LUA EM SAGITÁRIO leva ao cinema romance jovem e questão agrária
Redação DM
Publicado em 11 de outubro de 2016 às 02:37 | Atualizado há 10 anosSurgido da vontade de fazer um filme para o público jovem que abordasse a questão agrária, o longa Lua em Sagitário, com estreia prevista para 7 de setembro, em Florianópolis (SC), e 15 de setembro em São Paulo e Rio de Janeiro, traz temas reincidentes nos projetos da diretora Marcia Paraiso: a disputa pela terra e o preconceito como elementos resultantes da intensa luta de classes que atravessa a história do Brasil.
Dessa vez, no entanto, o trabalho, selecionado para o Prêmio Estreia Mundial do Festival de Avanca, em Portugal, no fim do julho, chega com uma diferença importante. Se antes Marcia utilizava fundamentalmente a abordagem documental, agora ela transpõe barreiras estéticas e salta para a ficção, num movimento que a própria autora classifica como de ruptura, em busca de superar as muitas restrições ao alcance do gênero documentário e tratar o preconceito contra os jovens que não vivem nos grandes centros urbanos pelas lentes da ficção. É nesse contexto que a trama se desenvolve, tendo como eixos as rotinas de dois jovens que passam longe dos padrões veiculados pela mídia de massas.
Ana (Manuela Campagna) é uma garota que vive em Princesa, uma cidade de cinco mil habitantes no interior de Santa Catarina. Filha única de família tradicional, ela não se identifica com os hábitos da sociedade local, o que a faz ter poucos amigos e sonhar com experiências em terras distantes, como a ida a um festival de rock em Florianópolis. O outro protagonista é Murilo (Fagundes Emanuel, o Mosca da novela Geração Brasil), um rapaz nascido e formado no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e que mora num assentamento em Dionísio Cerqueira, divisa com a Argentina.
ROCK ARGENTINO
O país vizinho, por sinal, tem presença constante em Lua em Sagitário. Movidos por gostos exóticos ao município onde vivem, como a predileção musical por bandas de rock, Ana e Murilo se conhecem na lan house do argentino LP (Jean Pierre Noher, o chef Pierre Bonnet da série global O Rebu). É nesse ambiente que o relacionamento dos jovens se constrói, baseado principalmente na atração pelo diferente.
LP desvenda aos jovens um mundo fascinante, marcado por muitas histórias sobre momentos épicos do rock, aventuras e a poesia presente na diversidade. Um personagem que ganhou muita força graças ao trabalho de Jean Pierre, que convenceu a diretora a fazer de seu personagem uma homenagem ao rock argentino dos anos 1980. “Construí o personagem de dentro para fora e também pensamos muito na aparência dele. Fui para Buenos Aires buscar esse passado dele, sua melancolia e suas experiências, aliadas a uma vontade de viver que ele transmite para o casal protagonista”, diz o ator franco-argentino.
Na trama figuram ainda as participações de Elke Maravilha e do veterano roqueiro Sergei, que, segundo a diretora do filme, são “eles mesmos” e evidenciam o que ela chama de “ruptura geral dentro da história”. “É uma situação insólita, pode ter acontecido, pode não ter acontecido”, brinca a diretora.
Além deles, a atriz catarinense Andrea Buzato, premiada no Festival de Gramado, tem papel de destaque como a mãe da protagonista Ana. Lua conta ainda com a participação da atriz baiana Ana Cecília Costa, a Gaia da novela Jóia Rara, do ator maranhense Antônio Sabóia, que esteve no elenco da novela Amor à Vida, e do ator catarinense Chico Caprario.
CONTRA O PRECONCEITO
Justamente por uma linha que expõe diferenças, desde as divisões socioeconômicas, passando por conflitos geracionais, até a oposição entre o racionalismo de Ana e o gosto por astrologia de Murilo (o que inspirou o nome do filme), é que Lua em Sagitário traça um percurso de referências e discursos políticos contra o preconceito, mas sem perder de vista o frescor de uma linguagem jovem. A narrativa cresce com a evolução da temática da questão agrária como pano de fundo para diversas cenas que envolvem os jovens, mas sem cair na armadilha de produzir uma fala verticalizada que pretenda impor verdades definitivas.
Essa posição, em essência, vai ao encontro da expectativa da diretora Marcia Paraiso, que explica que a mensagem central do filme passa por uma espécie de desierarquização das relações. “O jovem não necessariamente precisa pensar igual ao pai, igual ao avô. Tinha um tempo em que isso era muito forte. Era muito difícil de formar o pensamento crítico próprio. Hoje, você tem mais acesso a informação. Eu gostaria que o filme tocasse as pessoas, esse público jovem”, diz a diretora.
É nesse sentido, por exemplo, que Ana forma a percepção da realidade de Murilo, enfrentando o posicionamento do pai, que vê os assentamentos do MST como uma afronta à cultura de meritocracia na qual foi criado. “A Ana muda a maneira de pensar sobre a temática da questão agrária e da luta de classes, coisas em que ela não pensava até namorar um assentado. Quero que o filme mexa com a galera desse jeito. Isso serve para tudo, desenvolver o raciocínio critico para qualquer tema, política, religião etc”, argumenta Marcia.
A atriz Manuela Campagna destaca que o filme trata da questão agrária de forma sutil: “Ele não levanta muito a bandeira, mas as coisas estão ali. Acho que por ser assim, por não evidenciar tanto a questão, e tratar o tema com naturalidade, leva a quem está vendo a entender o jeito que é apresentado. Principalmente no momento atual, da questão agrária, das ocupações, o MST é exposto de um modo muito cruel pela mídia. O filme faz outra abordagem, que é muito legal, pelo viés do olhar da Ana, que vai descobrindo isso, afinal, ela só teve contato com a temática pelo olhar preconceituoso do pai. O filme dá a quem o assiste a descoberta desse universo junto com a personagem.”
MOMENTO POLÍTICO
Sobre o filme chegar num momento de intensa disputa política no país, a diretora lembra a complexidade histórica em falar sobre reforma agrária no Brasil. “Isso é complicado, muitas pessoas sempre vão torcer o nariz. Mas eu vejo que é um momento, talvez, em que a gente está conseguindo ganhar uma nova geração. O positivo é que tem uma juventude aí que ocupa escolas, que está se posicionando com pensamento critico. É com essa galera que eu quero falar”, enfatiza.
O ator Fagundes Emanuel parte de um ponto de vista artístico abrangente para falar sobre a relação entre a cena política nacional e o filme Lua em Sagitário. “Ser artista, para mim, já é sinônimo de ser político. Não existe arte sem política. Por mais fofa e banal que a arte seja, ela é uma educadora política. São coisas que estão diretamente ligadas”, pondera.
A cidade de Princesa, cenário da maior parte da história, não foi escolhida só pela paisagem bucólica, mas também por encarnar valores que o enredo do filme pretende lançar ao debate. “A cidade é conservadora no sentido de ser uma cidade sem grandes indústrias, sem grandes comércios. É um grupo de famílias, a maioria de ascendência europeia. Era uma região que tinha muitos caboclos, mas, quando vieram esses projetos de empresas colonizadoras, os caboclos foram cada vez mais empurrados. E hoje é uma cidade de famílias brancas, que você conhece as pessoas pelo sobrenome”, explica Marcia.
Uma curiosidade do município é que ele está situado na fronteira entre Brasil e Argentina, o que também coloca na trama a discussão sobre as relações com os habitantes de um país diferente, que está “do outro lado”.
MEIO AMBIENTE
Lua em Sagitário foi realizado com a preocupação de reduzir impactos ao meio ambiente. O filme compensou o uso do carbono gasto com deslocamento de equipe (terrestre e aéreo) e gastos com eletricidade com o plantio de mudas de árvores nativas da Mata Atlântica. Além disso, durante as gravações evitou-se o uso de material descartável, reduzindo a produção de lixo. Canecas individuais foram fornecidas pela Ewel Esmaltados, empresa parceira do projeto em Santa Catarina. Com as canecas personalizadas com o nome de cada um – equipe técnica e elenco – reduziu-se também o gasto com água.
VIABILIZAÇÃO DO FILME
Lua em Sagitário é um longa de ficção em coprodução com a produtora Argentina Salta una Rana e o Canal Brasil. Foi o primeiro projeto audiovisual de Santa Catarina a ganhar o prêmio Ibermedia, programa de estímulo à produção de filmes ibero-americanos e teve apoio da Ancine/Fundo Setorial do Audiovisual. Além do elenco, o filme contou com um equipe técnica de 26 pessoas, considerada reduzida para um longa metragem. O orçamento total foi de R$1.2 milhões.
Sobre a diretora
Marcia Paraiso é diretora e roteirista, e trabalha com audiovisual desde 1993, tendo atuado em várias frentes. Sócia da produtora Plural Filmes – com sede no Rio e em Florianópolis, dirigiu documentários para a RBS TV e TV Brasil, e trabalhou como professora no curso de cinema da Universidade do Sul de Santa Catarina e Universidade Federal de Santa Catarina. Seu primeiro filme foi o curta metragem ficção Livre – 35mm – 1996. Se dedicou ao formato documental, especificamente às questões sociais, ambientais e culturais.
Também dirigiu “Visceral Brasil – as veias abertas da música”, série de 13 episódios para a TV Brasil – Prodav – FSA. A ideia de “Lua em Sagitário”, seu primeiro longa de ficcão, surgiu a partir das várias viagens pelo Brasil profundo e seus personagens reais, instigantes e inspiradores e também do constante diálogo e proximidade com jovens das mais distintas classes sociais e regiões brasileiras, que fogem de um padrão reproduzido pela mídia como representação dos jovens do Brasil. Atualmente, Marcia está envolvida em outros dois projetos. O longa documentário Bravos Valentes, sobre os vaqueiros brasileiros, em coprodução com a Globo News, projeto que mergulha no universo dos vaqueiros do Marajó (Pará), Sertão (Bahia e Pernambuco), Rio Grande do Sul (Pampas gaúchos e fronteira com o Uruguai) e Pantanal. E a série “Invenções da Alma – arte popular brasileira”, com 26 episódios documentais sobre artistas populares brasileiros – naif, escultores, mamulengueiros e gravuristas.
A produção da Plural Filmes, todo material do filme Lua em Sagitário, que o produtor Carlos Brandão vai lançar no Goiânia Ouro, dia 18, dentro da programação do Goiânia em Cena, com Marci Dornelas.
Lua em Sagitário – O Filme., fica em cartaz de 18 a 23 de outubro, no cinema do Goiânia Ouro.