“Brasil tem carência de memória”
Redação DM
Publicado em 7 de agosto de 2015 às 23:51 | Atualizado há 2 anos- Cinema e história são os “temas” da realizadora Anita Leandro
- Abordagem original dá visibilidade à engrenagem da repressão
- Ela afirma que o documentarista tem a verdade como o horizonte
- Diretora diz que Retratos de Identificação é sobre o “presente”
Cinema e história constituem os temas prediletos da realizadora Anita Leandro, também professora de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), autora do documentário que já nasce clássico Retratos de Identificação. Com uma abordagem original, a sua estratégia era dar visibilidade aos arquivos da repressão, componentes da engrenagem da ditadura civil e militar, instalada logo após a queda, em 31 de março de 1964, no Brasil, do gaúcho de São Borja João Belchior Goulart, presidente da República nacional-estatista em sua versão trabalhista. Uma noite que durou 21 anos. A sua ideia é colocar o espectador diante dos documentos, explica. O arquivo enquanto prova, com um recorte, frisa.
– O espectador pode, então, se apropriar dos vestígios do passado.
Horizonte
Com modos delicados e a fala mansa, a doutora em Cinema diz com exclusividade ao Diário da Manhã que o documentarista tem a verdade como horizonte. Apesar disso, ela insiste que o diretor não pode reduzir a documentação à uma mera ilustração. Para obter o acesso aos documentos, dossiês, fichas e negativos de fotografias, a cineasta afirma que o processo teria sido longo. Longo, longo, longo, dispara. Demorou um certo tempo, registra. Tive perseverança, pontua. Não custa lembrar: Nem tudo está catalogado, sublinha. Mesmo assim, ela conta ter encontrado as provas dos crimes. O do assassinado do estudante do 5º ano de Medicina, Chael Charles Schreier, e as marcas das torturas em Antônio Roberto Espinosa e Maria Auxiliadora Lara Barcellos.
– A tortura e a execução como políticas de Estado!
O filme-documentário Retratos de Identificação não é sobre o passado, analisa Anita Leandro, de forma pausada. Ele trata das sobrevivências do passado que estão entre nós, no presente, fuzila. Uma história que não foi contada, pondera. O luto – que é considerado um patrimônio imaterial da cultura brasileira – não foi elaborado – termo utilizado na psicanálise –, atira. O Brasil tem carência de memória, avalia. Segundo ela, um exemplo é a escravidão, a situação atual dos negros na pirâmide social e a reação da elite branca às cotas raciais. A professora da UFRJ diz concordar com o historiador da Universidade Federal Fluminense (UFF) Daniel Aarão Reis Filho. A sociedade não se identificou com o projeto de luta armada nos anos de chumbo.
– Ainda hoje é uma minoria que se identifica com a luta pelas causas sociais. Estamos longe de chegarmos aos patamares mínimos para o exercício pleno da cidadania.
Overdose
A diretora de Retratos de Identificação não acredita que tenha havido no Brasil um excesso de filmes e documentários que abordam o tema da ditadura civil e militar (1964-1985). “Estamos bem longe daquilo que necessitamos. Para abordá-los sobre diferentes óticas”, destaca. Após 50 anos do golpe de Estado civil e militar de 1964, Retratos de Identificação, que ficou pronto em outubro de 2014, é o primeiro filme sobre os arquivos da repressão política e militar, afirma. É o primeiro documentário feito inteiramente baseados nas pistas dos arquivos, diz. Anita Leandro comenta que sempre haverá a necessidade do cinema político. Mesmo assim, ela acredita que a resistência política é sempre minoritária na sociedade civil.
– Mas há espaço, sim, para o cinema político!
Cinema é contar uma boa história, conceitua. Sempre foi, define. A historiografia também faz isso, registra, mas o cinema também pode ser algo abstrato, experimental, como uma instalação, contrapõe. Agora, no campo político, ele tem que contar histórias, frisa. Um diretor que admira é o inglês Ken Loach, de linhagem marxista em versão trotskista. Aos 80 anos, o realizador mantém a ética e o foco nas histórias das lutas de classes para hipnotizar o seu público e sempre incendiar Cannes. “Gosto dele. É um cinema sociológico. Ele tem o seu devido valor”, aponta. Apesar das limitações financeiras, Anita Leandro relata que ficou satisfeita com o resultado final do seu trabalho. Não revela, porém, os seus próximos projetos.
– Fiz o melhor que era possível fazer. Um trabalho demorado e uma onerosa montagem.
Enquanto imbecis gritam e pedem a volta da ditadura civil e militar, como em manifestações de 2015, Retratos de Identificação é um filme que vem ocupar uma lacuna de memória no cinema, na história e no Brasil, afirma, emocionada. O documentário conta quatro tragédias. Com quatro rostos. Os de Maria Auxiliadora Lara Barcellos, Antônio Carlos Espinosa e Chael Charles Schreier. Todos dirigentes da Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-Palmares), mesma organização política e militar de Dilma Vana Rousseff Linhares e de Carlos Lamarca, o “capitão da guerrilha”. Dora, como era chamada, suicidou-se no exílio, na Alemanha. Chael Charles Schreier morreu sob torturas em 22 de novembro do turbulento ano de 1969. Torturado, Antônio Roberto Espinosa ficou preso até 1973. Não conseguiu do Brasil sair nem com a captura – não é sequestro, que trata-se de crime comum, não-revolucionário – de três diplomatas – Nobuo Okuchi, cônsul do Japão no Brasil, Ehrenfried Von Holleben, diplomata alemão, e o suíço Giovanni Enrico Bucher
Personagem
O último personagem é Reinaldo Guarany Simões, jovem bigodudo da Ação Libertadora Nacional, a ALN de Carlos Marighella, carbonário baiano filho de um italiano com uma negra da etnia Haussá. Autor do celebrado A Fuga, ele havia sido preso, torturado, mas acabou trocado com a captura do embaixador da Suíça no Brasil, Giovanni Enrico Bucher, em dezembro de 1970. Comandado pela Vanguarda Popular Revolucionária, a VPR, agora sob a direção de Carlos Lamarca e Iara Iavelberg, a operação permitiu a libertação de 70 presos políticos. Os revolucionários foram levados para o Chile. Lá o médico marxista executava a experiência da transição pacífica para o socialismo. O projeto acabou com a deflagração de um golpe de Estado civil e militar, com o apoio dos Estados Unidos (EUA), em 11 de setembro de 1973. O general Augusto Pinochet assumiu o poder e controlou o Estado por 17 anos. Reinaldo Guarany Simões fugiu, com Dora, para a Alemanha, mudou-se para a Suécia e retornou ao Brasil com a anistia sancionada, em 28 de agosto de 1979, pelo último general, João Baptista Figueiredo, aquele que preferiu o odor dos cavalos ao cheiro dos homens e mulheres do povo trabalhador.
Números da repressão
1964 31 de março: golpe de Estado civil e militar
1969 21 de novembro: prisão de Antônio Roberto Espinosa, a sua companheira Maria Auxiliadora Lara Barcelos e Chael Charles Schreier
1973 11 de setembro: golpe no Chile. Antônio Roberto Espinosa é libertado
1976 Ano do suicídio de Maria Auxiliadora Lara Barcelos
1979 28 de agosto: é sancionada a Lei de Anistia
1985 15 de março: é instalada a Nova República
1988 5 de outubro: é promulgada a Constituição Cidadã por Ulysses Guimarães
2009 Anita Leandro começa a pesquisar para seu
Documentário
2014 Retratos de Identificação é finalizado, em outubro
Sai, em dezembro, o Relatorio Final da Comissão Nacional da Verdade
2015 Nenhum militar é julgado por crimes na ditadura
SAIBA MAIS
Retratos de Identificação
Documentário, Brasil, 2014, cor, 71 min
Realização: Anita Leandro / UFRJ / Comissão de Anistia do Ministério da Justiça (Projeto Marcas da Memória)
Direção: Anita Leandro
Imagem: Marcelo Brito
Som Direto: Alexandre Nascimento
Edição e Tratamento das Fotografias: Marta Leandro
Montagem: Anita Leandro
Corte final: Joana Collier e Isabel Castro
Videografismo: Guilherme Hoffmann
Criação Sonora e Mixagem: Edson Secco
Produção: Anita Leandro
Produção de Finalização: Amanda Moleta e Pojó Filmes
Assistente de Produção: Maíra Bosi
Finalização: Link Digital
Exibição: 6 de agosto de 2015, em Pirenópolis (GO)
Avaliação: Excelente

