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Aprendendo a gostar de música clássica

Redação DM

Publicado em 4 de junho de 2017 às 01:59 | Atualizado há 9 anos

Um argumento cínico usado por defensores da música brega, a que chamam equivocadamente de “sertaneja”, é que “o povo gosta”. Esse tipo de música espúria, verdadeira celebração do mal gosto, tomou todos os espaços.. Onde quer que se vá, lá estão eles, os sertanojos, os breganejos, o “sertanejo universitário”. Um tipo de música distante anos-luz daquelas honestas e comoventes modinhas que Cornélio Pires lançou em l929, no rádio paulistano.

Mas, é disso que o povo gosta, afirmam os cínicos defensores deste tipo de lixo estético. O argumento é fraudulento. O “povo” gosta disso porque é o que tem para se ouvir. Poderosos interesses financeiros controlam todos os espaços difusores, impondo a tal música sertaneja, que de sertaneja não tem mais absolutamente nada, seja na forma, seja no conteúdo, seja na temática, seja na atitude de seus intérpretes. Imagine você, caro leitor, cara leitora, um sujeito que passa a vida toda comendo carne de pescoço. Ofereça a ele filé mignon. Não vai querer. Terá medo de passar mal. O cara só conhece aquilo, não tem outras referências.

O gosto musical, nos tempos atuais, é uma imposição autoritária da mídia e da industria fonográfica. É o jabaculê que mantêm vivo o sucesso desse tipo de música. E são sucessos efêmeros. Todo santo dia surgem novas duplas “sertanejas”, cada qual imitando descaradamente as precedentes, cada qual mais apelativa que as outras. Depois de três ou quatro anos, a maioria dessas duplas desaparece sem deixar traço.

Gosto se discute, sim. O gosto pelo que é bom pode e deve ser cultivado. Cultura é isso: cultivar o bom gosto. É um processo educativo. Uma pessoa que pode ouvir todo tipo de música terá condições de fazer uma escolha consciente entre um gênero e outro.

Uma estratégia usada pelos que impõem o mal gosto musical à população é a disseminação da mentira segundo a qual só o “novo” é excelente. Alguém que goste de Noel Rosa será depreciado como “velho”, retrógrado, passadista. Daí a necessidade de a industria do disco estar sempre lançando novidades, cada uma pior que a outra. É a aplicação do princípio de Schumpeter: a destruição criativa. O capitalismo precisa demolir hoje o que construiu ontem, para construir de novo. ´W loucura. Mas é dessa loucura que se nutre o sistema capitalista.

Podemos resistir a isso. Podemos desenvolver um vasto programa de educação musical das massas. Como seria isso possível? Um dia desses, conversando sobre isso com o Batista Custódio, um apreciador de música erudita, ele comentou: “Os governos deviam distribuir discos de música clássica nas escolas”.

Aí lembrei-me do saudoso Joaquim Jayme regendo a sinfônica da Prefeitura de Goiânia nos gramados do Horto. Nos tempos de Pedro Wilson prefeito, a orquestra de Joaquim Jayme se apresentava ao ar livre, em lugares frequentados pelo povão, como o caso do horto. Depois passou a se apresentar apenas em teatro.

Pude ver como as pessoas curtiam as peças tocadas pela Sinfônica. As crianças sentadas na grama, ouvindo encantadas aquele som maravilhoso: Bach, Beethoven, Chopin, sei lá mais quem.

Há quem não goste de música clássica, ou erudita. Ou, como gostava de dizer a saudosa Belkiss Carneiro, “música de concerto”. Certo, tem coisas chatas no universo da música erudita. Mas isso tem em todo gênero musical. Mas a maior parte é coisa divina. Ouvir uma peça como “Cavalgada das Valquírias”, de Vagner, é uma experiência espiritual elevadora. Pouco importa que tenha sido inspirada nas velhas lendas germânicas. A música é universal e transcende suas fontes de inspiração.

Ninguém nasce gostando de música erudita. É um gosto que deve ser cultivado. A pessoa aprende a gostar. Podemos ensinar a pessoa a gostar de música erudita. Em se tratando de criança, a coisa flui com muita naturalidade. O cinema, em tempos idos, contribuiu bastante para educar o gosto das pessoas. Stanley Kubrick foi um cineasta que abusou da música clássica em seus filmes. Mas, esperto, vestiu-as com roupagem contemporânea. Em “2001, uma Odisséia no Espaço”, a abertura é “Assim falava Zaratustra”, de Strauss, com arranjo do brasileiro Eumir Deodato, que não teve o menor puder de enfiar lá umas guitarras elétricas. Em “Laranja Mecânica” ele nos trás Beethoven executado em sintetizadores por Valdo Carlos – uma obra prima.

O gênio de Glauber Rocha contrasta o sertão nordestino bruto e violento com uma parte da “Bacheana n° 5”, a chamada “cantilena”, na voz celestial de Bidu Sayão. Só esta sequência já valeia o ingresso. A “Cantilena” é uma das obras primas de Heitor Villa Lobos, o grande compositor brasileiro diante quem o rumo se inclina reverentemente, embora no Brasil já ninguém saiba de quem se trata.

O Brasil, a propósito, produziu grandes compositores eruditos. Alem do já mencionado Villa Lobos, tivemos Camargo Guarnieri, Guerra Peixe, Radamés Gnatali e, claro, o grande precurssor de todos eles: Carlos Gomes. Até mesmo aqui em Goiás, na velha Pirenópolis, em tempos idos, muito idos, tivemos o Tônico do Padre, que nos legou a bellíssima “Sinfonia dos Sapos”, gravada por orquestra de Câmara sob regência do saudoso Brás Pompeu de Pina.

A música erudita composta por brasileiros busca inspiração no nosso folclore, na nossas história. Como ocorre aliás com a música erudita europeia. Mas é uma viagem de ida e volta. Na torna-viagem a música erudita muitas vezes se mistura com a canção popular. “Samba em prelúdio”, de Baden Powell com letra de Vinícius de Moraes, é claramente chopineana. As músicas do álbum “Urubu”, de Tom Jobim, soa muito mais erudita do que popular, com discretas notas debussyneanas. Na antológica “Trilogy”, de Emerson, Lake and Palmer, temos interlúdios de piano que ora nos remetem a Chopin, ora a Franz Litz, tudo desaguando em um rokcão pauleira botando pra quebrar geral. Aliás, se não houvesse música erudita não teria existido o chamado “rock progressivo”. Pink Floyd, Jetro Tull, Focus… todo este pessoal bebeu até ficar de porre nas fontes da música erudita–ou clássica, ou de conserto, à escolha do freguês.

Assim, diante do exposto, meu caro governador Marconi Perillo, meu caro prefeito Íris Rezende Machado, faço aqui uma proposta: iniciem um programa, nas escolas públicas, de educação musical, por meio da distribuição gratuita de discos de música clássica, inclusivamente a de autores brasileiros. Sei que existem outras prioridades, outra urgências, mas nós sabemos que nem s´[o de pão vive o homem, e a boa música, assim como a boa literatura, é o pão do espírito.

A ideia é tão boa que a dou de graça e nem precisa me agradecer. Cortesia da casa.

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