Desativada 2

O “segundo violino”, que nascia há 195 anos  

Redação DM

Publicado em 27 de novembro de 2015 às 23:47 | Atualizado há 1 ano

por Ian Caetano   (Ian Caetano é ex-preso e ainda vai escrever um livro)

Caro Fred,

Acabei de corrigir a última folha do livro. Assim, este volume está pronto. Apenas a ti devo agradecer que isso tenha sido possível! Sem teu sacrifício por mim, eu jamais teria conseguido realizar o gigantesco trabalho desses três volumes. Abraço-te, cheio de agradecimentos! As 15 libras, que me enviara, foram recebidas com a máxima gratidão.

Salut, meu caro, precioso amigo!

Teu K. Marx”

       A carta acima foi escrita por Marx às duas da manhã do dia 16 de agosto de 1867; logo após de terminar sua mais monumental obra:O Capital.Mas é do homem a quem ele escreve que falaremos hoje, falaremos de Friedrich Engels.

        Em 28 do Novembro de 1820 (dois anos depois do nascimento de seu célebre parceiro) nascia, na cidade germânica de Barmen, o primeiro dos oitos filhos de Friedrich Engels e de Elizabeth Franziska Mauritia van Haar. O menino levaria o nome do pai – chamando-se também Friedrich Engels – e este nome seria eternizado na história, não por algum feito do pai, mas por vários do filho.

        Engels, o filho (e a partir de agora referir-nos-emos apenas a ele, para que se evite confusão), era de família abastada. Seu pai era um bem-sucedido industrial do ramo da tecelagem, o que proveu ao filho não só ampla condição de vida e estudo, mas também um contato bastante próximo com a situação geral dos trabalhadores da época. Engels era ávido leitor e, na juventude, arriscava-se a alguns poemas e também treinava ocasionalmente a arte do desenho. Queria ter ido à faculdade, fascinado principalmente pela filosofia idealista alemã, mas o pai queria educá-lo nos negócios. Aos dezassete anos seu pai o força a abandonar o colégio para se dedicar aos negócios da família. E entre esta idade e os vinte-e-um anos Engels estuda comércio e, por conta própria, também filosofia, direito, matemática e outros temas de seu interesse. Durante este período, não podendo, por pressão do pai, ingressar na faculdade, assiste a diversas aulas como aluno ouvinte na Universidade de Berlin (tendo sido, inclusive, colega de classe de Bakunin – o famigerado anarquista – em algumas aulas, este também pegando matérias como aluno ouvinte).

        Em setembro de 1842 Engels termina seu serviço militar obrigatório e, nos fins de Novembro, vai para a Inglaterra estabelecer-se em Manchester onde, sob interesse do pai, deve gerenciar os negócios da firma da família lá. E este é certamente um dos mais produtivos períodos de vida de Engels. Já na juventude, pelo que seus poemas e cartas demonstram, Engels ficara profundamente impressionado com a condição dos trabalhadores nas fábricas de sua família e, por extensão, nas fábricas em geral; quando chega em Manchester, gerenciando os negócios do pai, passa a conviver junto aos trabalhadores, almoçando junto a estes nos refeitórios e tentando compreender sua condição, seus interesses e suas perspectivas. Conhece, assim, Mary Burns, uma operária irlandesa com quem casará e com quem ficará (apesar de alguns relacionamentos extraconjugais) até o fim da vida dela, que morrerá antes dele.        

Mary Burns teve um papel fundamental no progresso intelectual de Engels. Em uma época em que ainda não haviam mínimas condições regulamentadas de qualidade de trabalho e de carga horária, os trabalhadores eram altamente hostis aos membros das “classes mais elevadas” e permaneciam permanentemente bêbados em seus escassos momentos de ócio. Engels, que era sujeito muito bem vestido e muito bem cuidado, jamais teria conseguido adentrar os bairros fabris e poder, pois, estudar a situação dos trabalhadores não fosse sua relação com Mary Burns.

        Destas diversas observações e anotações coletadas ao longo deste tempo, aos 25 anos de idade Engels publica o livro hoje considerado obra fundadora da sociologia do trabalho, chamada A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra. Obra basilar até hoje lida e estimada em diversos cursos de graduação.

Foi mais ou menos um ano antes que encontrou e começou sua relação com Karl Marx, de quem seria amigo e parceiro intelectual até o fim da vida de Marx e, depois, legítimo testamentário de seu legado intelectual. Se é verdade que na composição intelectual enquanto tal a pena de Marx é mais destacada que a de Engels, menosprezar a contribuição de Engels no conjunto da obra e na sua factibilidade concreta é não entender esta mesma obra.

“Eu sempre sigo seus passos”, escreveu Marx em uma carta a Engels, e a averiguação dos fatos nos mostra que, se o primeiro enxergava mais longe, o fazia, por várias vezes, usando os vincos das trilhas deixadas pelo último. Foi Engels o primeiro a pensar em uma Crítica da Economia Política, que, lida por Marx, levou este a perceber a importância desta abordagem, o que o levou, anos mais tarde, à redação d’O Capital. Foi também Engels o primeiro a aderir ao comunismo e aos círculos de trabalhadores organizados. Marx olhava-os com certa descrença, cético de que poderiam estes operários e operárias fazerem a famigerada “transformação social”. E foi seguindo Engels que aderiu à Liga dos Justos, e foi baseando-se em alguns documentos desta organização e nos Princípios do Comunismo, também de Engels, é que ambos redigiram o Manifesto do Partido Comunista, que refundaria a Liga dos Justos, agora renomeada Liga dos Comunistas.

Marx era certamente o intelectual de fôlego, mas Engels, se não se equiparava, certamente não ficava distante em seus méritos. Pensava sistematicamente as condições objetivas imediatas dos trabalhadores e das trabalhadoras, com obras posteriores como Sobre a Questão da Moradia onde analisa a dinâmica da distribuição fundiária no capitalismo, ou ainda com seus artigos Sobre as Questões da Rússia, onde avalia os processos de luta do campesinato na batalha contra a miséria sob o regime tzarista.

Há um discurso que corre em diversas correntes que tenta desmerecer Marx e Engels como “teóricos da revolução” que nunca “estiveram nas trincheiras” ou nas “lutas concretas”. Nada poderia ser mais inverossímil. Durante a revolução alemã de 1848 Marx atuara sistematicamente como jornalista cobrindo os acontecimento e Engels, valendo-se de seu conhecimento adquirido no serviço militar, organizava diversas milícias de trabalhadores no processo de lutas, além da participação de ambos na fundação e no decorrer da Associação Internacional dos Trabalhadores.

Engels, ele próprio, referiu-se a si como o “segundo violino” na relação intelectual que tinha com Marx. Talvez estivesse certo, mas todos aqueles dotados de ouvido musical sabem que sem o segundo violino o arranjo fica carente de elementos fundamentais, e que, portanto, ele é não só importante, mas necessário.Durante a redação d’O Capital, Marx passava por extrema penúria financeira, que era amenizada pelo envio de auxílios feitos por Engels. Quando Marx termina a redação do primeiro volume desta obra, Engels vende a fábrica de seus pais e abandona esta ocupação, podendo agora dedicar-se explicita e unicamente às atividades que lhe apeteciam.

Um pouco antes da morte de Marx, Engels publica A revolução da ciência segundo o senhor Eugen Dühring, mais conhecida como Anti-Dühring. Este controverso livro é tido por alguns como, depois d’O Manifesto Comunista, a principal obra de sistematização e apresentação do marxismo.Quando Marx morre em 1883 sobra a Engels a obrigação de cuidar do monumental espólio intelectual constituído até ali. Coube a ele revisar, organizar e completar os manuscritos incompletos de Marx, que se tornaram mais tarde os volumes II e III d’O Capital. Coube a ele também diversas novas introduções às obras de Marx que acabaram, ocasionalmente, ganhando novas edições. Em suma, coube a ele ofuscar-se em prol da obra geral.

Ainda no ano da morte de Marx, Engels publica seu clássico antropológico A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, e em parceria com um pupilo seu, Karl Kautsky, publica O Socialismo Jurídico, uma réplica a certas críticas que a teoria marxista sofria logo após a morte de Marx.Engels morreu em 1895, doze anos depois de seu parceiro. Teve suas cinzas jogadas ao mar, para ganhar a história em sua obra.

Engels tem um papel senão ingrato, desconfortável na história. Uns o veem apenas no encalço de Marx, outros o renegam, dizendo que seus textos geraram distorções que empobreceram ou mesmo equivocaram o marxismo. Mas, para criticá-lo ou enaltecê-lo, poucos se esquecem, como nos falou Florestan Fernandes, um importante intelectual brasileiro, de ver que “Engels era um intelectual de luz própria”. Não é possível entender Marx sem as contribuições e os passos de Engels, que Marx admitira seguir; e não é possível entender o pensamento marxista sem a figura deste que, prática e intelectualmente, para o erro e para o acerto, esteve tão presente nas lutas e nos debates de seu tempo e permanece tão presente no pensamento crítico contemporâneo.


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