Cultura

JK firmou construção de Brasília durante comício em Jataí

DM Redação

Publicado em 2 de maio de 2025 às 21:58 | Atualizado há 14 horas

Cartão postal: Museu foi inaugurado em 2003 e está localizado no parque ecológico que leva o nome de JK - Foto: Prefeitura de Jataí
Cartão postal: Museu foi inaugurado em 2003 e está localizado no parque ecológico que leva o nome de JK - Foto: Prefeitura de Jataí

Há 70 anos, encontro com eleitores em cidade goiana tornou a construção da nova capital um compromisso de campanha firmado pelo então candidato Juscelino Kubitschek. Diário da Manhã visita memorial que guarda essa história

Marcus Vinícius Beck

Jataí (GO) – Às oito horas da manhã, num domingo ensolarado, a arquitetura se revela altiva em meio à sutil paisagem urbana de Jataí, a 320 km de Goiânia. A construção atraente emula as curvas modernistas e sensuais que tornaram Oscar Niemeyer figura conhecida mundo afora. 

Tudo remete ao ex-presidente Juscelino Kubitschek. Enquanto caminho à margem do lago, penso no tino político do ex-governador mineiro em um cenário hostil — e reflito sobre sua visão futurista para um Brasil que quase vivera guerra civil. Resiste, a memória de Kubitschek.

A história de Brasília, capital brasileira desde 1960, teve início há 70 anos em Jataí, então com cerca de 12 mil habitantes. Juscelino Kubitschek foi até o então pequeno município goiano por estratégia sobretudo política: era o maior reduto eleitoral do PSD em território patropi. 

Na ocasião, Kubitschek engatinhava sua campanha à Presidência da República. Foi avisado pelo senador goiano à época, Dario Délio Cardoso, de que não era bem-aceito pelo Exército. Daí, então, ser conveniente começar a corrida eleitoral com um comício no interior do País, de modo a deslocar-se dos grandes centros urbanos — o epicentro das agitações políticas. 

Meses antes, em agosto de 1954, o Brasil convulsionara-se. Em seu jornal, o udenista Carlos Lacerda fazia oposição ferrenha ao governo de Getúlio Vargas. Eis que, em razão desses ataques, instalou-se a certeza de que só havia uma saída: remover Lacerda da cena política. 

Embora fosse criminoso — consistia em assassinar Lacerda —, o plano já nascera desastroso. Um pistoleiro foi incumbido de encerrar a vida do opositor. Quando o udenista chegava à porta que o levaria ao prédio onde morava, no Rio de Janeiro, a ação começou. Quem morreu, contudo, foi o segurança de Lacerda. O político apenas se feriu, mas nada grave. 

Em sua “História Concisa do Brasil”, o historiador Boris Fausto explica que Vargas agora tinha contra si um ato criminoso. Como consequência da ação fracassada, houve reação urbana de massa. Ao entender que o cerco se fechava, isolado e pressionado, o então presidente tirou a própria vida no Palácio do Catete, a 25 de agosto de 1954.

“O vice-presidente Café Filho assumiu o poder. Formou um ministério com maioria udenista, assegurando ao País que garantiria a realização das eleições marcadas para outubro de 1955”, detalha Fausto, em seu livro. Em fevereiro, seis meses após Vargas entrar na história, o PSD anunciou a candidatura do democrata Juscelino Kubitschek.

JK, como a historiografia o chama, construíra carreira no PSD mineiro e se elegera governador de Minas Gerais. Ao analisar a história da cidadania no País, o historiador José Murilo de Carvalho afirma, em seu livro clássico, que as forças antivargas saíram derrotadas nas eleições realizadas em 1955. A chapa Kubitschek-Jango teve somente 35,7% dos votos.

História

Ao andarmos pelo Memorial JK, cientes de que o passado muitas vezes sequer passa, somos intimados a discutir o Brasil daquele tempo. Ali, entre fotos e textos, tateamos a história, com suas nuances e curiosidades — como quando Antônio Soares Neto, o Toniquinho JK, questionou o candidato a presidente se ele, caso eleito, cumpriria a Constituição vigente. 

“Excelência, o senhor prometeu cumprir a Constituição, portanto se eleito for, irá transferir a capital para o Planalto Central, como prevê a Constituição?”, provocou Toniquinho, estudioso da Constituição de 1946 e que viria a se formar advogado nos anos 1970. 

Perplexo, JK respondeu que, “com as graças e as bênçãos de Deus”, acabava de prometer que cumpriria, na íntegra, a Cons­ti­tui­ção. “Não vejo razão por que esse dispositivo seja ignorado. Se for eleito, construirei a nova capital e farei a mudança da sede do governo.”

Horas antes do comício, uma chuva torrencial repousara sobre Jataí. A ideia, inicialmente, era que o político mineiro falasse com o povo em local aberto, ao que tudo indica na praça Tenente Diomar Menezes, localizada no Centro da cidade goiana. Com o temporal, entretanto, o evento se transferiu para um barracão no qual operava uma oficina mecânica. 

No próximo discurso, em Anápolis, JK preservaria os 30 pontos de seu plano para governar o Brasil, nomeado “Plano de Metas”, porém faria nele uma alteração. Ao ser interpelado por Toniquinho, morto em 2019, aos 94 anos, Kubitschek fez Brasília passar a ser uma obsessão. 

Mas o historiador Ronaldo Costa Couto, em seu livro “Brasília Kubitschek de Oliveira”, reforça que JK pisou em Jataí “sabendo de tudo”. “Desde o sonho da mudança dos Inconfidentes, que queriam a capital em São João Del-Rei, aos trabalhos finais da Comissão de Localização, criada por decreto de Vargas, de junho de 1953”, diz o ex-governador do DF. 

Há um lugar em que é possível visitarmos a história — o Memorial JK. Inaugurado em 12 de setembro de 2003, o museu está localizado no parque ecológico que leva o nome do ex-presidente. Lá somos intimados a imergir na história onde Brasília começou. Apreciemos.

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