Desativada 2

Depressão e mágoa

Redação DM

Publicado em 17 de dezembro de 2016 às 02:21 | Atualizado há 10 anos

Ao se falar de patologias como a depressão, profissionais de saúde expõem bem a sintomatologia física: distúrbios de sono, ansiedade, vontade de morrer, apatia, tristeza profunda, dores de cabeça, etc. Sintomas que, agrupados, delimitam um quadro patológico.

A depressão é caracterizada por muitos como um processo exclusivamente físico, genético, bioquímico, ligado a aspectos hormonais. De certa forma, um discurso convencionado comum, especialmente quando tanto a psicologia quanto a psiquiatria abandonam os aspectos da personalidade e da psique humana, relegando os processos doentios exclusivamente ao reducionismo de um materialismo “carne e bioquímica”, negando, categoricamente, as principais teorias da personalidade criadas por psiquiatras como Carl Jung e Adler.

Ampliamos nossa percepção do processo da depressão. Uma patologia que atualmente serve a toda humanidade, resgatando valores e aspectos perdidos da consciência, trazendo os pacientes à introversão e à reflexão crítica sobre o teor de sua própria vida. Uma doença que auxilia indivíduos a rever o sentido de sua vida, sobretudo na desconstrução das ilusões e fantasias megalomaníacas tão atuais.

A patologia, vista como processo materialista, tem característica de divindade no reprocessamento psíquico do conteúdo da vida. Depressão, assim, para quem não foge à reflexão e revisão de vida, é o repensar melancólico (hoje mal visto por muitos idealistas do eterno bem estar) e a retomada de atitudes direcionadas ao crescimento, voltado à espiritualidade verdadeira.

Em raríssimos casos a depressão liga-se a aspectos de cunho físico de forma isolada. Na maior parte dos casos, os pacientes com depressão têm enormes problemas de personalidade e afetividade, e muitos negam o problema, ativando todos os seus mecanismos de defesa, especialmente o racionalismo, justificando demasiadamente sua patologia, e assim não confrontando a realidade. Isso quando não projetam a culpa do problema em qualquer outra coisa, até mesmo a bioquímica ou a genética. Nesses casos, a depressão tende a tornar-se crônica, perdurando por anos a fio, até que a personalidade seja revista.

Dos aspectos psicológicos um é comum a vários pacientes: a mágoa.

Muitos são um verdadeiro poço de ressentimentos. Não perdoam pessoas de seu passado, remoem situações angustiantes, como perda de emprego, fim de relacionamento, calotes e ficam paralisados por anos, presos a sentimentos negativos. A falta de perdão torna-se revolta que se estende ilimitadamente até Deus. Por que tanta injustiça? O que fiz de errado?

A raiva, quando não elaborada da forma correta, corrói a personalidade, retirando do individuo sua alegria de viver. Potencializa a depressão, a dificuldade em elaborar as perdas e as aceitar, e o materialismo. Quanto mais materialista for um individuo, maior será sua prisão em um quadro depressivo.

Depressão tem cura, desde que o doente busque consciência e autoconhecimento. É possível curar a depressão, desde que a pessoa aprenda a perdoar e a se perdoar.

 

(Jorge Antonio Monteiro de Lima, analista, pesquisador em saúde mental e psicólogo)

 

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