Segue o baile
Redação DM
Publicado em 3 de junho de 2017 às 02:43 | Atualizado há 1 ano
Quem passar pelo Grande Hotel nas tardes de quarta-feira – entre às 14h e 17h – vai ouvir sair de lá muito sertanejo raiz e um “forrobodó” que embalam danças de uma gente tagarela e muito ativa. O que alguns transeuntes da região ainda não devem saber é que toda este clima é possibilitado por maiores de 60 anos, que estão ali participando do Grupo Vozes e Violão Flores do Cerrado.
Sem fins lucrativos e fruto do esforço e da dedicação da Associação Flores do Cerrado, o coral acontece assiduamente há três anos e tem se tornado um espaço raro de alegria, união e aprendizado destinado à terceira idade. Cerca de 35 pessoas – mas o grupo está crescendo a cada semana – se reúnem para diversas atividades.
Os encontros começam sempre com uma oração ecumênica, que é seguida por aulas de violão coletiva, ensaio de coral e ensaio do grupo de forró. Depois das aulas se dá, talvez, a parte mais divertida da tarde: a dança de salão, com direito a bolero e forró. Após toda agitação, a tarde termina com lanche caseiro. Neste momento hora – assim como todas as outras etapas das atividades do grupo – é regado por agitadas conversas. E os convidados são acolhidos calorosamente. “Já comeu?”, perguntou uma das participantes para uma recém-chegada, possivelmente atraída pela agitação do grupo, que ecoava pela Avenida Goiás.
No espaço parece haver o espírito de coletividade, que é ressaltado pela experiência de vida e a união de várias histórias que tem em comum a busca constante pela felicidade. Foi no coral, por exemplo, que a aposentada Maria das Mercês conseguiu reencontrar a vontade de viver através da música e do contato com o grupo. No decorrer da vida, ela sempre teve vontade de aprender um instrumento, e com o grupo a hora chegou.
“Estes grupos animam a gente e nos ajudam a realizar nossos sonhos, o que sempre quisemos fazer. Fiquei muito tempo doente, e vi que tinha de fazer alguma coisa para não voltar para cama de novo e encontrei este grupo. Hoje toco violão e teclado e ainda tenho amigos, de trocar figurinhas, segredos”, conta.
Já a costureira Maura de Melo, aos 69, viu que na aposentadoria estava livre para fazer o que não teve tempo até agora. Além do trabalho em uma confecção, tinha três filhos. Assim, o velho sonho de cantar e tocar violão era sempre adiado.
Porém, quando viu que podia, ela não perdeu tempo: hoje já tem três CDs gravados. O último chama-se Terceira Idade, que traz a música homônima autoral, além de clássicos “sertanejões”, como ela mesma diz, a exemplo de Mocinhas da Cidade e A Carta.
Ela conta que o coral Flores do Cerrado teve um papel importante em sua formação como artista. “Já tocava violão, mas este grupo maravilhoso me deu a chance de aperfeiçoar. Aqui também me distraio, afinal, quem canta, seus males espanta”, exclama.
Já a aposentada Zoraide Barros Bastos, 74 anos, possivelmente uma das mais animadas do grupo, parece sempre ter levado a vida a cem por hora, e não desacelerou após se aposentar no Ministério de Saúde. Além do coral, ela ainda participa de cineclubes da cidade e é atriz.
“Quando criança disse que não queria casar, mas sim ganhar muito dinheiro para viajar o mundo inteiro. Viajei para muitas cidades do mundo e até minha vida amorosa é uma mar de rosas. Só não tenho dinheiro, mas hoje vejo que o que vale é a felicidade”, compartilha Zoraide, que acredita que cantar lhe traz ainda mais alegria de viver.
“Este é o grupo da felicidade. Aqui tem gente com Alzheimer, tem gente com deficiência auditiva e estão todos na maior alegria”, diz, mantendo a mesma animação.

Dificuldades
O otimismo realmente vigora, até mesmo sobre as dificuldades que o Grupo Vozes e Violão Flores do Cerrado enfrenta. Um espaço mais amplo para acolher os idosos e até mesmo para acomodar os instrumentos são algumas das reivindicações da associação que possibilita o coral.
Pois, independente e sem nenhum apoio do governo, o coral nasceu de um grupo de amigos da terceira idade, que gostava de reunir em casa para cantar. Mas logo viram que poderiam acolher no grupo mais gente, com as vantagens quase terapêuticas da música.
“Para tornar o grupo possível, criamos a associação, que tem como objetivo possibilitar à terceira idade, através da música, a vivência de momentos lúdicos, felizes e criativos, melhorando a autoestima, a convivência e a qualidade de vida. Mas tudo isso sem fins lucrativos”, explica o presidente da associação, Silvério Carmo.
Desde o começo, há três anos, o grupo tem organizado tudo, inclusive o lanche, alguns poucos instrumentos e aparelhagem de som, de forma autônoma. “O dinheiro tem saído do nosso bolso. Se alguém quiser ajudar e doar, estamos de braços abertos para receber”, declara o presidente.
O local para acomodar os participantes do coral, desde o início da formação do grupo, também tem sido um problema. Antes, os participantes se encontravam na Praça do Trabalhador, em uma das salas da Estação Ferroviária. Por questões de segurança, o grupo achou melhor encontrar um novo espaço, e veio a possibilidade das atividades acontecerem no Grande Hotel.
O espaço preencheu as necessidades do grupo em partes. Contudo, é fato que o coral ainda pretende conseguir um local mais apropriado e silencioso para as aulas de violão. É ainda uma necessidade da associação deixar os instrumentos e aparelhagem no mesmo local das aulas, já que, atualmente, quase tudo é Silvério quem transporta sozinho.
“Começo a trazer os equipamentos às 8 horas, para quando as pessoas chegarem estar tudo funcionando direitinho. Tenho feito isso com o maior prazer da minha vida. É uma lição da maçonaria, que me incentivou que eu trabalhasse dando este apoio ao idoso, que muitas vezes é desprezado e humilhado pela sociedade. Não esperamos nenhum reconhecimento, queremos é só servir”, argumenta Silvério.
A aposentada Terezinha da Silva, 80 anos, também faz parte da associação. A ida do coral para a Praça do Trabalhador foi, aliás, uma iniciativa dela. Hoje, ela é a responsável por preparar e também transportar os lanches que são produzidos em sua casa, para o Grande Hotel, o que não tem sido muito fácil.
“Meu sonho é que possamos ter uma sala para fazer os alimentos. Quando tivermos isso quero também dar aulas de reaproveitamento de verduras e frutas e também de corte e costura. Precisamos de um salão maior, pois só está chegando gente”, detalha a aposentada.
Troca
Enquanto as ajudas não chegam para realizar os sonhos dessa turma, o grupo segue o baile cantando Cascatinha e Inhana, Tonico e Tinoco, entre várias outras canções, que a atual professora de violão do grupo, Maria Severiana, 48 anos, reaprendeu para ensinar para o coral. A professora foi contratada pela associação temporariamente, enquanto o regente titular precisou se afastar. No entanto, ela se vê cada dia mais envolvida emocionalmente com a turma.
“Este grupo me adotou, sei que sou importante para eles, e eles para mim. E funciona como uma terapia: a gente deixa o problema em casa e vem pra cá de peito aberto para poder ajudar o outro. Tem problema? Traz pra cá, é uma troca.

