Finitude e formol
Redação DM
Publicado em 13 de maio de 2017 às 03:21 | Atualizado há 2 anos
Damien Hirst é um dos artistas plásticos contemporâneos mais discutidos da atualidade. Suas obras têm como foco a morte. Vários de seus trabalhos mais reconhecidos incluem cadáveres de animais, o que gera polêmica e protestos, não só por parte de órgãos de proteção à fauna, mas também de uma parcela do público e da crítica especializada, que enxerga seus produtos como uma verdadeira carnificina. Atualmente é o artista mais rico do mundo, com uma fortuna estimada em mais de 215 milhões de libras (o que equivale a cerca de 900 milhões de reais). Também possui outros recordes, como o de exposição individual mais rentável de um único artista, faturando 111 milhões de libras com o leilão da obra Beautiful Inside My Head Forever, em 2008.
Segundo o portal Artnet, criado em 1989, e hoje uma das maiores fontes online de pesquisa sobre artes internacionais, o número de óbitos de seres vivos em nome da arte de Hirst também apresenta números expressivos. Os dados apontam para mais de 913 mil criaturas mortas desde que que criou suas primeiras instalações, há três décadas. Entre as obras mais polêmicas, estão os painéis montados com borboletas mortas (Butterflies on Mars), e peças criadas com corpos de animais em formol, sendo um tubarão o mais conhecido (The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living — em português: A impossibilidade física da morte na mente de alguém vivo). Tais iniciativas despertaram a preocupação da RSPCA, associação britânica de que promove o bem-estar dos animais.
Morte
Outra obra bastante conhecida de Hirst é For the Love of God (Pelo amor de Deus), que trata-se de um crânio humano do século XVIII, coberto por platina e por 8600 diamantes, sendo um deles cor de rosa e em forma de pêra, localizado na testa e conhecido como Skull Star Diamond (Diamante estrela do crânio). Criada em 2007, a obra induz os apreciadores a refletirem sobre sua própria mortalidade, e diferente de outras obras do artista, não recebeu tantas críticas negativas. O custo de produção da caveira ostentação foi de 14 milhões de libras, e seu preço de venda atingiu os 50 milhões de libras, o que gerou uma ampla cobertura da mídia. “Damien Hirst é uma marca, porque a forma de arte do século XXI é o marketing”, pontuou Germaine Greer em artigo para o jornal The Guardian.
As avaliações positivas em relação ao trabalho de Hirst costumam elogiar sua postura enquanto artista-celebridade, bem como suas estratégias de marketing e a visão conceitual da morte embutida em suas obras. É lembrado ainda pelo pioneirismo em uma nova cena de artistas britânicos. “Damien é uma espécie de showman… É muito difícil ser um artista quando existe um grande público e atenção midiática. Damien é visto como uma figura muito importante, existe uma leva de céticos prontos para esfaqueá-lo”, escreveu Sir Nicholas Serota, diretor de museu britânico. Segundo Janet Street Porter, ex editora do jornal The Independent on Sunday, elogiou sua originalidade, que segundo ela levou a arte para novos públicos.
Vários setores da sociedade britânica e mundial reagiram à obra de Hirst, como o político Norman Tebbit, ex-membro do parlamento britânico, que fez duras críticas à sua conduta artística. “As obras do ‘artista’ são pedaços de animais mortos. Há milhares de jovens artistas que não conseguiram um olhar, presumivelmente porque seu trabalho era muito atraente para pessoas sãs”. Em 2008, no documentário The Mona Lisa Curse, o crítico de arte Robert Hughes afirmou que o trabalho de Hirst era “brega” e “absurdo”. Hudges disse que foi um “pequeno milagre” que o valor de 5 milhões de libras fosse atribuído à sua estátua de bronze Virgin Mother, que segundo ele é uma peça genérica, que nada tem de especial em conceito ou técnica.
Início
Hirst começou a atuar profissionalmente no início dos anos 1990. Era visto como um dos nomes mais proeminentes do grupo Young British Artists, formado em 1988 por jovens artistas, a maioria deles com alguma ligação com a Universidade de Londres. Teve uma infância complicada. Nunca conheceu seu pai, e teve vários problemas com a mãe, católica conservadora, durante a adolescência. Em entrevista recente, afirmou não ser um artista proativo, que trabalha com resultados numerosos. Por outro lado, procura ampliá-las a níveis microscópicos. “Eu sou um artista da classe trabalhadora, não sou alguém que tenha muitas ideias. Em compensação, eu examino cada milímetro das ideias que eu tenho, continuamente. Então, trabalho pelos resultados”.




