Aprecie sem moderação
Redação DM
Publicado em 9 de novembro de 2016 às 01:57 | Atualizado há 2 anosUm espetáculo que já foi muito aplaudido pelo Brasil afora, e que guarda em si um ar retrô e irreverente, ganhou uma nova montagem da Cia Cênica Nossa Senhora dos Conflitos. Trata-se de Doce Deleite, uma peça teatral escrita por Alcione Araújo, que tem como principal referência o Teatro de Revista, bem popular no Brasil nos anos de 1960. Com direção de Sandro di Lima e utilizando-se, sem parcimônias, do deboche, a montagem provoca risadas sobre os bastidores do próprio ambiente que pertence: o teatro.
Regada à música e à dança, a trilha sonora da peça utiliza a música das jazz bands, além de efeitos e vinhetas de rádio, televisão e cinema, muito presentes também no texto de Alcione Araújo. E entre o toque da sensualidade e do besteirol característicos do Teatro de Revista, vira e mexe são incrementadas ácidas críticas políticas, que aparecem meio disfarçadas. Afinal de contas, Doce Deleite é um espetáculo fruto de seu tempo.
Estreou em 1981, no Rio de Janeiro, em plena ditadura militar. Ou seja: gritava nele a vontade de se fazer humor crítico, mas por outro lado isso precisava ser feito de forma codificada, para esquivar-se da opressão ferrenha que as produções artísticas sofriam na época.
A montagem de estreia tinha ninguém menos que Marília Pera no elenco e, mais recentemente, em 2008, a atriz veterana remontou esta peça com os atores Reynaldo Gianecchini e Camila Morgado, para reviverem seu personagem e de Marco Nanini na época. Mas a versão goiana não fica para trás, e o talento e a experiência dos atores são pontos fortes da adaptação.
Em cena Fabíola Villela, Mauri de Castro e Sanântana Vicencio são responsáveis por protagonizar diversas esquetes engraçadas, trazendo uma deliciosa metalinguística ambientada dentro e fora das coxias. “O espetáculo é um deboche, ele é um deleite sobre o que acontece atrás das cortinas, qual é o universo dos bastidores. E ao mesmo tempo faz algumas picardias políticas, algumas brincadeiras, como era antigamente o Teatro de Revista”, explica o diretor do espetáculo, Sandro di Lima.
A escolha de encarar este espetáculo cheio de nuances, de acordo com o diretor, partiu do próprio elenco. “Nós estávamos no meio de uma comédia muito mais complexa, que é “A Lição”, de Eugène Ionesco, que é um humor muito refinado, um humor muito travado, um coito interrompido. E o elenco queria um espetáculo mais solto, e essa foi uma escolha deles”, explica Sandro.
Sem ofensas
Sim, o clima de deboche e besteirol toma conta do texto, mas provocar o riso fácil, utilizando piadas consideradas machistas, homofóbicas ou racistas pelo diretor foram devidamente rejeitadas. “As pessoas têm noção de comédia ainda muito vinculada à televisão, ou ao cinema, e ainda muito refém de certos clichês. A gente gostaria que o público percebesse que é possível fazer comédia sem cair na tentação do desrespeito às diferenças”, argumenta o diretor.
Por isso, de acordo com Sandro di Lima, cutucar de forma leve e descontraída é a melhor forma de encarar o texto de Alcione ao pé da letra. “Eu particularmente não gosto muito de doce, mas o deleite, e a sacanagem, o deboche e a sátira, com o atenuante desse adjetivo ‘doce’, é pra deixar claro que não tem o propósito de ferir e magoar”, esclarece.
Como o cenário político sempre circundou esta comédia, não é agora que a peça se esquivaria. Porém, nem a política atual amargou a peça. Talvez pode até ter a deixado com sabor mais agridoce.
“Este não é um espetáculo que se inscreve nesse ressentimento melodramático, que assola o Brasil hoje, de lados antagônicos, e que suscita um lado tão conservador, tão atrasado, tão retrógrado, que engata uma marcha para o retrocesso, que compromete o País, compromete a educação brasileira, a cultura e, sobretudo, o futuro da nossa juventude. Então, Doce Deleite também é um ponto de alegria. Para que a gente possa realmente dizer para as pessoas que o humor faz a diferença. E como dizia Oswald de Andrade… “o humor é a prova dos nove’’, disse o diretor.
O Diretor
Sandro di Lima atua há mais de três décadas junto à cultura e à educação de Goiânia. Professor de Teatro do Instituto Federal de Goiás (IFG), foi um dos precursores da profissionalização do teatro em Goiânia, com o Grupo Canopus, em 1979, responsável por formar uma geração de atores. Dirigiu dezenas de espetáculos, entre eles: A Falecida, de Nelson Rodrigues (em 1987) e 3X3 para Cia de Teatro Nu Escuro (em 1997). Entre 2000 e 2004 esteve à frente da Secretaria de Cultura de Goiânia e geriu a primeira edição do Goiânia Em Cena. Também foi assessor especial da Ancine. Hoje é pró-reitor de Extensão do IFG e recentemente dirigiu A Mais Forte, do sueco August Strindberg, com a Cia Dramática de Teatro Mulheres Em Cenas Fortes, e “A Lição”, de Eugène Ionesco.



Doce Deleite
Quando: Hoje e amanhã, às 20h
Onde: Espaço Sonhus (Colégio Lyceu de Goiânia – Rua 21 nº 10 – St. Central)
Ingressos: Entrada Franca (os ingressos podem ser retirados uma hora antes do espetáculo)