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Último herói do rock: Kurt Cobain encerrou vida por vontade própria há 30 anos

Antes disso, entretanto, artista criou dois elepês que definiram a música nos anos 90: “Nevermind”, de 91, e “In Utero”, lançado dois anos depois

Kurt Cobain durante gravação do acústico do Nirvana - Foto: MTV/ Divulgação Kurt Cobain durante gravação do acústico do Nirvana - Foto: MTV/ Divulgação

“Smell Like Teen Spirit” mudou a música nos anos 90. Foi o momento em que o rock batera Michael Jackson no primeiro lugar das paradas da Billboard, tornando o disco “Nevermind”, lançado em 91, a obra discográfica mais importante da década. Embora não tenha sido sucesso de uma hora pra outra - encalhara nas lojas o disco “Bleach”, dois anos antes -, a forma com que o Nirvana surpreendeu a indústria fonográfica era inédita. Kurt Cobain (guitarra), Krist Novoselic (baixo) e Dave Grohl (bateria) criaram um clássico.

Qualquer adolescente que pendurou uma guitarra nos ombros de 91 pra cá reproduziu a frase de abertura no instrumento, com amplificadores nas alturas do escárnio enquanto se fazia os tais power chords. Contudo, convencionou-se a dizer por aí que Kurt nunca quis ser estrela do rock. No máximo, desejava se rebelar contra aquilo que mais lhe incomodava - o capitalismo. Era um antiastro, diferente da celebridade na qual tentaram transformá-lo, queixa ouvida nas faixas de “Nevermind” - disco que esbugalhara a misoginia do hard rock.

Essa é, ao menos, a versão canônica do astro. Sim, ele empenhou-se em ser rock star. Bateu na porta das gravadoras multinacionais na tentativa de convencê-las a gravar “Nevermind”, após o resultado comercial decepcionante obtido por “Bleach”, em 89. E, insistente, telefonava aos mandas-chuva da MTV, pedindo-lhes que mostrassem mais seus videoclipes na emissora, ao contrário da persona criada por ele nas entrevistas: era uma balela as reclamações contra corporações, as críticas aos virtuosos dos instrumentos, esse treco todo.

Courtney Love, companheira de Kurt, contrapõe o mito do artista essencialmente intuitivo. “Existe o mito de que Kurt não queria triunfar. Nem fodendo. Ele ralou para formar a banda adequada e adorou tirar o número um do Michael Jackson, mas nunca foi capaz de desfrutar disso, porque esse circo nos privou da nossa filha”, disse ao jornalista espanhol Juan Sanguino, do “El País”, jornal do mundo hispânico. Seu professor de violão, anos depois, declarou que o artista estudava e seus biógrafos já mostraram seu apreço a Jimi Hendrix.

Maior álbum dos anos 90, “Nevermind” grudou em nossos ouvidos a agressividade do punk. A guitarra carrega peso, numa distorção à moda Ramones, mas aqueles destruidores acordes transportam algo do metal, talvez o pouquíssimo apreço, vamos colocar assim, ao art rock. Se formos pensar por dois segundos, encontra-se certa semelhança com a insurreição promovida pelos Sex Pistols contra os sintetizadores, os solos intermináveis e a pretensão do Jethro Tull ou Pink Floyd, duas décadas antes da insurgência nirvânica. O Nirvana, por sua vez, se insurge contra o rock envelhecido do Guns N´ Roses - sobretudo.


		Último herói do rock: Kurt Cobain encerrou vida por vontade própria há 30 anos
'Nevermind', lançado pelo Nirvana, em 1991. Foto: Divulgação

O disco inseriu Kurt dentre os maiores cantores, capaz de tomar direções inesperadas, como quando oscila de um tom ao outro. Também se revelou compositor embebido de sensibilidade e originalidade genuínas. A primeira faixa, hoje a lendária “Smells Like Teen Spirit”, ondula entre versos tranquilos e refrão agitado, costurados por um riff igualmente inesquecível. Não há outra forma de olhar pra tal rock a não ser para entendê-lo pela perspectiva de uma grande canção pop, do tipo que tocará por anos, décadas ou séculos.

Kurt Cobain, o suposto antiastro, afirmou que queria fazer - com “Smell Like Teen Spirit” - a melhor música pop de todos os tempos. “Estava tentando roubar o estilo dos Pixies”, reconheceu, após o lançamento do disco, entre 91 e 93. “Nevermind” é uma máquina de clássicos. Há a inconfundível “Come as Are You”, outra que passou à história pelo riff assobiante. As letras jorram pelos poros da loucura doses excitantes de sarcasmo, contradição e perturbação, a partir de imagens esquisitas e positividades maculadas.

Um clássico

Nossa! “Territorial Pissings” estilhaça as vidraças da limpeza. Sonoridade arenosa. Mijada torrencial. Não importa se você é ou não é um paranóico, eles estão atrás de você. E não adianta esgoelar. Esgoelar igual Kurt se esgoela enquanto escrevo. Charles Baudelaire nos alertou lá em 1859: há olhos cheios de melancolia, nada escondem em seus belos escrínios, mais fundos ou vazios do que vosso céu. Veja, podemos dizer que Kurt era um sujeito que sentia o spleen baudelairiano, termo francófilo para se referir a uma melancolia pensativa.

Embriagava-se - embriagar-se é preciso, afinal de contas - na birita da tristeza. Viver em Aberdeen, cidade de 16 mil habitantes situada no noroeste dos EUA, onde Kurt Cobain nasceu em 1967, não era fácil. Aos sete, diagnosticaram-lhe como hiperativo. Pai e mãe se separaram mais ou menos nessa época. Anos depois, na adolescência, já queimava fumo com amigos e curtia punk, embora tenha se desencantado quando escutou o experimental “Sandinista!”, álbum do The Clash, lançado em 1980. “Se punk é isso, não quero”, dizia.


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Capa dos 'Diários' de Kurt, publicado pela editora Belas Letras. Foto: Divulgação

À medida que viajamos pelas profundezas existenciais do artista, seja lendo seus “Diários” (Belas Letras, R$ 129,50) ou encarando o catatau nirvânico-biográfico escrito pelo jornalista Everett True (“Nirvana: A Verdadeira História”, Belas Letras, R$ 152,90), explicita-se o óbvio: numa sociedade utilitarista, vocacionalmente neoliberal e perigosamente individualista, eis que surge um poeta, um roqueiro, um lírico no caldeirão do capitalismo - pra me apoderar daquela expressão consagrada por Walter Benjamin, ao falar de Baudelaire.

Em razão disso, a bateria de Dave Grohl - isso mesmo, o cara do Foo Fighters - toca num volume desvairado. E, no entanto, “Nevermind” melindra em decibéis baixos. Narrativas sexuais convergem com imagens evocadas pelo eu-lírico: “Polly quer um biscoito/ acho que devo sair de cima dela primeiro/ acho que ela quer um pouco de água/ pra apagar o fogo”. Lembremos qualquer prosa de Jack Kerouac, algum romance de William Burroughs ou algo publicado por Allen Ginsberg: contracultural. De repente, surpreendemo-nos mais uma vez: quase choramos ao som de um violoncelo. Kurt está na rua, comendo grama, fodidaço.

É um best-seller, o disco. Tem uma capa perturbadora, com um fundo azul, um dólar depositado ali por um anzol e uma criança pelada que se chama Spencer Elden, então com 5 anos. Mais pro canto superior esquerdo, numa tipografia preta, lê-se “Nirvana - Nevermind”. Foi criada por Robert Fisher para nos chocar, chamar nossa atenção e ironizar o materialismo da nossa sociedade. E, talvez por isso, expulsou o rei do pop Michael Jackson e seu disco “Dangerous” do primeiro lugar da Billboard, virando símbolo de uma geração.

Dois anos após “Nevermind”, o Nirvana lançou o polido “In Utero”, obra que teve a ingrata incumbência de vir depois do gigantesco segundo trabalho. Kurt queria fugir daquele som metálico registrado no primeiro elepê, “Bleach”. Em si, não se pode dizer que há punk, ao menos não aquele punk estilo The Offspring, e isso fica óbvio na bela “Dumb”: observe que existe um violoncelo ao fundo, uma guitarra econômica e letra sobre a saudade da vida simples, longe dos holofotes da fama. “Não sou como ele, mas posso fingir”, externaliza.

Os singles “Heart-Shaped Box” e “All Apologies” foram mixados pelo produtor do R.E.M, Scott Litt, que os fez ganhar uma sonoridade diferente das demais músicas. Kurt se aprofundava cada vez mais no vício em heroína, porém nada disso fez a qualidade artística despencar. É um disco alto, barulhento e bonito, como resumiu o escritor Brett Schewitz. Kurt Cobain exibe a força de sua voz crua e Dave Grohl promove dois dos maiores momentos da obra, com as aberturas de “Serve The Servants” e “Scentless Apprentice”.

Mesmo que tenha se passado mais de 30 anos do lançamento de “In Utero”, ainda continua soando essencial. Muita gente, até hoje, se pergunta se a sonoridade ouvida no último álbum do Nirvana seria a adotada pelo grupo, caso Kurt Cobain não tivesse injetado uma dose tripla de heroína nas veias e tirado a vida com um tiro de espingarda na boca, entre os dias 4 e 6 de abril de 1994 - semanas antes, tivera uma overdose proposital, em Roma. Tinha 27 anos. O público brasileiro o assistiu no Hollywood Rock, em 93. Foi uma loucura.

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