Organizando para desneuralizar
Redação DM
Publicado em 20 de agosto de 2016 às 00:29 | Atualizado há 1 anoO filme Operação 2,80: e a revolta popular só aumenta, produzido pelo coletivo goiano de mídia independente Desneuralizador, será exibido no Cinemão, na cidade de Goiás, hoje (20/08), na sessão das 9 horas, participando da Mostra UEG/Fica do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA2016).
O documentário narra parte da história das manifestações por transporte coletivo e a operação da polícia civil que culminou em umas das primeiras prisões políticas após a ditadura militar em Goiás, que aconteceram no ano de 2014 e acabaram não sendo as últimas no Estado.
O ano de 2014 foi um momento histórico na luta pelo transporte coletivo em Goiás. Quatro militantes foram presos em uma operação da polícia civil nomeada como “Operação 2,80”, nome relativo ao preço da passagem na época. As prisões de Heitor Vilela, Ian Caetano, Tiago Madureira e João Marcos mobilizaram todos os setores progressistas do estado na luta contra a criminalização dos movimentos sociais figuradas nessas prisões.
Para não deixar que esse momento de dura repressão seja esquecido, Gabriel Cunha e Lucas Xavier, do “Desneuralizador”, construíram com entrevistas e registros das manifestações de 2013 e 2014 o documentário “Operação 2,80”.
Registros horizontais
Lucas Xavier começa dizendo sobre este momento marcante da história política goiana recente. “A Operação 2,80 sempre ficará marcada na história de Goiânia, sobretudo na luta contra o aumento da tarifa. Esse processo serviu para escancarar como nós não ainda saímos, de fato, de um tempo histórico não tão remoto assim. A criação de um inquérito fantasma, uma operação absurda e uma prisão sem legitimidade, por um lado demonstram o fracasso jurídico do processo, mas por outro acabam concretizando objetivo político, que foi de espalhar o medo e manter esses estudantes fora das ruas. Então, por isso tudo, nós, do Coletivo, entendemos a importância de não deixar que isso se apague.”
Gabriel fala de como surgiu a ideia e como foram feitos os registros do filme. “A ideia inicial era fazer um filme sobre os presos políticos de Goiás, nos últimos anos. Neste processo entramos em contato com a operação 2,80. Este caso foi muito emblemático, algo histórico. Não havia algum material de qualidade sobre o assunto, então decidimos que dava um filme. Começamos a gravar as entrevistas com os advogados que trabalharam no caso e com os indiciados em dezembro. As gravações das manifestações foram feitas na cobertura que o ‘Desneuralizador’ fazia na época.” Gabriel ainda diz que os vídeos do coletivo “Coma Livre” também foram usados na construção do filme.
Lucas conta quais são os objetivos políticos do filme, que mostra uma denúncia contra o autoritarismo do estado em defesa das empresas de transporte. “Queremos, com isso, reacender o debate sobre essa manobra, esclarecer para a população e pressionar pelo andamento do processo. Tanto pelo que aconteceu há dois anos quanto porque até hoje três jovem continuam com suas liberdades cerceadas.” Lucas se refere ao fato que os processos abertos com essa operação ainda correm e os indiciados seguem medidas restritivas estabelecidas em seu habeas corpus.
Você está sendo desneuralizado
Gabriel e Lucas contam sobre o surgimento do coletivo “Desneuralizador” e as tensões para capturar imagens das manifestações. “O Coletivo surgiu oficialmente no início de 2014. Nessa época a cidade estava passando por um momento de muita efervescência. A passagem estava aumentando e a qualidade do transporte regredindo, ônibus atrasando, em péssimas condições físicas e sempre lotados.”
“Então, justamente na época em que o Coletivo nasceu estavam eclodindo revoltas populares nos terminais da cidade quase diariamente. Nós estivemos presentes em algumas e é sempre aquela coisa, né. A população subverte a ordem, causa transtorno e prejuízo e logo vem a polícia para defender os interesses dos empresários. Então sempre rolava incursão nos terminais, tiros, bombas e agressões”, relata Lucas.

