Desativada 2

Interior em festa

Redação DM

Publicado em 30 de dezembro de 2016 às 00:25 | Atualizado há 2 anos

De acordo com o capítulo 2 do Evangelho de Mateus, os Três Reis Magos foram convocados por Herodes para que levassem ao recém nascido Jesus, em Belém da Judeia, incenso, mirra e ouro em sinal de adoração. Os magos Gaspar, Baltazar e Belchior cumpriram a ordem rei, acreditando que ele também tinha a intenção de idolatrar o novo Messias, quando na verdade Herodes temia que ele tomasse-lhe o posto e desejava descobrir seu paradeiro para eliminá-lo. É com base no trajeto que percorreram os Magos ao encontro de Jesus que surge a tradicional Folia de Reis, ou Festa de Santos Reis: uma das comemorações folclóricas mais tradicionais do país. A tradição surgiu na Espanha e ganhou força no Brasil no século XIX. Em Goiás, a festa movimenta várias cidades do interior.

Uma das encenações mais tradicionais dessa saga acontece em Itaguari, cidade com cerca de cinco mil habitantes a 103 quilômetros de Goiânia. Quem conta a história da Folia da cidade é o poeta Adão Salvador, que afirma que a tradição surgiu na região antes mesmo de Itaguari consolidar-se como município. “No ano de 1879, a região rural da fazenda Brejo Grande realizava o primeiro giro embasado na Fé Religiosa dos Católicos, e cumprimentos das promessas, votos, e agradecimentos. Até hoje a fé e a tradição cumpre todos os anos o mesmo ritual, muda os tempos mas a tradição vigora, faz os giros durante a noite em dois grupos, chamados de galhos, isto depois das nove horas, horário de verão, indo até as 5 horas”.

Folclore

O convite do poeta Adão Salvador estende-se não só àqueles que vibram e se emocionam ao presenciar a simulação do trajeto dos Reis Magos em busca de Cristo. Ele ressalta ainda a importância cultural do evento, um dos momentos de apoteose do folclore goiano, que serve de matéria-prima para a construção de estudos sobre a memória tradicional de Goiás. “Conhecer a cultura das Folias de Reis, de Itaguari, faz parte da imprensa e instituições educacionais e culturais, para finalidade de pesquisas e até pós-graduações. Venha você e traga família e amigos”, convida. A folia tem início no último dia do ano, e continua até 6 de janeiro, dia do encerramento, reconhecido pelo calendário cultural do Estado de Goiás.

Outras informações sobre Folia Goiana do Brejo Grande estão registradas no livro História de Itaguari – De Campestre à capital da moda íntima, lançado em 2013 pelos pesquisadores Joaquim Marques Cardoso, José Eduardo do Couto Neto e Osmar José Jerônimo Neto. Eles situam a Folia Goiana do Brejo Grande como uma das mais antigas da região de Itaguari, que conta também com outros grupos de foliões. “É o grupo de folia mais antigo que sobreviveu até os dias atuais nesta região. Surgiu por volta do ano de 1900 sendo sua criação atribuída a João Rosa. Os foliões, comandados por um mestre de cantoria, chegam de surpresa às casas. A folia canta pedindo permissão para entrar na residência. Sendo aceita a comitiva adentra a casa e começa a cantoria pedindo ofertas e abençoando os proprietários”.

Durante o dia, as cerimônias são interrompidas para o momento de descanso dos foliões. É nesse momento que as fazendas que recebem a festa (chamadas de “pouso”) tornam-se lugar de celebração e confraternização. Segundo os autores do livro História de Itaguari, a mais antiga festa da cidade, da de Brejo Grande, difere-se das outras pelo horário no qual é realizada. “Difere dos demais grupos por fazer o giro durante a noite e realizar o pouso durante o dia”. Com a consolidação da zona urbana da cidade, o caminho traçado pelos foliões sofreu algumas alterações: “O trajeto da folia abrange as regiões do Brejo Grande e da Olaria. Nos últimos anos têm aparecido na zona urbana de Itaguari cantando em casas de antigos foliões”, conta o livro.

Adão Salvador explica que os horários estabelecidos para o evento tem como referência as escrituras bíblicas que narram a Estrela do Oriente como guia dos Magos na busca pelo menino Jesus. “A folia começa no dia 31 de dezembro e vai até às três horas do dia 6 de janeiro, pois o encerramento não pode ir além das cinco horas. O motivo destes horários vincula com o fato dos pastores terem viajado em seguimento da estrela guia”. Para o poeta, cada cidade agrega peculiaridades ao evento. “Outros municípios têm suas culturas e dentre todos cada um desenvolveu melhor uma especialidade, o povo de Itaguari, desde o século XIX, dedicou-se com afinco à cultura da Folia de Reis, e hoje orgulha-se de uma das festas mais bem desenvolvidas do Estado e porque não dizer do País.”

São Francisco

Outra encenação tradicional do encontro dos Reis Magos com Jesus é realizada no município de São Francisco de Goiás, 100 quilômetros distante de Goiânia. A festividade foi registrada no documentário Viva – Um olhar sobre a Folia dos Santos Reis, produzido em 2013 pela produtora Coma Livre. O vídeo traz entrevistas com os organizadores da festa e registros da cerimônia. A catira, manifestação cultural entoada ao som das botas e das palmas bastante popular no interior de Goiás. Na cidade vizinha, Jesúpolis (separada de São Francisco por apenas 18 quilômetros) existe uma grande devoção aos Reis Magos, materializada em um monumento próximo à Igreja Matriz do município.

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