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Há 130 anos nascia um Galileu, há 130 anos nascia György Lukács (1885-1971)

Redação DM

Publicado em 15 de abril de 2015 às 21:52 | Atualizado há 1 ano

Ian Caetano, Especial para Diário da Manhã

Abro um pequeno espaço hoje, com o perdão e a paciência vossas, leitores, para falar deste que é um dos pensadores mais importantes do século XX e um dos mais importantes pensadores do marxismo.

György Lukács foi o segundo dos filhos de seus pais e nasceu no dia 13 de abril de 1885 na cidade de Budapeste, Hungria. Filho de judeus, seu irmão mais velho foi assassinado durante o nazismo e sua família sofreu diversas perseguições. Na universidade foi aluno de um outro gigante do pensamento contemporâneo, Max Weber. Ainda nos anos de graduação, lê O Capital, de Karl Marx, ao qual ainda não dá tanto valor e encara a obra como, apenas, um “bom tratado econômico”. Ao, nos anos posteriores, travar contato com as greves e as lutas operárias, reconsidera suas posições teóricas e sua vida política começa a tomar corpo no campo das lutas sociais.

Em 1922, já declaradamente um pensador marxista, lança o livro que talvez seja, hoje, sua obra mais popular: História e Consciência de Classe. Esta é considerada a obra fundadora do “marxismo ocidental” e influenciou profundamente autores como Herbert Marcuse e Theodor Adorno. Nas palavras do pensador esloveno Slavoj Žižek este livro “é um dos poucos eventos autênticos na história do marxismo”.

Além de um destacado pensador político do marxismo, outra grande contribuição é a dos estudos estéticos e literários (destas contribuições temos, por exemplo, O Romance Histórico e um gigantesco estudo chamado Estética). Foi um dos iniciadores das “análises materialistas/históricas” da literatura e das artes em geral.

Durante a revolução russa de 1917, teve um importante papel em polêmicas político-teóricas com Lênin e Trotsky, além de ser uma figura bastante controversa dentro do partido socialista húngaro. “Estou travado na garganta deles, eles não conseguem me engolir, mas também não podem me cuspir” é uma de suas falas sobre as relações dentro do partido à época. Na experiência da comuna soviética húngara de 1919 foi ministro da educação e comissário do povo.

Depois da morte de sua esposa e grande companheira de vida, Gertrud Bortsieber, Lukács passa um tempo em profunda depressão e chega a tentar suicídio. Consideravelmente recuperado, anos mais tarde, começa seu estudo mais ousado. Ao fim da Estética Lukács percebe que seus estudos não estariam suficientemente completos se não fizesse uma abordagem de base, ou seja, uma abordagem sobre a Ética. Começa por uma discussão filosófica sobre a ontologia do ser social. Esta abordagem (que seria o capítulo primeiro da Ética) sozinha tem quase mil e quinhentas páginas. Revendo esta obra Lukács fica insatisfeito com alguns pontos e resolve reelaborar algumas coisas. Nesta época, em um exame de rotina, descobre estar com câncer em estado terminal. Recluso em seu apartamento, escreve aos arroubos, aflito de deixar sua obra incompleta. Escreve até poucos dias antes de morrer (e ainda dita outras tantas partes, por conta da debilidade física, que foram transcritas por alunos e colegas). A morte não lhe permitiu terminar sua Ética, mas seu capítulo primeiro, Para uma ontologia do Ser Social, é até hoje lido e discutido em diversos cursos de filosofia e ciência social.

Uma figura de peso para o pensamento comunista, um questionador das desigualdades sociais, Lukács é lembrado como um dos maiores recompositores do marxismo. Em uma época em que a teoria marxista era dada como ultrapassada e era quase motivo de chacota se dizer Marxista, a história provou, uma vez mais, a atualidade do pensamento de Marx e Lukács foi grande contribuinte na sistematização dessa empreita.

Lukács morreu em Budapeste, no dia quarto do Junho de 1971, internado em um hospital. Deixara todos os seus livros para a biblioteca da Academia de Ciências da Hungria; todas suas obras-de-arte foram deixadas para o Museu de Arte de Budapeste e autorizou dois de seus alunos mais próximos – Ferenc Fehér e Ágnes Heller – que pegassem um livro e alguma mobilha à livre escolha, como recordação.

“Quando eu morrer, como irei em um ou dois anos, terei poucos arrependimentos. Não preciso de consolação e não estou buscando consolação, muito menos de uma que venha de um outro-mundo” foram suas palavras sobre, quando próximo da morte, perguntaram-no se temia a morte e se acreditava em algo além dela.

Vale apenas conhecer sua história, perceber sua relevância e entender o pensamento do homem que, quando de uma visita à União Soviética nas sombrias épocas do stalinismo, foi revistado e perguntaram-lhe se carregava algum tipo de arma, ao que o pensador respondeu “sim”, e tirou do bolso uma caneta.

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