Desativada 2

O dia do início do fim

Redação DM

Publicado em 26 de abril de 2016 às 01:33 | Atualizado há 1 ano

“Muitos deles ou quase a maior parte dos que andavam ali traziam aqueles bicos de osso nos beiços. E alguns, que andavam sem eles, tinham os beiços furados e nos buracos uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha; outros traziam três daqueles bicos, a saber, um no meio e os dois nos cabos. Aí andavam outros, quartejados de cores, a saber, metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, a modos de azulada; e outros quartejados de escaques. Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha. Ali por então não houve mais fala ou entendimento com eles, por a barbaria deles ser tamanha, que se não entendia nem ouvia ninguém.”

Trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha, de 1º de maio de 1500

Não sei exatamente se temos motivos para comemorar o “favor” que os portugueses e os jesuítas fizeram nos “colonizando”. Uma história contada, muito mal contada, diga-se de passagem, apenas pela ótica dos “salvadores” dos povos indígenas “selvagens” que aqui viviam, sem dar vez nem voz aos verdadeiros donos da terra. Uma colonização marcada por sangrentas lutas de resistência indígena, por imposição à uma religião relativamente nova em comparação com as cultuadas a milênios (os índios habitavam a região amazônica há pelo menos 10 mil anos) pelos nativos, por terror psicológico e esgotamento físico causado pelo trabalho forçado ao qual os nativos eram obrigados a desenvolver.

O Brasil era o sanatório de Portugal. Era para cá que enviavam os doentes, os criminosos, e os miseráveis. Vieram nos navios portugueses as doenças e as pragas (baratas e alguns tipos de mosquito), os Jesuítas, com sua missão cristianizadora, que considerava pagã a forma de fé e temor que os índios tinham com seus deuses, impondo um único deus e tentando convencê-los que as atrocidades cometidas contra eles eram em nome de um tal Cristo salvador. E sabemos bem que os índios pagam até os dias de hoje pela incoerência do tal homem branco. Como se lê na carta de Pero Vaz, desde os primórdios, os nativos eram tratados como bárbaros, e não há nenhum registro sequer das versões destes à invasão em suas terras. Eles nunca contaram seu lado da história, foram denominados índios, sem ao menos saber a origem do termo, foram cristianizados, escravizados, saqueados e sucateados.

Mas não acaba por aí. Estes tais colonizadores e a Coroa Real Portuguesa, percebendo que a terra brasilis era muito mais que uma selva, povoada por selvagens, sabido que aqui haviam riquezas minerais e naturais as quais a Coroa e o comércio europeu tinha interesse, estabeleceram aqui sede do Governo de Portugual. Uma parte dessa história que não mencionam nas salas de aula, ou por desconhecimento, ou por mania de romantizar esta catástrofe, é que o reinado português desaguou por aqui, fugindo das tropas de Napoleão. Covardes, abandonaram a população portuguesa à própria sorte, e aqui se estabeleceram, depenando esta terra.

Chegavam ao Brasil, navios negreiros, barrotados de homens e mulheres, capturados em países africanos, para serem comercializados como gado e vendidos para o trabalho forçado nas lavouras e minas. Dos portos baianos eram distribuídos entre os “senhores” da porção setentrional do país, do Rio de Janeiro eram levados para o restante do território. Aqui, na antiga Província de Goiás, o Anhanguera, ou Diabo Velho, junto com seus bandeirantes, veio castigando mais uma vez, os verdadeiros donos da terra. As aldeias indígenas eram saqueadas, os alimentos e as mulheres eram roubadas. Bartolomeu Bueno, com toda sua idade e experiência, esqueceu-se de orientar seus homens a subir o continente munidos do mínimo para a sobrevivência. Centenas de bandeirantes morreram, antes mesmo de chegar a algum lugar.

Os escravos, trazidos pelos bandeirantes para extrair ouro na Província de Goiás, no Arraial de Traíras, Santana, Vila Boa, eram mal alimentados, adoeciam e morriam, sem receber os mínimos cuidados. Uma das províncias mais ricas em ouro, como a de Goiás, é também descrita por muitos escritores como pobre, precária, abandonada. A Província de Goiás era a minimização do reflexo da situação nacional: um celeiro de extração de riquezas, nada mais. Nenhum retorno, nenhum benefício, nenhuma melhoria. Descobriram o Brasil para deixá-lo nu, mataram os índios, levaram o ouro, desmataram as florestas. Dia 19 de abril foi Dia do Índio, você conhece algum para dar-lhe os parabéns?

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia