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Frequências de conexão

Redação DM

Publicado em 16 de julho de 2016 às 03:05 | Atualizado há 1 ano

A enteogenia é uma experiência mais complexa do que uma simples alteração química por psicoativos. “Um é trabalho espiritual, o outro é recreativo”, resume o pesquisador Gabriel Alvarez. Ele continua: “Vários povos usam alucinógenos em contextos rituais. O produto é um tipo de consciência diferente. Para eles, os sonhos também dão outro tipo de consciência. Os rituais podem ser de cura de doenças físicas, espirituais, para resolver problemas existenciais, adquirir novos conhecimentos, poderes”.

Perguntado sobre o motivo da busca por autoconhecimento aliada a uma alteração de percepção por um psicoativo ser um alvo recorrente de preconceito, Gabriel Alvarez responde: “Preconceitos. A percepção sempre é alterada, até pela intersubjetividade”.

Uma das plantas consideradas enteógenas, usadas em rituais de mais de um povo nativo do que hoje é conhecida como América do Norte, é o peyote, que tem como princípio ativo a mescalina. O peyote é um cacto comum nos altiplanos dos Estados Unidos e México. “A legislação mexicana contempla o uso ritual de plantas medicinais como um direto tradicional dos povos indígenas”, informa Gabriel.

Ele é muito comentado nos livros de Carlos Castañeda referido pelo autor como “mescalito”. A substância é usada entre os huichol e outras tribos da América do Norte há milhares de anos.

O uso do peyote foi documentado primeiramente entre o povo asteca há 400 anos. Este cacto possui propriedades que conseguem acalmar estados de ansiedade e proporcionar uma sensação de maior “unidade” entre o indivíduo que o ingere de forma cerimonial e o universo ao seu redor.

O vinho da alma: Ayahuasca

O ayahuasca também é uma bebida considerada enteógena. Muitas vezes ao se referir a esse chá usa-se o termo “droga” de uma forma pejorativa e equivocada. O chá considerado sagrado e obtido através do cozimento de um cipó chamado mariri (Banisteriopsis caapi) e da folha da chacrona (Psicotria viridis). O uso do ayahuasca é uma tradição indígena milenar que existia muito antes do conceito social construído sobre o que são drogas.

De acordo com o pesquisador Carlos Alberto Labate: “O uso de enteógenos por seres humanos existe há, pelo menos, 50 mil anos. Em praticamente todos os cantos da Terra existe ou existiu alguma cultura que usa ou usou estes seres vivos com características especiais para as mais diversas finalidades”.

A bebida é geralmente utilizada em rituais ligados à expansão da consciência e do espírito. Muitos meios de comunicação se referem à bebida como uma droga recreativa e ao mesmo tempo perigosa, ignorando a experiência das pessoas que usam a planta na sua jornada de autoconhecimento.

A revista IstoÉ, por exemplo, em uma matéria sobre o ayahuasca, escreveu a seguinte chamada: “O governo autoriza o uso do chá alucinógeno em rituais religiosos, mesmo com casos de morte após o seu consumo. A medida abre um novo e perigoso precedente na discussão sobre a legalização das drogas”.

Condenar uma prática milenar baseado em poucos casos, não comprovados, de complicações, como do universitário Fernando Henrique Queiroz Tavares, se mostra uma medida de extremo simplismo. Fernando, que na época tinha 19 nos, veio a óbito após participar de um ritual do Daime em que ingeriu o ayahuasca. A morte foi noticiada como decorrente do uso do chá, porém a família informou que ele era portador de uma doença congênita que comprometia coração e pulmões.

 

Autoconhecimento

A estudante Larissa Batista conta sua experiência com a bebida. Ela começa com os motivos que a levaram a procurar em uma cerimônia do Santo Daime o uso da substância enteógena. “Eu andava me sentindo mal, bem mal, me faltava algo e eu não sabia o que era. Tentava pensar no que poderia ser e não conseguia encontrar resposta. E às vezes é no momento de desespero que a gente pensa em algo além. Tenho minhas crenças e minha curiosidade acerca de religiões que fogem dessas predominantes, católica, evangélica, que, pra mim, são farinha do mesmo saco. Não consigo engolir. E essas minhas crenças não se encaixavam ali”.

Larissa continua sua história. “Conversando com uma amiga, do Daime, sobre esses sentimentos ruins que estavam me esmagando, ela me convidou. Eu pensei por um tempo, até que a coisa realmente apertou. Além do mal-estar, eu sentia falta de me conectar com algo, então fui. É isso, fui levada pela minha necessidade de me agarrar a algo, pela necessidade de ter minha serenidade de volta e pela curiosidade. Ah! E também autoconhecimento”.

Sobre a ligação do ayahuasca com a busca por uma visão mais ampliada de si mesmo, ela conta: “Já tinha ouvido falar de experiências com a ayahuasca, em que as pessoas têm um contato profundo consigo. E eu sentia que precisava disso também”.

Larissa conta como é a experiência de tomar o chá durante uma cerimônia do Daime: “Os primeiros minutos que seguiram o primeiro despacho (cada vez que se toma a bebida é um despacho) foi de silêncio, antes de começarmos a cantar os hinos. Nesse momento, em que cada um fica refletindo consigo mesmo, eu tive vontade de chorar e alegria. De amor, mesmo, eu diria. Queria abraçar todo mundo com a maior força que tenho em mim! Tive uma sensação de pertencimento e de conexão, com tudo que há, tão, mas tão imensa. Coisa que eu não imaginava que sentiria, e que, acredito, muita gente nem sequer pensa que possa existir”.

Mesmo que para muitas pessoas o uso desse chá pareça uma prática condenável, ele traz uma experiência importante e construtiva para muitos, como no caso de Larissa, que termina dizendo: “A sensação começou no início do trabalho e se estendeu até várias semanas depois. Eu me senti renovada, livre, cheia de amor e parte do mundo de verdade. E dizer isso talvez até pareça exagero pra quem lê, mas pra mim nem parece o suficiente”.

[box title=”Outras plantas”]

JUREMA PRETA

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Jurema preta (Mimosa hostilis) é uma árvore pertencente à família Fabaceae, da ordem das Fabales típica da Caatinga, ocorrendo praticamente em quase todo Nordeste brasileiro. Bem adaptada para um clima seco, possui folhas pequenas alternas, compostas e bipinadas com vários pares de pinas opostas. Possui espinhos e apresenta bastante resistência às secas, com grande capacidade de rebrota durante todo o ano. Usada pelos índios da etnia xucurus-cariris em conjunto com a jurema branca (Mimosa verrucosa). É utilizada tradicionalmente para fins medicinais e religiosos. Sua casca é usada para fins medicinais e a casca de sua raiz é a parte da planta usada nas cerimônias religiosas, pois possui maior parte dos alcaloides psicoativos. Muitas vezes é utilizada em conjunto com iMao’s, como  um análogo a ayahusca. Seu princípio ativo é a mesma triptamina presente no “vinho das almas”, o DMT, presente em toda a planta, mas em quantidade significativa apenas nas cascas.

 

SÁLVIA DIVINORUM

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A Salvia divinorum, também chamada de “Ojos de la pastora” e “Herba de los dioses“, é a única entre milhares de espécies do gênero Salvia que apresenta efeitos psicoativos (embora suspeite-se que outras espécies possam conter essas propriedades). Originária do México na Sierra Mazateca, é considerada rara, o que torna difícil a sua obtenção. Dificilmente se reproduz por sementes, sendo multiplicada através de cortes enraizados (propagação vegetativa). Seu efeito é extremamente forte, principalmente quando usados extratos potencializados, que nada mais são do que folhas concentradas com a substância psicoativa. É extremamente recomendável que os futuros usuários venham a se informar sobre seus efeitos antes de se aventurarem. Não é uma erva a ser usada em festas, raves ou com multidões, pois exige uma certa discrição da parte do usuário para que ele se sinta à vontade. Não é uma droga recreativa e pode ser traumática quando usada nestas condições. Tem como princípio ativo a Salvinorina A, que, no entanto, não se trata de alcaloide, mas de um diterpeno, com ação diferente da maioria das substâncias psicoativas. Pesquisas atuais sobre o efeito da salvinorina no organismo revelaram que, além de não ser uma substância que leva à dependência, apresenta propriedade antidepressiva, analgésica e ainda mostra-se promissora para o desenvolvimento de fármacos para o tratamento da esquizofrenia e dependência química.

 

TROMBETA

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É o nome popular dado no Brasil às plantas das espécies Brugmansia suaveolens e Datura stramonium. São também conhecidas como canudo, lírio, zabumba, saia-branca e trombeteira. É possível encontrá-la em várias regiões do País. Na Medicina, são usadas como fitoterápicos, para combater distúrbios intestinais. A trombeta é uma planta anticolinérgica conhecida pela sua flor, que é utilizada para elaborar chás alucinógenos. Os efeitos mentais produzido pelo uso do chá são delírios e alucinações.  É considerado como droga de abuso, seu uso é muito frequente em baladas como “Boa-noite, Cinderela”, pois a vítima, após o uso, não se lembra do ocorrido no dia anterior. Entre os entusiastas da psicodelia há muita discussão sobre a trombeta ser ou não considerada um enteógeno, por causa de seus efeitos muito particulares e da ausência de lembrança da experiência. Há relatos também de prejuízos na visão durante alguns dias após o uso..[/box]

 

 

 

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