Desativada 2

Entre meus dedos

Redação DM

Publicado em 31 de dezembro de 2015 às 01:11 | Atualizado há 11 anos

Era um tiro no escuro, um clarão. As fortes chuvas e o bruto estalar de um trovão sobre as águas. Quando vem o vento é desnecessário saber para onde navegar. É quando cai o raio é quando sinto que já sei. Eu já sei que poderia guardar tudo numa mochila: o bolso menor, o da direita, serve para os casos pequenos, como aquele compromisso adiado por falta de claridade nas idéias. O bolso maior, localizado na esquerda, guardo uma esperança. Tenho sim uma única esperança que não é muito grande nem muito certa. Anda cardíaca. Não é bela, com certeza. Não sabe de valsa e nunca leu Dom Casmurro, coitada. Uma esperança que murcha, como uma flor real, mas tem a intenção interna de se tornar plástico e ser talvez vendida por 1,99.

O barco que me leva não tem fronteira. O mar em que navego também não é feito de limites, apenas esta mochila consegue segurar alguma coisa como uma barragem e ainda bem que é assim. A esperança que carrego é arisca e quase escapa por entre os dedos de tão líquida. As vezes me afoga e também mata a sede. As possibilidades são infinitas ao se explorar cidades de ação sucinta. Quero dizer, o meu desejo de naufragar segue emparelhado ao real concreto que abraço forte.

Alguém chora e soluça do outro lado da cidade eu não. Tiro o cisco que restou no meu olho enquanto encarava a porta aberta. Nunca haveria antes fechado a porta e me tratado diferente de um animal. Como um pet. A porta meio aberta para que como deixa ficasse claro o saia devagar, esta é a hora, apenas saia. A freqüência do rádio nivelada numa estação musical falava alto que tinha que acontecer alguma coisa, meu bem. Tinha que acontecer alguma coisa entre o sorriso e a porta cerrada, acredito até hoje, mas aceito tirando o cisco. Soube que a lua era apenas uma metáfora desde o início daquela cantada. O mar é real, isso vejo com os dedos agora. Mas digo friamente que tirei o cisco e não mais choro suas lágrimas salgadas. O cisco do tamanho de um iceberg vai derretendo no quintal. Agora salga outras coisas outros mares.

Um trovão racha até o caroço essa bolha de lembranças. Ao partir o céu em dois separados mundos o som a onda de choque retoma os batimentos. Dentro do mar cabem raios, ondas de dois metros já couberam no mar, um rio e monstros marinhos de três mil ouvidos e olhos azuis de estrangeiro. Robinson Crusoe coube dentro do mar e também dentro de um livro que é uma espécie de mar em estado sólido. É preciso pensar a força dos ventos? É preciso saber a profundidade e altura da maré nesses casos? O simples entrar no mar e dar de cara com as ondas como quero requer rebeldia de marujo novo, inexperiente. Preciso não conhecer o mar, pois me afundo em tantas coisas menos reais quando conheço.

Minha esperança me chama abro a mochila e algo fisga o canto da minha boca: arqueio o lado direito do lábio, pessoas chamam sorriso. Ela nunca havia visto o mar ainda mais de noite em uma tempestade como esta. Perguntou como uma gota de mel se precisava fechar o olho quando fosse mergulhar, mas não era necessário fechar os olhos como a porta. Minha alma eu trato como um pet. Deixo um pouco aberta para que entenda o saia e não gaste palavras numa discussão.

Tanto o oceano, quanto a atmosfera e essa minha esperança são fluídos e estão em mútuo contato físico. A interação é mergulho de um no outro. O sol aquece, mas é o sal quem tempera e quem não procura algum gosto na vida? As lágrimas de sal que saem dos olhos-entre-abertos molham a mochila e explico que sem a presença dela, a esperança-miúda, tudo seria o fundo do mar escuro ou melhor: o fundo do poço. Por isso me sento de frente ao mar e deixo que água encoste a ponta dos meus dedos, um termômetro que confirmo a quantidade mínima de calor. Não quero o calor. Quero o gelo do iceberg e a frieza de carregar no peito uma única esperança. A frieza de uma porta fechada já é algo duro demais.

Ouvi o conselho. Dizia ele que eu deveria guardar a esperança, essa única esperança inútil comigo pra sempre, de alguma forma ser eterna ao lado dela. Apanhei uma mochila velha, única espécie de barreira que carrego comigo e soquei apressada a única-esperança e algumas roupas usadas. Mas para se tonar um mar fundo com temperaturas abaixo de zero é necessário salgar o caminho até a praia com lágrimas, suas lágrimas. Antes de começar às chuvas de outubro sai da casa em busca do ponto zero. Os raios de trinta toneladas partiam nuvens que enxugavam o azul do céu e coloriam de quase negro até os meus pensamentos. Um passo.

Dois passos. Milhões de flashs iluminam meu caminho na areia. Três passos e às águas me agarram como uma multidão de fãs, puxam o braço, agarram-me pelo colarinho. Quarto passo e já não é um passo que deixa pegadas é um nado que deixa espuminhas ou pequenas bolhas de ar. A mochila molhada e meus sentimentos secos ao sol, busco olhar a esperança-ali-dentro e seus olhos abertos iluminam mais que os raios sobre a superfície. Não consigo completar o quinto passo que seria apenas uma braçada em direção ao mais fundo. Meu braço se faz poste duro nas dobras como quando chega à idade final. Congeladas a esperança, meus braços e pernas presos nas paredes de um imenso iceberg. A esperança miúda de ver a porta outra vez ao menos entre aberta. Entre, aberta. Para sempre eu e a esperança-chapada em um iceberg que é um cisco preso dentro do mar dos olhos de uma outra pessoa que vive o outro lado dessa face.

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