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“Cultive a Cidade!”

Redação DM

Publicado em 5 de abril de 2016 às 02:12 | Atualizado há 1 ano

Lançado em cinco de março deste ano, em edição especial do Sábado no Parque, no Bosque dos Buritis, o Movimento Urbanístico Diversidade e Arte (MUDA), veio com a proposta de ocupar os espaços públicos da cidade e, juntamente com produtores culturais e artistas da capital, promover o melhor aproveitamento das praças e bosques, através de manifestações artísticas. O lançamento contou com a participação de nomes como os grupos Chá de Gim, Sã Consciência, a Companhia Teatral Oops!, o grupo de dança Maramar, a poesia ficou por conta de

Valério Luiz Filho, Frankli, Indy, Kaio Bruno, João Felipe, João Adrega, João Fernandes e Walacy Neto.

De lá pra cá, algumas das mais de 100 ações que o MUDA tem programado para o ano de 2016, vem atraindo público e fazendo jus ao que se propôs. A próxima atração será o Palco Vacas Magras, neste sábado, 02 de abril, no Teatro Sesc. No dia 16 de abril o Sábado no Parque recebe mais uma edição do Movimento Urbanístico Diversidade e Arte, as atrações estão disponíveis na página do MUDA e nos eventos respectivos no facebook. A iniciativa que partiu de Roberto Silva, Valério Luiz Filho e Kaio Bruno, tem se tornado referência para os movimentos artísticos independentes de Goiânia.

A respeito do nome do projeto, MUDA, o organizador Kaio falou sobre o trocadilho. “Ao conversarmos numa roda de amigos, ou na internet, percebemos que todos propomos mudanças em situações distintas de nossas vidas. Mudar sempre é bom, a mudança faz parte da essência humana. A palavra ‘mudar’ está cada vez mais presente no imaginário das pessoas”. Vale lembrar que no evento de lançamento, “mudas” de plantas típicas do Cerrado foram distribuídas para os presentes. Kaio Bruno ainda completa falando que o objetivo do movimento, que é feito pela sociedade e para a sociedade, não é apenas propor entretenimento, mas “propõe que as pessoas venham para a rua, conhecer, interagir, se integrar e modificar a cidade, de forma positiva”.

Segundo Kaio, “o MUDA é música, dança, ilustração, poesia, teatro, urbanismo, ocupações artísticas, fotografia e toda e qualquer manifestação artística”, e apoia projetos culturais independentes como o Off-Sina, Sábado no Parque, Domingo no Beco, a Mostra Fotográfica Goiânia Antiga, GO Sound System, e muitos outros, englobando a maior diversidade possível de manifestações artísticas produzidas pelo povo goianiense. Conversamos também com Valério Luiz Filho, outro organizador do MUDA, que nos contou sobre as perspectivas, aceitação e dificuldades em se promover cultura dentro de um Estado, ainda muito limitado.

DM Revista: O que é o MUDA?

Valério Luiz Filho: O Movimento Urbanístico Diversidade e Arte, MUDA, é um calendário de eventos e ações culturais desenvolvidos em espaços públicos, com grande potencial, mas esquecidos e pouco utilizados pela cidade. Nossa intenção é fomentar a convivência das pessoas nesses espaços, resgatando-os, e fazendo com que todos conheçam mais tanto a produção cultural local quanto os locais propriamente ditos, o meio ambiente urbano. Não por acaso, nosso lema é “Cultive a Cidade”.

DM Revista: Como o público tem reagido às iniciativas desse Movimento?

Valério Luiz Filho: As reações são as melhores possíveis. Quem olha a vida corrida da cidade não imagina, mas as pessoas sentem falta desse tempo umas com as outras e de uma relação mais profunda com o lugar onde vivem. Todos queremos nos expressar, e também nos sentir parte de algo. No lançamento do Movimento, uma edição especial do Sábado no Parque, no último dia 05, todos se envolveram com as atrações musicais, muita gente recitou poemas no palco aberto e as mudinhas do cerrado que distribuímos, bom, não deu pra quem quis. O maior sucesso foram as de mangaba, sem dúvida. Já no sábado passado, dia 26, realizamos uma edição do GO Sound System, que consiste em música de graça para as pessoas, em espaços abertos. Desta vez, fizemos no Beco da Codorna, no Centro, um lugar que poderia ser muito bem aproveitado. DJs amigos como David Barbosa, Guilherme Alb, Ângelo Martorell e Mastrella dispuseram de seu tempo pra animar a galera voluntariamente. Aconteceu também um aulão de dance hall organizado de maneira espontânea pelo próprio público que frequenta o Go Sound System. Na página do Movimento é possível acompanhar imagens, vídeos da última edição ficamos felizes quando alguns disseram: “Obrigado por salvar meu sábado!”.

DM Revista:O Poder Público, tanto Estadual quanto Municipal, apoia a vida cultural da cidade?

Valério Luiz Filho: O Poder Público dá ajudas pontuais, na parte burocrática principalmente, mas existe toda uma mentalidade que precisa avançar. Cultura é movimento, e só surte efeito na comunidade desse jeito, com ações rolando a todo instante. O Governo do Estado, por exemplo, progrediu em relação aos anos 90 com a criação de grandes festivais, como o FICA e o Canto da Primavera, que hoje já se consolidaram no nosso calendário cultural, mas só ocorrem uma vez ao ano, e fora de Goiânia. Acredito que, na Capital, é preciso concentrar-se em eventos menores, mas constantes, espalhados por todo lado, movimentando os becos, praças, parques e, claro, nossos centros culturais, atualmente fechados ou subutilizados.

DM Revista: A ideia de levar arte e cultura a um maior número de pessoas, em espaços urbanos esquecidos, pode contribuir para amenizar o difícil momento da segurança e da educação?

Valério Luiz Filho:Não podemos fazer as vezes de policiais e professores, mas acreditamos no poder da cultura para a criação de um espírito de corpo, ou seja, um sentimento de coletividade, ao qual chamamos de cidadania. Como as pessoas podem se sentir parte da cidade se não convivem com ela, passando tempo em seus espaços, conhecendo sua produção? Como as pessoas podem desenvolver um espírito de cidadania sem ocasiões para conviverem umas com as outras? Cidadania é impossível de se entender como conceito teórico, passado no quadro negro, pois surge só quando identificamos o público como nosso, e a partir daí o tratamos com cuidado e respeito.

Para estimular essa identificação, nada mais poderoso que a arte. E isso sob dois aspectos: primeiro, apresentações artísticas são a melhor forma de reunir pessoas de todos os tipos em um lugar que se deseja aproveitar; segundo, a representação artística de nossa cidade a valoriza, pois passamos a pensar nela simbolicamente, esteticamente. Só um conjunto de representações assim podem formar o que chamam de “identidade”, o passo fundamental pra nos orgulharmos de sermos quem somos, goianos, e assim nos importarmos com a grandeza da nossa cidade. Esse é o papel da arte na formação da cidadania, que, uma vez construída, diminuirá a violência mais do que um exército faria.

DM Revista:Quais são as dificuldades mais frequentes que vocês têm encontrado ao longo do caminho?

Valério Luiz Filho: Mobilizar pessoas e fazer as coisas acontecerem não é fácil. Exige trabalho, tempo, planejamento, colaboradores e recursos. Por sorte temos gente talentosa e de boa vontade ao nosso lado, o que ameniza bastante toda a árdua caminhada que é concretizar ações socioculturais em Goiânia.

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