Desativada 2

E quando o agressor é um mito do cinema?

Redação DM

Publicado em 30 de novembro de 2015 às 21:29 | Atualizado há 1 ano

Com mais de 50 anos de carreira desempenhando várias funções no meio cinematográfico, Woody Allen completa hoje 80 anos de vida. Ator, comediante, cineasta e escritor, nasceu em Nova Iorque na década de 1930. Sua fama mundial é justificada pelos mais de 40 filmes autorais, citados como influência para cineastas de todas as gerações posteriores. Tem como marca registrada os diálogos faraônicos em volta de situações cotidianas de relacionamentos amorosos.

Nos últimos anos, após ter sido re-acusado de abuso sexual por sua filha adotiva, Woody Allen tornou-se tema de várias publicações sobre adoração a homens abusivos. Em 2014, Dylan Farrow, através de uma carta, alegou ter sido violentada pelo pai adotivo em 1992, durante o processo de separação do diretor e Mia Farrow, que viveram juntos por dez anos. A grande repercussão do caso reconfigurou o olhar de muitas pessoas à obra do diretor, gerando uma série de textos questionando o teor de seus filmes.

Diminuição da mulher Allain Bassart, em artigo para o Le Monde Diplomatique, levanta que existe um discurso presente em boa parte dos filmes de Allen, que “repetem incansavelmente a tocante inocência do homem, que não consegue abster-se de utilizar as mulheres para seu proveito”. Ele propõe ainda a questão da absolvição dos ‘aproveitadores’, que nos filmes de Allen seriam vítimas da própria ordem vigente. Ele coloca: “A base do discurso cinematográfico de Woody Allen não é senão a da neurose do protagonista masculino (geralmente interpretado por ele próprio), que na verdade é ‘um inocente’ mais digno de pena do que aqueles e aquelas que o rodeiam”.

Sobre o filme Manhattan (1979), Baissart analisa a o enredo centrado no protagonista (interpretado pelo próprio Allen) e ‘seus’ três ‘objetos’ femininos de desejo.“A narrativa confronta o ‘herói’, pequeno intelectual cheio de humor, com as mulheres: uma adolescente, uma jovem jornalista e sua ex-esposa. O nobre projeto masculino de escrever ‘um verdadeiro romance’, é apresentado no filme como um ato de coragem, ao qual opõe o trabalho feminino de ‘novelização’, apresentado como vulgar”.

Bassart sugere ainda que em Manhattan, o motivo nobre da vida – que seria lançar um livro – seria deturpado pela bagunça sentimental que as mulheres, por natureza, criariam na cabeça do ‘gênio’ protagonista. “O filme nos mostra que o ato de criação [intelectual] — masculino, evidentemente — não se pode se realizar senão no isolamento. O ‘herói’ tem muito medo de gastar a energia de que necessita para criar numa relação amorosa. Por outro lado, se ele é detestável para com as mulheres, seu humor e sua inteligência lhe dão um charme ‘irresistível’”.

O mito x a vítima

No artigo ‘Por que defender Woody Allen’, Megan Murphy, para o site Feminist Current, questiona a inocência automaticamente atribuída ao diretor no suposto caso de violência sexual, baseado em argumentos de que as mulheres envolvidas na denúncia eram emocionalmente instáveis (a clássica do desequilíbrio feminino natural) e de que no fundo ninguém poderia saber o que ocorreu, pois análises externas são perigosas e Allen tem uma carreira impecável como diretor, o que causaria inveja.

Para ela, o discurso da mulher impulsiva é “uma tática usada para silenciar mulheres: chamar a vítima de ‘louca’, ‘ciumenta’ e ‘instável’. Isso já aconteceu comigo. Já aconteceu com inúmeras outras mulheres. Não é coincidência. É o plano”. Quanto ao argumento de que ninguém pode saber ao certo o que ocorreu, ela aponta que “faz com que seja mais fácil continuar a apoiar e celebrar homens abusivos. Enquanto isso, a vítima descobre que é insignificante. Ela aprende que a arte de seu agressor é mais valiosa do que sua própria vida”.

Autor x Obra

Em seu blog, Darllam Cruz levanta a questão de uma possível separação entre autor e obra, que seria necessária a ele caso quisesse continuar sendo um fã dos filmes de Allen. Ele usa como contraponto o caso de Roman Polanski, outro diretor de cinema envolvido em acusações de pedofilia, definindo-os como “predadores sexuais”. Ele escreve: “Pensando no assunto, tentei formular, para mim, os motivos de eu conseguir ignorar sumariamente o fato de que esses homens que eu admiro são estupradores”.


Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia