GOIÂNIA, OUTROS PIONEIROS E A CIDADE QUE NÃO ESTÁ NOS LIVROS….
Redação DM
Publicado em 26 de outubro de 2015 às 20:42 | Atualizado há 1 anoA História do bairro, da classe trabalhadora, as trajetórias de homens e mulheres que construíram com suor, sonhos, lutas e resistências, a cidade que moramos, pode dar um outro sentido ao estudo da História. Por meio da entrevista com antigos moradores conhecemos uma cidade que não está nos livros. A Vila nova, nos projetos de Pedro Ludovico, deveria ser um bairro industrial, mas existiam os outros pioneiros: “o Boaventura juntou o povão e não deixou isso acontecer, chegaram a invadir a câmara municipal”, é o que relata um dos moradores mais antigos do Bairro, Sebastião Calassa. Também na literatura encontramos a ideia da expulsão dos pobres das áreas centrais da cidade, como em Eli Basiliense, no romance Chão Vermelho: “As casas de tábua, onde o governo assina decretos de zungu, haviam desaparecido. Cada semana a cidade mudava de feição, esparramava-se para todos o lados, escorraçando gente pobre do centro.”
Entre os pioneiros na construção de Goiânia estão os operários. Foi esta transformação do território em cidade, com ruas, casas, prédios, que possibilitou a valorização e a especulação em torno da cidade. Muitos destes operários, contudo, executaram o projeto da dita cidade planejada e ficaram “fora do plano atilliano, como diz o poema de Eguimar Chaveiro, se ajeitando nas ocupações. Mas além dos problemas da moradia a cidade revelou-se como espaço de intensa exploração, onde os trabalhadores ficavam quatro meses sem receber e perdiam até 40% do salário no esquema dos vales. Conforme analisou Chaul no texto a construção de Goiânia e a Transferência da Capital,foram várias greves entre 1934 e 1936 em uma situação de extrema penúria ou excessiva miséria.
O controle do trabalhador e da posse da terra urbana era exercido pelo Estado e pelos proprietários, produzindo uma tensão própria de uma terra de fronteira, atuando aí, jagunços, funcionários do Estado e construtoras. Temos empresários como os Coimbra Bueno, que receberam terras, lotes, como forma de pagamento, sem nenhum critério de planejamento, aprofundando um processo de especulação fundiária. Aliás, a cidade nasce como especulação anunciando as bases que inviabilizariam a execução do projeto do arquiteto Atillio Correa Lima.
Sabendo que o que produz riqueza social é o trabalho, percebemos que a cidade, como riqueza produzida, a partir do discurso de uma “moderna capital”, se fez por meio da exploração violenta dos operários e da especulação dirigida por empresários atraídos pelo Estado, não garantindo o mínimo de condições para a reprodução da força de trabalho, além de ter sido base para arregimentar trabalho escravo para fazendas próximas. Esse processo é típico da modernização na periferia capitalista, como bem estudou Francisco de Oliveira no livro “Crítica a Razão Dualista”, onde evidencia como a modernização capitalista é mais violenta nestas bandas de cá com limites para se falar em democracia, mesmo uma democracia burguesa. Nosso capitalismo é um bicho estranho, um “ornitorrinco”, como define o autor. Toda essa tensão desapareceu da dita História oficial.


O Historiador Jaques Le Goof, no livro
História e Memória, nos diz que “a falta ou a perda, voluntária ou involuntária, da memória coletiva nos povos e nas nações, pode determinar perturbações graves da identidade coletiva.” Neste sentido, lidar com a história oral, com a memória, “com as lembranças lapidadas pelo espírito”, bela definição de Ecléa Bosi, contribui significativamente para o entendimento dos processos históricos e para e entendimento de quem somos. Os migrantes que passaram dias no lombo dos burros, ou mesmo chegaram a pé e construíram comunidades que disputaram os espaços na construção da cidade, marcaram a cidade e a cidade os marcou, mas suas trajetórias foram anuladas pela dita História oficial.
Quem sabe, a partir de novas leituras e pesquisas, percebendo nossa história por meio de outros olhares, faça mais sentido o estudo da história nas salas de aula e em outros espaços onde a vida carece de orientação. Percebendo assim que somos fruto de tensão e luta e essa é a beleza e a dor de nossa História. Ou como melhor define poeticamente Eguimar Chaveiro…. “sim senhor, Goiânia é uma cidade bela, para quem tem coragem de lutar”.
Fernando Viana Costa
Historiador, professor, documentarista, Mestrando em História -UFG e militante do MUP – Movimento Universidade Popular.
