O Rolê
Redação DM
Publicado em 13 de agosto de 2016 às 02:34 | Atualizado há 1 anoO evento reúne hip hop, samba, rock e rap, além de grafite, moda e gastronomia. Criolo e Seu Jorge são as principais atrações musicais. O DMRevista entrevistou o rapper Criolo
Do hip-hop engajado e poético do paulista Criolo ao samba-rock swingado e romântico do carioca Seu Jorge. São estas algumas das misturas que poderão ser curtidas na primeira edição do festival O Rolê. A festa acontece hoje e amanhã, no Centro Cultural Oscar Niemeyer (CCON), sempre a partir das 14 horas.
Na line-up de hoje, além de Criolo estão ainda o rapper Rael, o grupo de rap 3030 e os pagodeiros do Chama Q Noix. Amanhã, antes de Seu Jorge entrar no palco, o reggae da Cidade Verde e o rap tradicional da RZO – de Negra Li – também prometem agitar o ambiente. Djs também vão entrar em cena, após os shows.
De casa
No último dia do evento, os goianos também terão vez, com o show da banda Entre Para Brisa, trazendo um som que mistura reggae, rock e, claro, rap. E para fortalecer a cena do hip hop local, o festival terá ainda o Palco Casa de Música, cujas atrações são o grupo Faroeste e o rapper e MC Gasper.
Artes integradas
Além de música, os idealizadores da festa, Felipe Câmara e Paulo Victor Leão, da Box Dream – responsável por outros eventos famosos em Goiânia, como a Festa 800 – fizeram questão de fazer um festival com música, arte e moda.
Dessa forma, neste rolê, moda, gastronomia e arte não irão ficar de fora. No CCON terá o Beco Gastronômico (espaço com vários foods trucks) e um ambiente chamado Street Style, que terá a presença de várias marcas de roupas goianas. As cores também vão dar as caras, com o Grito de Expressão, uma área destinada ao graffiti.

ENTREVISTA CRIOLO
Sugestão de janela: “Nós, por aqui, vamos cada um tentando minimizar os estragos feitos pelo egoísmo de poucos, estes poucos que têm o poder nas mãos para melhorar tudo ou para destruir tudo”. Criolo.
Quem conhece a obra de Criolo sabe: ele é engajado. Nascido em família pobre, em Grajaú, distrito de São Paulo, sua vida foi dura. Assim, suas canções possuem toda marra e indignação de quem criou a Rinha de Rap. O papo com ele é reto. Canta o que vê, o que pensa e sente. Mas, é claro, que por trás de suas letras combativas vive um poeta, que faz rimas e ainda sonha. Mostrando tudo isso, o artista se apresenta hoje com a turnê comemorativa dos 10 anos de um álbum emblemático para a história do rap nacional: Ainda Há Tempo.
Sobre a obra lançada em 2006, o artista contou em entrevista ao Diário da Manhã que, apesar de tudo, o nome do disco ainda faz muito sentido para ele. “Não podemos perder a fé em nossa espécie humana”, argumentou, em tom que soou como um pedido. Criolo, que saiu da cena rap de São Paulo para o mundo após o lançamento de Nó na Orelha, hoje é um nome conhecido e respeitado na música internacional.
Para se ter uma ideia, uma das canções do disco, a Não Existe Amor em SP, já foi elogiada por Chico Buarque e cantada por Caetano Veloso. E mantendo toda sua postura de rapper, participou de um projeto que homenageou Tim Maia, de uma grande empresa de cosméticos, ao lado da estrela Ivete Sangalo. Mas, apesar das conquistas no mundo mainstream, Criolo diz nem acreditar muito na fama. E, sobre sucesso, momento do Brasil, música, e outros assuntos, conversamos com o artista. Confira o bate-papo a seguir.
DMRevista: Você tem cantado bastante em variados festivais de Goiânia. Como é participar de mais um e o que tem te chamado a atenção nestes grandes eventos daqui?
Criolo: É sempre uma felicidade grande poder cantar, subir ao palco e o Brasil é tão lindo, plural, gigante. Cantar em Goiânia é sempre um orgulho e felicidade, festivais são interessante por reunirem vários tipos de sons e histórias. E como é bom ver tantas pessoas reunidas com música, pode nascer uma boa amizade, conhecer artistas e sons que ainda não conhecia. Isso é muito positivo.
DMRevista: Depois de 10 anos do lançamento de “Ainda Há Tempo”, o título do álbum continua fazendo sentido para você? Continua esperançoso?
Criolo: Faz sim muito sentido, e eu continuo esperançoso, não podemos perder a fé em nossa espécie humana. Não podemos nos distanciar de tantas coisas positivas que somos capazes de gerar e dividir com o mundo.
DMRevista: O que mais te motivou a fazer esta turnê comemorativa? Há uma necessidade em cantar, neste atual momento, novamente estas letras?
Criolo: O que mais motivou é difícil falar, mas é o primeiro álbum e foi construído com muito esforço e descreve um tanto de sentimentos. Acho que isso e mais um monte de coisas fizeram esse novo momento surgir.
DMRevista: Na época do lançamento de “Ainda Há Tempo”, você atendia pelo nome de Criolo Doido e, “Nó Na Orelha”, ainda não tinha te revelado para o mundo. Além do nome e da fama, o que mais mudou naquele rapper de dez anos atrás?
Criolo: Na verdade, a fama é algo que não faz muito sentido. Acredito que as histórias ao redor do trabalho e da vida num todo vão seguindo como sempre. Procurando ouvir o coração e tentando da melhor forma possível decifrar essas mensagens.
DMRevista: E no cenário do rap? Que mudanças percebe nestes 10 anos?
Criolo: Percebo muito mais pessoas ouvindo, curtindo e construindo. E sendo assim, surgem novos olhares, sons e criações. O percebo cada vez mais plural.
DMRevista: Ano passado você fez shows pelo Brasil cantando músicas de Tim Maia, ao lado Ivete Sangalo. O que foi mais legal ao participar de um projeto grandioso como este?
Criolo: Cantar Tim Maia foi uma grande honra pra mim e pra minha família. Cantar ao lado de uma profissional monstro trouxe ensinamentos, e viver o dia a dia da musicalidade dos artistas que compuseram aquela big band foi espetacular demais. Todos os músicos e cantores me ensinaram muitas coisas. Sou muito grato a cada um.
DMRevista: A participação neste projeto (que foi produzido pela Natura) lhe rendeu críticas de seus fãs mais antigos por estar em um ambiente mainstream? Se sim, como lidou com isso?
Criolo: É natural a curiosidade antes da tour em homenagem ao Tim Maia ir pra rua. Mas nós que viemos do hip-hop e Tim Maia é o mestre dos mestres, então tudo foi muito celebrado: a banda, as danças e os ritmos. Tudo isso que o hip-hop tanto valoriza.
DMRevista: Dentro deste conturbado cenário político, de impeachment, denúncias, polarização e agressões, as pessoas cobraram muito seu posicionamento? Como se expressou?
Criolo: Escrevo e canto meus sentimentos há 28 anos e o rap sempre ofereceu seu olhar sobre diversas questões, independe de algo pontual, pois o que pra alguns é apenas um momento, pra quem sofre é uma eternidade. As letras já descrevem um tanto desse olhar, então, antes mesmo da necessidade de alguns em cobrar. Cobrar é uma palavra forte, parece que se está em falta com algo, podemos trocar por convidar, convidar a dividir, convidar a compartilhar, fortalecer. Mesmo que isso já esteja sendo feito há quase 30 anos e não tenham percebido, hip-hop é isso e o rap só vem pra somar.
DMRevista: Como o rapper engajado que sempre foi, o que acha que seria preciso, acima de tudo, para que o Brasil encontrasse o eixo?
Criolo: Nosso povo já dá esta resposta todos os dias, desde sempre. Com a construção de amor em família, com trabalho honesto, com solidariedade criatividade e tantas outras coisas positivas. A pergunta pode se dirigir a quem manda no país, pois são bem alimentados, estudaram em boas escola, são inteligentes e têm o poder nas mãos. Nós, por aqui, vamos cada um tentando minimizar os estragos feitos pelo egoísmo de poucos, estes poucos que têm o poder nas mãos para melhorar tudo ou para destruir tudo.
DMRevista: Depois desta turnê comemorativa, que outros projetos tem em vista?
Criolo: Enquanto Deus me permitir, cantar.
Festival O Rolê
Quando: Hoje e amanhã, a partir das 16h
Onde: Centro Cultural Oscar Niemeyer (Av. Dep. Jamel Cecílio, 4490 – Setor Fazenda Gameleira)
Hoje
Criolo, Rael, 3030, Chama Q Noix
Amanhã
Seu Jorge, RZO, Entre Para Brisa

