MÚSICA CLÁSSICA
Redação DM
Publicado em 4 de junho de 2015 às 02:53 | Atualizado há 1 anoPianista goiano é destaque nacional com interpretações viscerais de J.S Bach, Villa Lobos, Chopin e outros compositores do primeiro time da música clássica
A Polonaise, de Frederic Chopin, é uma das peças mais populares do repertório de piano: começa a partir de um mi bemol imponente, majestoso e acertado com força pelas mãos de quem a desafia. A composição segue com uma escala ascendente e de forma ordenada. É tudo rápido e exige domínio e técnica apurada. Um erro e a música se desmancha toda, prostrando-se novamente e desafiando aqueles que acreditam poder dominá-la.
Em ¾, a composição é vigorosa nas semicolcheias e desperta no ouvinte e em quem toca uma emoção incomum: o heroísmo. Chopin a teria escrito inspirado nos ares revolucionários do passado e não se esquivou de deixá-la na imaginação de quem acreditava ser necessário um ímpeto heroico para irromper as revoluções de 1848 – uma série de revoluções cuja insatisfação maior era exatamente a falta de representatividade política e o aumento do custo de vida.
A forma ternária é conduzida por uma expressão rítmica de ‘Ala polacca’. E só depois de um grande exercício de controle das escalas, com dinâmica e destreza, que surge o tema principal quase que cantante: ré bemol e fá (em uníssono) e dó e mi (também em uníssono) são tocados em intervalos relaxados pela mão direita enquanto a esquerda percute uma oitava de lá bemol nas notas graves, seguindo depois para mi bemol e lá bemol agudo.
Esta é uma composição para intérpretes maduros e experientes, que os faz sonhar e imaginar muito além do pentagrama – talvez com as mudanças vindouras da realidade política.
O pianista Pedro Henrique Lisboa, 11 anos, morador de um Brasil onde a classe política não o representa, não cansa de sonhar: acredita, por exemplo, que seu time, o Vila Nova F.C, possa retornar triunfante para a série A do Brasileirão.
Entre um sonho e outro, ele disputa uma partida de vídeo game ou mexe em seus “hominhos”. Toda criança tem uma vida privada. E a de Pedro Henrique Lisboa é tão excitante quanto a pública. Seus brinquedos são os mesmos de todas as crianças.
Fora do círculo de amizades da escola e da família, ele tem sido um incansável pianista. Com três anos, Pedro começou a ser moldado pela ourives de grandes talentos, a pedagoga musical Lilian Carneiro Mendonça.
Em Goiânia e no restante do Brasil, ele tem se destacado como um dos pianistas mais premiados em sua faixa etária. Aos 11 anos, Pedro interpreta peças de fôlego, como a “Polonaise”, de Frederic Chopin, exatamente esta do início, que exige um equilíbrio certeiro de golpes e movimentos para realizar as orientações deixadas por um dos maiores gênios do piano.
Nos últimos dois anos, Pedro Henrique venceu os principais prêmios de piano de sua idade no Brasil, caso do Souza Lima (São Paulo), Concurso de Piano Casa da Música (Porto Alegre), Concurso de Piano Professora Edna Bassetti Habith (Curitiba) e Cora Pavan (Uberlândia). Em todos eles, Pedro esteve dentre os primeiros colocados. Ganhou premiações em dinheiro, certificados e um piano.
O que Pedro mais gosta de fazer é música. Até mesmo na igreja ele procura desenvolver o talento. Integrante da Assembleia de Deus, ele também se apresenta com a orquestra da igreja, muitas vezes tocando o instrumento do pai, um trompete.
O premiado pianista Arnaldo Cohen, que esteve em Goiânia no ano passado para se apresentar com a Orquestra Filarmônica, conheceu Pedro. O garoto foi repórter por um dia na TV Anhanguera e conseguiu uma entrevista exclusiva com uma das lendas do piano brasileiro.
O pianista de 11 anos apresentou os bastidores do concerto e entrevistou o músico erudito, que encontrou similaridades com Pedro: ainda criança, Arnaldo começou a tocar. Mas estava sempre com muita vontade de matar algumas aulas de piano para jogar futebol. Pedro também é uma criança que não nega sua origem: não perde a oportunidade de entrar em campo, mas sabe que a música exige uma dedicação praticamente irrestrita.
O amor pelo Vila Nova e as teclas do piano não se comparam, mas quando se aproxima um concurso, a obstinação fala mais alto. O próprio Cohen dá a dica: precisou reduzir o ritmo das brincadeiras para tornar-se um pianista do primeiro time.
MICROFONE
Esta aproximação de Pedro e Cohen rende mais do que uma cobertura de bastidores. No final da reportagem, Arnaldo tomou o microfone de Pedro e começpi a entrevistá-lo. Ele termina com um beijo na cabeça do goiano, que tem enfrentado músicas complexas nos últimos meses, como a ‘Gigue’, de J. S Bach.
Villa Lobos e Haydn são outros compositores que figuram na lista de executados pelo garoto, que trilha caminho parecido também com o do pianista Nelson Freire – outro brasileiro do mesmo nível de Cohen que é festejado no exterior.
Uma das maiores sensações do piano mundial, Freire começou a tocar com três anos. Aos 5 anos, Nelson tocou a Sonata em lá maior de Mozart (K. 331), demonstrando que uma criança tinha amadurecimento suficiente para surpreender as bancas examinadoras.
Apesar de destaque,grupo de Pedro vive sem apoio público

Os melhores pianistas do país na faixa de 8 a 15 anos estão em Goiás. O Lílian Centro de Música forma vários deles. Mas existe pouca vontade pública em fazer de Goiás um estado com visibilidade na música clássica.
As políticas públicas massificadas não abrem espaço para os talentos precoces como Pedro Henrique. O artista foi para os Estados Unidos, como outros, com recursos próprios da escola de música e da família. As universidades americanas se interessaram pela capacidade cognitiva da criança e acreditavam que existisse no Estado uma política cultural de investimentos em jovens como ele. Mas em Goiás praticamente nada acontece. Raríssimas vezes o poder público procura quem tem talento. Ao contrário, espera que eles cheguem rastejando em busca de apoio.
As secretarias de cultura e de educação preferem ignorar talentos como Pedro para privilegiar ações medíocres na maioria das vezes, que não representam Goiás nem valorizam a cultura erudita do Estado. Com isso o estado perde a chance de ter novas maestrinas como Belkiss Spenciere Mendonça – uma das introdutoras da música clássica em Goiás e considerada uma das maiores pianistas brasileiras, além de inspiradora dos estudos de Pedro e de outros seguidores.
Família auxilia na formação de talentos

A construção de um pianista exige o talento da criança e a obstinação dela própria em aprender. Mas existe um trabalho por trás que envolve a família e professores. Tanto pai quanto mãe de Pedro participam ativamente da vida da criança, acompanhando seus estudos. É perceptível a diferença quando o músico tem este suporte.
“O Pedro é muito dedicado. É criança, joga bola, brinca como qualquer outra. Mas guarda um tempo especial para o estudo. Aqui e em casa ele se dedica”, diz o pai Osenildo, quando buscava a criança em mais um dia de aula.
Para a criança não saturar com escalas, arpejos, passagens complexas, existe uma metodologia diferente. A professora de Pedro Henrique ultrapassa os limites da aula de piano e introduz novos conhecimentos e brincadeiras.
Por isso ele procura desenvolver um conhecimento além da música, conforme a orientação de sua pedagoga.
Ele se integra em um grupo especial, onde todos se desenvolvem e apresentam particularidades, como vitórias em concursos e apresentações internacionais.
Dentro do próprio grupo de Pedro existe uma grande concorrência entre jovens pianistas. Não raro ele precisa disputar o primeiro lugar com os colegas da turma. E perde. E quando perde volta para casa com a tarefa de se superar. E depois, se possível, superar os demais amigos. E assim ele cresce em todos os sentidos, se despertando também para uma ética de vida.
Talvez o modelo pedagógico seja um dos fatores determinantes para o sucesso da criança. Recentemente, um ex-aluno de Lilian Mendonça tornou-se doutor em música em uma prestigiada universidade americana. E com apenas 25 anos. Como Diego Caetano, que já se apresentou no Carneggie Hall, em Nova Iorque, outros trilharam o caminho internacional.
Diego, diga-se de passagem, tem levado as crianças e convidado Lilian para concertos e master class nos Estados Unidos e Ásia. Alunos como Pedro, Aline Santos, Julia Marie, dentre outros, participaram de atividades nos últimos anos em países como EUA, Cingapura e Tailândia.