Vida de santa que contestou Igreja Católica inspira peça
Redação DM
Publicado em 9 de maio de 2015 às 03:25 | Atualizado há 11 anos
Contrariando uma sociedade que não via com bons olhos a participação de mulheres no mundo das letras, a freira espanhola Teresa de Cepeda y Ahumada (1515-82), conhecida como Teresa d’Ávila, não só proferia sem pudor seu gosto por livros, como também escrevia poemas e registrou sua biografia em Livro da Vida.
A obra é a base da peça A Língua em Pedaços, escrita pelo espanhol Juan Mayorga há quatro anos e montada agora em São Paulo, com direção de Elias Andreato.
No espetáculo, Teresa –interpretada por Ana Cecília Costa– recebe a visita de um inquisidor, papel de Marco Antônio Pâmio, no mosteiro São José, primeiro convento das Carmelitas Descalças, ordem fundada pela freira.
O eclesiástico, de início, pergunta sobre as motivações de Teresa, sua crença e sua visão sobre a religião. Mas usa suas respostas –diretas e sinceras– para denunciar a suposta heresia da freira.
O embate é fictício, mas o espetáculo contém trechos inteiros de Livro da Vida, explica Ana Cecília. Também representa um jogo de poderes entre a Igreja Católica, comandada por homens, e Teresa, mulher com atuação política, que questionava doutrinas e que criou seus próprios conventos –nos quais pregava pela simplicidade. Posteriormente, suas ações causaram reformas na instituição.
“Teresa d’Ávila foi quase uma precursora do feminismo”, afirma Pâmio. Ao mesmo tempo, a freira dizia ter visões de Deus e de anjos, e sua relação com a religião era muito física: descrevia seu êxtase como manifestações no corpo e afirmava conseguir levitar por meio da oração. Por esses relatos, foi acusada de bruxaria – e, ironicamente, canonizada 40 anos depois da sua morte.