ve ro­de­a­da de li­vros e de lem­bran­ças do pas­sa­do.

Cla­ra dor­me. O so­no dos jus­tos. A cam­pa­i­nha de seu apar­ta­men­to co­bi­ça­do na praia de Boa Vi­a­gem to­ca. É o do­no da Cons­tru­to­ra Bon­fim. De­pois de com­prar to­dos os apar­ta­men­tos do Edi­fí­cio Aqua­ri­us, de to­dos os an­da­res, o em­pre­sá­rio Ge­ral­do Bon­fim, es­col­ta­do pe­lo seu ne­to Di­e­go Bon­fim, que fez Bu­si­ness por três anos con­se­cu­ti­vos nos Es­ta­dos Uni­dos das Amé­ri­cas, a me­ca do ca­pi­ta­lis­mo ne­o­li­be­ral, que­rem ad­qui­rir o seu imó­vel. Ela nem os dei­xa en­trar.

– É uma pro­pos­ta ge­ne­ro­sa, aci­ma do que pa­ga o mer­ca­do [É o que pro­põe Ge­ral­do Bon­fim]

Cla­ra re­ba­te:

– O meu apar­ta­men­to não es­tá à ven­da!

 

No­vo pro­je­to

Di­e­go Bon­fim diz que o no­vo pro­je­to se cha­ma Aqua­ri­us, mes­mo no­me do edi­fí­cio atu­al. Cla­ra re­tru­ca e diz que o pré­dio ain­da exis­te. Par­te II. Ela re­jei­ta a ofer­ta da cons­tru­to­ra. A mú­si­ca no ar é de Ma­ria Be­tâ­nia, fi­lha de Do­na Ca­nô e ir­mã de Ca­e­ta­no Ve­lo­so. “Eu te­nho um jei­to es­tú­pi­do de ser…”  To­dos os apar­ta­men­tos do Edi­fí­cio Aqua­ri­us es­tão va­zi­os. Em uma ba­la­da com as ami­gas, co­nhe­ce um vi­ú­vo. Eles se bei­jam. Ele to­ca em seu seio re­ti­ra­do pe­lo cân­cer.

O cli­ma es­fria. A noi­te ter­mi­na so­li­tá­ria. Cla­ra so­be as es­ca­das, en­tra em seu apar­ta­men­to “vin­tage”, pe­ga um vi­nil, bem anos 80, e Ro­ber­to Car­los soa. Be­lo. Ela sen­ta-se pa­ra es­cre­ver. É jorna­lis­ta e es­cri­to­ra. De­pois, so­zi­nha, re­sol­ve dan­çar pe­la sa­la. A ce­na é be­la. Na praia, no dia seguin­te, é in­co­mo­da­da por Da­ni­el, que co­nhe­ce­ra ain­da cri­an­ça, ho­je adul­to, fi­lho de seu Jor­ge, que mor­re­ra há dois anos. Ele diz que ela atra­pa­lha os ex-mo­ra­do­res a re­ce­be­rem as su­as in­de­ni­za­ções.

– Es­tou pu­ta é com a si­tu­a­ção.

 

Di­á­lo­gos dra­má­ti­cos

É o que diz Cla­ra aos seus três fi­lhos, em seu apar­ta­men­to. A fi­lha, re­cém-se­pa­ra­da, mãe de Pe­dro, uma cri­an­ça de no má­xi­mo dois anos, quer que a mãe ven­da o imó­vel. Ela ale­ga es­tar em di­fi­cul­da­des fi­nan­cei­ras após o di­vór­cio. Cla­ra afir­ma que não ven­de­rá e que po­de au­xi­liá-los com re­cur­sos fi­nan­cei­ros, já que pos­sui uma boa apo­sen­ta­do­ria, cin­co imó­veis. A fi­lha se ca­la, mas in­for­ma-a que a ofer­ta da Cons­tru­to­ra Bon­fim pe­lo ve­lho “apê” é de R$ 2 mi­lhões.

– Aci­ma do mer­ca­do!

Cla­ra in­sis­te:

– É o apar­ta­men­to que vo­cês [fi­lhos] cres­ce­ram! Vo­cê me co­lo­ca co­mo a lou­ca do Aqua­ri­us. Pos­so aju­dá-los, se pre­ci­sa­rem.

A fi­lha dis­pa­ra:

– Mãe, vo­cê pa­re­ce uma mis­tu­ra de ve­lhi­nha com cri­an­ça!

A Cons­tru­to­ra Bon­fim fe­cha o cer­co. Or­gias ocor­rem pa­tro­ci­na­das por Di­e­go Bon­fim no apar­ta­men­to aci­ma do de Cla­ra. Em ní­ti­da pro­vo­ca­ção. Cla­ra pro­cu­ra um jor­na­lis­ta ami­go seu. Ele re­la­ta que a Cons­tru­to­ra Bon­fim é, de­pois do Es­ta­do e da Pre­fei­tu­ra de Re­ci­fe, a mai­or anun­ci­an­te dos ve­í­cu­los de co­mu­ni­ca­ção so­ci­al do Es­ta­do. Co­ne­xões po­lí­ti­cas, em­pre­sa­ri­ais e pes­so­ais. Di­e­go Bon­fim ado­ra apa­re­cer nas co­lu­nas so­ci­ais, re­la­ta o su­pos­to che­fe de re­da­ção.

Ape­sar dis­so, o co­le­ga de pro­fis­são lhe dá uma di­ca. Ela vai pa­rar, com a sua fi­el ad­vo­ga­da, no De­pó­si­to Mor­to do Ar­qui­vo do Po­der Ju­di­ci­á­rio. Lo­te 307 – D. Uma in­ves­ti­ga­ção que po­de atin­gir o co­ra­ção da Cons­tru­to­ra Bon­fim. Uma ami­ga lhe dá um nú­me­ro de te­le­fo­ne ce­lu­lar. É de um ga­ro­to de pro­gra­ma. Cla­ra, so­li­tá­ria, acio­na o bad boy. Re­lu­ta. Ela faz se­xo pa­go e gos­ta. Sem ca­mi­si­nha. Não cus­ta lem­brar: ela é vi­ú­va há exa­tos 17 anos. Uma be­la mu­lher.

 

O Cân­cer de Cla­ra

A ter­cei­ra par­te do fil­me é “O Cân­cer de Cla­ra”. A Cons­tru­to­ra Bon­fim, co­mo ex­pres­são da vo­ra­ci­da­de do mer­ca­do imo­bi­liá­rio no ca­pi­ta­lis­mo tar­dio do Bra­sil, de­pen­den­te e in­te­gra­do de for­ma su­bor­di­na­da à glo­ba­li­za­ção, co­lo­ca a sua lo­go­mar­ca em to­das as por­tas dos apar­ta­men­tos de to­dos os an­da­res do Edi­fí­cio Aqua­ri­us. O cli­ma fi­ca ten­so. A fi­lha pe­de à mãe que ven­da o imó­vel. Cla­ra não acei­ta a chan­ta­gem, re­sis­te. O fi­nal é sur­pre­en­den­te.

 



Um filme-símboloda época desombras em que vive o Brasil, hoje”

 

[box title=”Serviço”]

Filme: Aquarius

Direção: Kleber Mendonça Filho

Protagonista: Sonia Braga

Avaliação: Ótimo

Cinema: Lumiére Bougainville.[/box]

 

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