Desativada 2

Os excessos das paixões

Redação DM

Publicado em 1 de setembro de 2016 às 02:25 | Atualizado há 10 anos

Um belo dia você acorda de manhã cantarolando canções nostálgicas, poesia musicada, lirismo e um tom romântico. Ao longo do seu dia seu coração dispara aleatoriamente, uma imagem especifica aparece em sua mente como mágica, então você se pergunta: o que há comigo? Ao longo dos tempos, muitas figuras conhecidas e seres anônimos foram acometidos pela ânsia e agonia da paixão. Para o filósofo grego Aristóteles (384–322 a. C.), todo excesso que cometemos é uma possível doença, muitas vezes proveniente de uma condição de cólera, que a virtude há no caminho do meio, nem na falta nem no excesso. A paixão como atribuição de um iminente excesso se caracterizaria como uma doença? Lembre-se, la no fundo da memória, algo de positivo que alguma paixão te proporcionou. Lembramos de imediato trágicos eventos em decorrência de uma condição passional.

Quem se lembra da vingança de Edmond Dantès, na bela história de Alexandre Dumas (O Conde de Monte Cristo). O personagem principal, Edmond Dantès, um jovem plebeu da França do século XIX que por mérito próprio consegue o cargo de primeiro imediato da nau chamada Faraó. Seu melhor amigo, Fernand Mondego, que por inveja o trai e o acusa de conspiração por entregar uma carta de Napoleão, exilado na ilha de Elba, para um agente bonapartista quando retorna para a França. Edmond fica preso muito tempo no castelo D’if, quando finalmente consegue fugir ele inicia seu plano de vingança contra Fernand, Mercedes, que era sua noiva antes de ser preso, Danglars, Villefort e outros personagens secundários.

Teria, com todo impeto de potência, Edmond com sua vingança, Fernand com sua inveja e traição, ter cometido tais ações deploráveis caso ambos não estivessem sob o domínio de uma paixão, de um impulso descontrolável, de um excesso capaz de impulsionar atos de imensa fraqueza e caráter vil? De fato, quando somos intoxicados por tal sentimento, por sua consequência somos capazes de cometer ações que de forma alguma cometeríamos caso não estivéssemos sob a cólera da paixão. Todo lado racional se anula dando espaço a um vazio que por sua vez é preenchido pela emoção pura.

Na mitologia grega a figura da deusa Nêmesis é relacionada a paixão, na teogonia grega Nêmesis era tão bela que era comparada com Afrodite, que por esse motivo despertava o desejo dos Deuses do olimpo. A figura de Nêmesis aparece também na história de Narciso. Um jovem chamado Amínias se apaixona por ele, sendo então rejeitado por Narciso que suicida-se aos seus pés. Amínias implora a deusa Nêmesis que o vingasse, ela faz com que Narciso se apaixone por sua própria imagem refletida na água, o mesmo passa a contemplá-la obsessivamente até morrer. Tal tragédia grega seria potencializada a ponto de ocorrer mortes, caso o viés passional não ocorresse dentro da história?

O que seria da poesia da fase ultra romântica do Brasil caso não houvesse a paixão como motor criativo, da poesia de Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela, Junqueira Freire, sua produção artística sucumbiria a meros ensaios literários?

De fato, temos em nossa existência dicotômica aparente, os dois lados possíveis, a razão e a emoção. Na tradição taoísta o simbolo do Yin e do Yang demonstra claramente essa problemática. O Yang como principio ativo o Yin como princípio passivo, o Yin como a noite, o escuro, o Yang como o diurno, o sol dourado.

Nessa lógica dicotômica, podemos estabelecer uma pessoa racional e outra emocional. A pessoa racional, livre das tentações do desejo, um discípulo de santo Antão que na tradição histórica rejeita todos os sentimentos nocivos ao corpo e a alma, ficando décadas como eremita no deserto e rejeita todas as tentações possíveis, dentro do conceito do cinismo filosófico. Tal pessoa teria maior chance de alcançar a virtude negando as tentações e os sentimentos como a paixão? O fato é, quem pende muito para um lado ou para o outro, como por exemplo razão ou emoção, tem maior chance de permanecer na infelicidade e no descontentamento.

A tradição budista também fala sobre o caminho do meio, a vida regrada e virtuosa. Já alguns artistas necessitam de um certo excesso para iluminar a sua tentativa de produção. Como seria possível a composição da sinfonia nº 9 de Beethoven sem um excesso que o levasse a compor tal obra? Você agora se pergunta, que diabos é esse tal excesso que motiva a produção artística? Digamos que seja um dos maiores mistérios dos tempos, capaz de transcendem qualquer explicação lógica, o grande culpado da imensa produção de séculos sem cessar momento algum. Seja bem vindo.

O filósofo britânico D.Hume em seu tratado II, no livro “Das paixões”, nos esclarece a respeito: “Quando uma paixão, como a esperança ou o medo, a tristeza ou a alegria, o desespero ou a confiança, está fundada na suposição da existência de objetos que não existem realmente. Segundo, quando, ao agirmos movidos por uma paixão, escolhemos meios insuficientes para o fim pretendido, e nos enganamos em nossos juízos de causas e efeitos.”

 

 

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