Neruda atravessou os Andes de moto fugindo da ditadura
Redação DM
Publicado em 11 de julho de 2015 às 23:41 | Atualizado há 1 anoRariana Pinheiro,Da editoria DMRevista
Um chileno que encarou, com as lentes do lirismo e da bravura, os ásperos tempos marcados por ditaduras e guerras. Mas, ao mesmo tempo, um ser que deixava a poesia escorrer pelos caminhos inebriantes do amor e das sutilezas da vida. Eram estas características de Pablo Neruda, um dos mais expressivos poetas do século XX.
Ele viveu 69 anos intensos. Como poeta, chegou ao importante Prêmio Nobel em Literatura, em 1971. E por meio da profissão de cônsul viajou, decifrou e deixou-se envolver com boa parte do mundo. Já a vida de militante do Partido Comunista do Chile o levou à carreira de senador e, tal engajamento político, lhe rendeu até uma fuga cinematográfica a cavalo, rumo ao lado argentino da Cordilheira do Andes.
Sua morte, oficialmente declarada como câncer de próstata, até hoje é vista por alguns como assassinato. E razões para acreditar nisso não faltam: ele morreu 12 dias após do golpe militar liderado por Augusto Pinochet derrubar o governo democraticamente eleito do presidente Salvador Allende, que, por sinal, era muito amigo de Neruda.
Pelo que acreditava brigou tanto, que sua história não apenas renderia um filme – como vários. E esta narrativa com fartas doses de aventura, acontecimentos emblemáticos e, claro, muito romance, começou no dia 12 de julho de 1904, na pequena cidade chilena Parral. A mãe de Neruda morreu quando ele tinha apenas um mês, portanto, o menino foi criado pelo o pai, um maquinista de trem e sua amorosa madrasta Trinidad Candia Marverde.
A intimidade de Neruda com a poesia se mostrou cedo. Antes dos 15 anos, suas obras já eram publicadas em jornais de Temuco, ainda com o seu real nome: Neftali Ricardo Reys Basoalto. Contudo, não demorou até que Pablo Nerudaassumisse seu corpo de tal maneira, que mais tarde até se tornaria o nome oficial. Mas o pseudônimo, no começo, tinha um caráter até prático e funcionava como uma espécie de disfarce para o pai, que, conforme o autor contou em na autobiografia, Confesso que Vivi, perseguia “denodadamente” sua atividade literária.
Mesmo escolhido quase por acaso, o sobrenome “Neruda” acabou por fazer uma acertada previsão sobre o futuro do ainda jovem criador. “Encontrei numa revista esse nome tcheco, sem saber sequer que se tratava de um escritor, venerado por todo um povo, autor de belíssimas baladas e romances e com monumento erigido no Bairro Mala Strana de Praga”, revelou o poeta também Confesso que Vivi, sobre Jan Neruda, inspirador e dono real do sobrenome.
Nos anos de 1920, sua vida literária despontou. Nesta época em que ele se mudou para Santiago (Capital do Chile), estudava Pedagogia em francês na Universidade do Chile e já tinha ganhado vários prêmios de poesia. Foi ainda neste cenário que ele publicou o primeiro livro da carreira, Crespusculário.
Amor, amor e amor
Porém, foi a próxima publicação, lançada em 1924, que o poeta foi inspirado pelas febris paixões da juventude, criou uma de suas obras mais aclamadas: Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada. Neste livro, aos 20 anos, Neruda destrincha o amor, mas sob uma linguagem bem ousada para literatura da época e que abusava de metáforas surrealistas.
E o amor era mesmo fator determinante, não apenas na vida, como na obra do artista. Até dizia que: “Um poeta deve estar sempre apaixonado, até o último minuto de sua vida”. E foi assim, que ele viveu. Rodeado de poesia e de paixões – até o derradeiro respiro.
Mesmo considerado pouco atraente – talvez, pela timidez –, Neruda se casou três vezes e teve pelo menos seis amantes. Os romances ele eternizava na poesia. O livro Os Versos do Capitão, por exemplo, que se tornou uma das obras mais importantes sobre o amor, ele fez inspirado pela até então amante, a cantora Matilde Urrutia (que se tornou sua terceira e última esposa).
Militância
Mas, definitivamente, Neruda não era um homem de um tema só. E o que ainda não se pode deixar de falar quando se relembra a vida desta figura é o engajamento político, o que, claramente, influenciou seus escritos.
E a sua entrada no comunismo coincidiu com dois acontecimentos históricos marcantes. O primeiro foi a chegada à Espanha, para exercer a função de cônsul, bem no início da guerra civil. O segundo foi o assassino de seu amigo e também poeta García Lorca, pelos nacionalistas, seguidores de Francisco Franco. A partir deste acontecimento, Neruda começou a agir e arrecadou fundos para a causa dos republicanos, com intuito de livrar o país do regime franquista.
Logo, estes acontecimentos deram toque libertário também a sua poesia. Esta influência pode ser vista em obras, como: Residência na Terra (em três volumes,1931-1939), Ode a Stalingrado (1942), Terceira Residência (1947) e Canto Geral (1950).
Não demorou muito até que a transformação artística e pessoal atingisse a área profissional do escritor, que deixou a diplomacia para se atirar na política. No Chile, elegeu-se senador em 1945 e pelo Partido Comunista de seu país, chegou até a se candidatar à presidência da República em 1969.
E foi ainda mais tomado pelo engajamento político, que escreveu obras como: Odes Elementares (1954), Navegações e Retornos (1959), Canção de Gesta (1960), o ensaio Memorial da Ilha Negra (1964) e a peça teatral Esplendor e Morte de Joaquín Murieta (1967).

Fuga espetacular de Neruda é tema de novo filme
A vida Neruda repleta de lirismo e militância já serviu como inspiração a muitos filmes. O mais famoso, talvez seja O Carteiro e o Poeta (1994), longa baseado no livro II Postino de Antonio Skármeta e dirigido por Manuel Basoalto. Mas, se esta produção, que emociona pela amizade do poeta chileno – em pleno exílio político –, com um carteiro sem estudo, não existe muito comprometimento histórico, um novo filme sobre o autor de 20 Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada promete fazer isso.
Trata-se do longa chileno Neruda, que traz direção Manuel Basoalto e o ator José Secall no papel principal. A produção destaca o período, entre 1948 e 1949, em que o já consagrado poeta, no exercício de seu mandato de senador enfrenta uma perseguição política que o faz partir para o exílio em uma fuga espetacular: cruzou as cordilheiras do Chile a cavalo em direção à Argentina. Esta saga real é lembrada por Neruda em flashback, justamente no momento de seu emblemático discurso, ao receber o Prêmio Nobel de Literatura na Suécia, em dezembro de 1971.
Mas, paralelamente à fuga de Neruda, o longa ressalta sua produção poética no período e o reencontro com uma de suas fontes de inspiração: as paisagens naturais e humanas do Sul do Chile.
