Cultura

Ney Matogrosso se desnuda em disco ao reler músicas que marcaram a MPB

Marcus Vinícius Beck

Publicado em 29 de outubro de 2021 às 14:40 | Atualizado há 4 meses

Ney Matogrosso, 80, está nu – e com sua música. O
violão dedilha notas suaves num quarto de hotel em que logo mais sai o ônibus
pela estrada embaixo do céu. Como se fosse uma espiral de pensamentos sobre
você e eu, Ney constrói já na primeira faixa de “Nu com a Minha Música” um
repertório costurado por canções que lhe tocaram de imediato, seja aquelas
vindas da Era do Rádio ou composições criadas pela nova geração da MPB, fixando
um discurso com o qual desenhou sua carreira fonográfica.

O ponto que une todas essas músicas é a liberdade antes de tudo, não importa o tema, gênero ou quem a compôs. Por razões pandêmicas, foi um processo criativo diferente do que havia feito até então. Encontros com músicos, preparações presenciais ou qualquer tipo de aglomeração, imprescindível para a criação musical, estavam fora de cogitação. Não lhe sobraram alternativas, o disco precisou ser gestado de forma solitária, cada um em seu lugar, distantes uns dos outros, sinais dos novos tempos.

Desde
que despontara no cenário cultural brasileiro com interpretações transgressoras
de músicas como “O Vira” e “Patrão Nosso de Cada Dia”, lançadas no disco “Secos
& Molhados” (1973), Ney costuma esmurrar a caretice que insiste em reinar
nos costumes estúpidos de um país cego para o amor. Enclausurado, recluso e
trancafiado em casa, o ex-front man dos Secos & Molhados amarrou num nó
musical – de memória – novos significados para baladas como “Quase Um Segundo”,
nona faixa do LP “Bora-Bora” (1988), dos Paralamas do Sucesso, com uma guitarra
que uiva uma dor pra te prender.

É uma
interpretação bem cazuziana – o poeta exagerado a gravou no disco “Burguesia”
(1989), seu último, numa releitura bluseira, com arranjo de piano e, ao fundo,
dedilhado de guitarra. Ney Matogrosso vai pelo mesmo caminho: com harmonia
assinada por Ricardo Silveira, enaltece o tom soturno cuja alma harmônica evoca
o som ao qual seu amor, Cazuza, se debruçava desde os tempos em que comandava o
vocal do Barão Vermelho. De alguma maneira, é um tanto Janis Joplin, mas a
Janis de “Kozmic Blues”, distante daquela de “Piece Of My Heart”, portanto.

Se até
aqui “Nu com a Minha Música” apresenta memória individual, depois, com “Espumas
ao Vento”, a memória afetiva começava a rolar no disco. Ney escutou pela
primeira vez a composição, assinada por Accioly Neto, na versão famosa cantada
por Fagner, lançada em 1997 no disco “Terral”, e não demorou até sacar que
versos como “cabeça doida, coração na mão” se travam de um fenômeno, desses que
estouram nos quatro cantos do Brasil, como todo bom hino romântico deve ser.

A
beleza por atrás de “Espumas ao Vento”, de fato, fica sob responsabilidade da
voz aveludada de Ney, mas também deve ser creditada à conta do piano ressoante
de Braga, que também agracia os ouvidos do público em “Noturno”. Solitária e de
cada hora despida, é um cantiga de nudez e passagem, visagem e amor, como se na
versão gravada em 2004 no álbum “Longes” o encontro sexual-amoroso estivesse
apenas insinuado. “A minha boca era tua/ a tua boca era minha”, diz, quase
sussurrando.

Com
pedais de distorção wah-wah, num ritmo de carnaval que desfila em meu umbigo, “Ramil”
aborda a sexualidade a partir de temperos líricos construídos em imagens e
palavras. Jade Baraldo e Pedro Luís descreveram, em minucias, o lesco-lesco em
tempo real. Chegado a sexo, Ney Matogrosso soube canalizar esse sentimento com
requintes que se não beiram à maestria, chegam bem próximos dela: “não quero
saber de hora/ tá rolando, tá agora/ te devoro, me devora/ Amanhã, vê no que
deu.”

Gravada
por Pedro, Jade e Batman Zavareze em 2019, os três minutos e vinte e oito
segundos de “Ramil” antecedem uma obra-prima escrita por Itamar Assunção e
Alice Ruiz, companheira por anos do poeta Paulo Leminski: “Sei dos Caminhos”
estava guardada na gaveta de Ney desde a década de 1990, aguardando ser gravada.
Pois esse dia chegou, gracías! Na versão do cantor de “Sangue Latino”, há um
arrojado arranjo de Marcello Gonçalves em que o universo de Itamar é citado
numa costura elegante entre as frases do clarinete soprado por Anat Cohen, com
palmas marcando o tempo.

Também das mãos de Gonçalves e do sopro de Cohen, sai um clássico de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, dupla que enfileirou canções imprimidas nas paredes da memória coletiva brasileira. “Sua Estupidez” é uma dessas. Desabafo para ser recitado ao pé do ouvido deitado na cama, o clima recriado por Ney escapa da conotação de romance que acaba, deixando dores e uma ferida aberta no peito: é a marca registrada das versões de Gal Costa, Roberto e Ná Ozzetti. Não, porém, a de Ney Matogrosso.

Nem só
de ‘velharias’, há que se registrar, vive “Nu com Minha Música”. Em 2019, PC
Silva e Martins lançaram “Estranha Toada”, faixa que abre o disco de estreia do
cantor e compositor pernambucano Martins. A música foi ouvida por Ney numa
festa na casa do empresário Zé Maurício Machiline, e de lá o artista saiu com
uma necessidade: é preciso gravar essa intensidade, esse arranjo épico, esse
ornamento de metais e cordas. “Boca” também vai nessa esteira, ao ser lançado
no ano passado por Rafael Rocha, com uma mudança aqui e ali numa frase e outra,
a pedido do próprio Ney Matogrosso.

Para
fechar o disco, três petardos da MPB. O primeiro deles, “Se Não For, Eu Cegue”,
de Lenine, ficou guardada no baú, mas o título meio esquisitão, do tipo que se
bate o olho e pensa ‘é isso mesmo?’, chamou atenção. Liminha, figura
ex-baixista dos Mutantes, executa um groove charmoso. Em “Gita”, clássico de
Paulo Coelho e Raul Seixas, o clima épico da gravação original foi mantido, mas
com um refinado arranjo de sopros e cordas. Enfim, a canção-título: “Nu com
Minha Música”. Letra que remete às estradas do interior de São Paulo, Ney
evocou nela, a exemplo de “Quase um Segundo”, a memória afetiva, pois conhece
aqueles caminhos citados nos versos.

Ao
terminar a audição de “Nu com a Minha Música”, o ouvinte fica com a impressão
de que Ney Matogrosso conseguiu fornecer a trilha sonora para o mundo depois
que o pesadelo da pandemia se acabar. E, claro, isso é o que mais se espera nos
carnavais, nos flertes, no sexo. Se as oito décadas de vida do artista foram
comemoradas com “Ney Matogrosso – A Biografia”, do jornalista Julio Maria, é
possível dizer que há uma segunda dose de festa. Se eu estou a fim? Ora, a
noite nunca tem fim.

‘Nu com Minha Música’

Artista: Ney Matogrosso

Gênero: MPB

Gravadora: Sony

Disponível nas plataformas de streaming


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