Papo de feira
Diário da Manhã
Publicado em 3 de fevereiro de 2017 às 02:09 | Atualizado há 8 anos
O volume de informações simultâneas em uma feira livre costuma ser imenso. Não é possível precisar com exatidão o que significa meia hora em um ambiente de comércio popular repleto de pessoas sem experimentar essa sensação pessoalmente. O cérebro humano absorve todos os estímulos como dados.
Uma multidão falando ao mesmo tempo em um cenário repleto de ruídos, imagens e movimentos combina-se com pensamentos íntimos e a memória numa explosão sensorial que deixa qualquer um cansado. Se houver dúvida, basta perguntar a qualquer feirante. Todo mundo fica esgotado. Todos, menos a moça de vestidinho vermelho que ouvia atenta a prosa de dois compadres.
– Juro para você que eu ainda consigo chegar junto.
– A idade não atrapalha?
– Nada. Serve até como motivação.
– Como?
– Dificilmente uma senhora com a minha idade daria conta do recado da mesma maneira que eu consigo.
– Talvez consiga.
– Pouco provável. Acredito que a maioria, nessa fase da vida, está mais preocupada com outras coisas. O meu caso é diferente. Sempre tive a cabeça firme. Não passo muito tempo sem dar uma namorada.
A moça observava com curiosidade aqueles dois senhores conversando animadamente. O mais moço deveria ter quase 70 anos. O mais velho deveria ter bem uns dez janeiros a mais. Concentrada na prosa, ela tentava a todo custo não diluir sua atenção em meio às ofertas do quilo de tomate ou ao pastel que acabava de sair da frigideira. A dupla seguia firme no papo.
– Eu enviuvei muito cedo.
– Isso dificulta, não?
– Minha mulher já não conseguia me acompanhar no mesmo ritmo. Tive de reaprender a viver de novo sem ela. O mais difícil foi me reaproximar das mulheres.
– Falta de prática?
– Eu tinha bagagem, sabe? História de uma vida ao lado de outra pessoa. Não conseguia ajeitar nenhuma mulher com facilidade na minha situação. É mais comum encontrar viúvas que viúvos. Com o tempo fui expandido mais minhas opções.
– Como o que?
– Mulheres mais novas.
– Era o esperado, não?
– Acho que sim. Só que eu precisei ficar em forma para conseguir acompanhar, entende? Comecei a correr, alimentar melhor e reduzir meus vícios. Deu certo. Eu aguento bem firme no tranco. Não deixo rapazote nenhum ganhar de mim.
– Tem alguma fixa?
– Uma moça me visita de vez em quando. Faz o pernoite lá em casa. Procuro trata-la bem. Tudo o que elas querem é atenção e generosidade.
A moça que observava a prova foi ficando admirada. Como aquele senhor idoso, já na casa dos 80 anos, gabava-se de manter a virilidade em dia com tanta naturalidade? Aquilo a intrigava. Em sua cabeça, imaginava se mantinha um coquetel especial ou comprimidos azuis na cabeceira da cama. Parecia a ela algo extraordinário. Sem conseguir conter a curiosidade, decidiu participar da prosa.
– Senhor, por favor, peço desculpas pela minha intromissão.
– Sinta-se à vontade, senhorita.
– Eu meio que ouvi a conversa dos senhores.
– Desculpe. Eu não queria lhe causar constrangimento.
– Não causou nenhum. Fique tranquilo.
– Então como posso ajudar?
– Com todo o respeito, acredito que o senhor não esteja sendo sincero. Eu não acredito nessa conversinha. Dificilmente, o senhor conseguiria fazer tudo o que disse com uma mulher. Acho que está falando borracha.
O senhor a olhou de cima a baixo. Era atraente, com quadris firmes. Não pensou duas vezes. Soltou na tábua, com o olhar malicioso.
– Com todo o respeito, senhorita, acredito que só existe uma maneira de vocês descobrir…
(Victor Hugo Lopes, jornalista)