A doença do espírito
Redação DM
Publicado em 10 de dezembro de 2016 às 01:31 | Atualizado há 10 anosAs doenças sempre foram consideradas um aspecto maldito, uma herança diabólica e maléfica, um castigo das divindades para com os homens, isto bem antes de nossa cultura Judaico – Cristã, de nossa bíblia ou de nosso Jesus. Estudos de antropologia mostram claramente a dicotomia entre bem e mal existente na psique primitiva especialmente na cisão entre a saúde e doença. Muitos povos não aculturados trazem a visão de que a doença é uma “vingança de espíritos”, “castigo”.
Porém mesmo em culturas ditas primitivas este mesmo ciclo é integrado a formação do indivíduo e da identidade social, especialmente quando este processo de saúde – doença passa a ser observado ritualisticamente enquanto integração em um sentido de evolução. Muitas tribos de nosso Xingu escolhiam seus referidos Curandeiros (Pajés) por estes apresentarem deformidades, sensibilidade intensa a patologias diversas. O caminho do sofrimento aqui deixa de ser apenas um castigo divino e passa a ser visto como uma possibilidade de crescimento e de preparação para a formação de um curador.
Aqui gostaria de fazer um parênteses. Sempre achei graça em observar meus professores e os profissionais de saúde que mais admirava, muitos celebridades efetivas.
Todos seres complicados, sensíveis ao extremo, invariavelmente com histórias de vida pesada cujo sofrimento no passado era notório. A melhor médica oncologista que conheci perdeu a irmã de câncer. O melhor psiquiatra tinha um irmão esquizofrênico, o melhor psicoterapeuta era vítima de espancamento e de pai alcoólatra, o melhor analista vivenciando a segunda guerra mundial na infância. Todos estes casos tem em comum o fato de sua desestruturação pessoal ter se tornado o chamado de seu espírito para sua futura prática profissional hoje integrada a nossa civilização. Hoje nossos pajés modernos criados pelo destino na mesma frigideira de sensibilidade, dor, sofrimento.
Porém hoje em dia virou moda atribuir todas as patologias a um sentido espiritual. Especialmente as que por medo podem ser manipuladas visando trazer lucro às igrejas e a seus líderes. Tudo que é ruim é diabólico. E na atualidade nas igrejas cristãs primitivas adeptas ao discurso do dinheiro em uma teologia de prosperidade, ganha se muitos fiéis desintegrando a psique de um sentido mais profundo, o de perceber a dor e o sofrimento enquanto um caminho de evolução para o espírito.
Hoje a sociedade tenta discutir a influencia espiritual em doenças mentais. Uma depressão, por exemplo, estaria suscetível a um obsessor, a uma magia negra, a um despacho, a um ritual de inveja ou mesmo a uma obra de satanás. Seja por uma teologia de boteco, seja por um discurso parapsicológico ou um esoterismo de bolinha de gude. Captando pessoas cuja mentalidade e afetividade não estejam bem estas tornam se vítimas de um sadismo intenso por parte de desorientadores espirituais.
Chamo de desorientadores por que estes são seres sádicos, preconceituosos que empurram mais para baixo quem sofre. Vi outro dia um líder religioso médium de um centro espírita, dizer que uma paciente com transtorno bipolar tinha nada do mundo dos homens, mandou ela queimar seus remédios e abandonar sua terapia. A paciente dias depois entrou em uma nova crise intensa. Levou semanas para voltar a compensar e retomar a vida. Espíritas exotéricos, católicos carismáticos, protestantes neopentecostais são os campeões deste tipo de atrocidade. Longe de amar a quem sofre geralmente projetam seu preconceito na doença alheia, discriminam por ignorância e jogam um paciente no fundo do poço. Ele não se cura porque não tem fé!
Outro dia aplaudi uma família que entrou com um processo civil e criminal contra uma igreja por esta vitimizar um membro o forçando a abandonar seu tratamento. Isto é possível e rentável a uma família visto que impedir um indivíduo de se tratar torna se um ato criminoso plausível de condenação judicial. Igrejas são ricas, não pagam impostos e podem perder ações à vontade, tem dinheiro para pagar.
Na saúde mental a coisa torna se mais séria visto que as doenças mentais nem sempre apresentam sintomatologia física. Uma depressão não aparece em exames laboratoriais.
Muitas das doenças mentais são facilmente mistificadas e jogadas para um sentido de espiritualidade, este não visando à evolução de um paciente, mas o prender junto ao medo e o condenar por este estar doente. Um atributo de sadismo de um líder religioso de formação em zona de meretrício ou boteco. Sabe como é foi muita droga antes de sua conversão.
Nossa sociedade dita Cristã deveria no mínimo seguir mais o que está disposto no novo testamento: “Não julgueis para não ser julgado”; “Ama a teu próximo como a ti mesmo”; e assim por diante. Todavia o que se faz com certos pacientes em sofrimento é a mais pura atrocidade.
Especialmente quando se coloca que ele sofre por falta de fé. Em meus anos como analista e psicólogo atendi padres, pastores, médiuns pessoas de todas religiões possíveis e imagináveis muitos com vida religiosa ativa.
Mas neste mundo materialista em que templo é dinheiro nada mais rentável as igrejas que o medo que cativa e pastoreia cada um o prendendo não por amor, mas pelo temor. Lamentavelmente o que assistimos hoje é um retrocesso à mentalidade do pior da igreja medieval, faltando somente à fogueira e a inquisição. Naqueles tempos já estaria eu sendo afogado por minhas palavras heréticas contra nosso clero isto por versar sobre respeito e amor ao próximo.
Por fim neste materialismo da espiritualidade nada mais natural que cindir a dinâmica da vida. Deixar de lado o que por vezes nos força a crescer o sofrimento.
Os profetas modernos mais espiritualizados como São Francisco e São João da Cruz tem esta consciência até agradecendo de forma humilde a dor e ao sofrimento pela consciência de que este os aproxima mais e mais de Deus.
(Jorge Antonio Monteiro de Lima, analista, pesquisador em saúde mental e psicólogo)