Desativada 2

Moralização e escandalização das ocupações escolares em Goiás

Redação DM

Publicado em 18 de janeiro de 2016 às 22:28 | Atualizado há 1 ano

Paralaxe:aparente deslocamento angular de um corpo celeste devido ao fato de estar sendo observado a partir da superfície e não do centro da Terra ou por estar sendo observado a partir da Terra e não do Sol.

A física ensinou-nos que grandes corpos de massa (o sol, por exemplo) conseguem exercer uma gravidade tal, que até mesmo a luz sofre desvios em sua trajetória quando em contato com esta força gravitacional. Um objeto está em uma posição, mas, por conta do desvio provocado por algum corpo extremamente denso no meio da trajetória da luz até os nossos olhos, o objeto parece estar não no ponto mas no ponto. A este fenômeno dá-se o nome de paralaxe. Não foi o objeto que mudou de posição, mas a luz pela qual o vemos é que sofreu desvios, dando a impressão de que o objeto mudou de lugar.

A paralaxe, contudo, parece ser um fenômeno extensível para além dos eventos do mundo natural. A paralaxe ocorre também na política. A minha analogia pode parecer tosca (e talvez de fato seja), mas acompanhem-me na tentativa de demonstrá-la. Com esta demonstração espero comprovar que, tal qual um grande corpo de massa consegue deslocar, aparentemente, a posição em que um corpo/objeto se encontra, o governo de goiás, com seus artifícios, aparentemente, desloca a posição dos problemas.

As Organizações Sociais continuam em debate. Os diversos problemas de ordem administrativa com relação à implantação deste sistema só crescem a cada dia. E o governo continua fazendo-se de mouco ante os sistemáticos e reiterados pedidos de rediscussão desta política pública. Recentemente, novamente, requereu judicialmente a reintegração de posse de algumas das escolas ocupadas, mostrando assim que diálogo e debate amplo e democrático não são exatamente as prioridades do governo.

Do ponto de vista “fiscal”, ser a favor de implantar as OS só significa aumento direto e indireto dos custos escolares com os quais terão que arcar estudantes e suas famílias. “A escola continua sendo pública”, dizem, mas o próprio governo já admitiu a possibilidade das descabidas “contribuições voluntárias”, que como já vimos na experiência dos colégios militares, são, longe de “voluntárias”, compulsórias. Além de diversos outros aspectos, que consolidam-se, basicamente, em: I) precarização do trabalho dos professores, o que diminui a qualidade de ensino e de vida tanto dos alunos quanto dos profissionais da educação; II) criação e ampliação de gastos, diretos e indiretos, com os quais terão de arcar estudantes e familiares.

Do ponto de vista “educacional”, o governo fez questão de anunciar aos ventos que as “escolas charter americanas” são o modelo para a implantação das OS nas nossas escolas de Goiás. Fico envergonhado de ser eu a apontar isso em um jornal público, e não algum quadro técnico que o governo tenha à disposição, mas diversos estudos de longo prazo realizados nos estados unidos e em outras localidades com esse modelo de ensino comprovaram que as notas gerais em índices de avaliação das escolas regidas dessa maneira não aumentaram, mas caíram! Além de outros agravantes: aumento da segregação geográfica, racial e socioeconômica. Se o governo não tinha conhecimento de tais dados, sugiro fortemente que os procure, porque se, como o governador afirma, “ele só quer o melhor para o estado”, claramente implantar um modelo como o das “charters americanas” não é o caminho.

Do ponto de vista educacional, portanto, ser a favor das OS é ser a favor da piora do sistema de ensino. Isso dito não é o mesmo que afirmar que as escolas públicas vão às maravilhas, é apenas afirmar, com dados, que as OS não contribuem em nada para a melhoria destas escolas. E mais, ainda pioram.

Este é o estado geral das coisas. Com isso, ocorrem as ocupações escolares, já que esta ação foi a única encontrada para pressionar um governo, que não cumpre o seu papel de discutir democrática e amplamente suas propostas de política pública, a fazê-lo.

Mas, como uma criança geniosa e teimosa, o governo não admite seu equívoco – o que seria perfeitamente normal e salutar em um regime democrático – mas persiste no não diálogo e nessa política pública indigesta. Tal atitude certamente parece não pertencer aos moldes de um regime democrático, mas aos moldes de um outro tipo de regime onde uma única figura está “sempre certa”, “sempre faz o melhor”, “sempre escolhe o que é bom”, “nunca erra”… sabemos aonde este tipo de lógica leva e que fim tiveram os regimes que a adotaram.

E aí, perseverantes leitores, surge a paralaxe. Com todos estes problemas em jogo o governo muda a posição aparente do problema: começa a escandalizar e polemizar sobre as ocupações. Primeiro com a falácia, já desmentida, de que não seriam secundaristas a ocupar as escolas, mas universitários e “agentes ideológicos” infiltrados. Com uma história conspirativa destas os quadros do governo poderiam até abandonar suas carreiras burocráticas para enveredar pelo campo das megaproduções cinematográficas.

Depois de tal falácia ter sido desmontada pelos próprios estudantes em luta, agora o governo golpeia outros pontos. E eis que surgem agora boatos e “notícias” sobre consumo de drogas e relações “libidinosas” dentro das ocupações. Desrespeitando qualquer padrão ético jornalístico mínimo, tais “informes” têm sido elaborados não a partir de qualquer fato objetivo concreto, ou de informações averiguadas. A veiculação de tais notícias nunca tem o tom de preocupação com o alegado “problema”, mas sim a preocupação de deslegitimar a luta política encampada pelos estudantes em prol de melhorias na educação. E tais acusações ainda são postas como se estas coisas ocorressem periodicamente, como se o movimento de estudantes encampasse e endossasse tais práticas, algo que o movimento já afirmou não fazer.

O mesmo governo que envia a polícia militar para “coibir” estudantes em exercício de seu direito de manifestação (gerando as cenas lamentáveis de abuso e despreparo por parte da PM, que circulam já na internet em vídeos e fotos), diz agora estar “preocupado com a integridade física e moral” destes mesmos estudantes.

Se essa preocupação é real, então a questão não é polemizar ou escandalizar grosseiramente as ocupações, mas discutir as razões de sua ocorrência. Por que é que ocorrem? Porque o governo recusa-se abrir o diálogo, ser democrático e respeitar o direito popular de discordar de sua proposta de política pública.

Onde o governo quer que enxerguemos os problemas? Na suposta libertinagem, baseada em boatos e comentários incertos e tangentes, ocorrente nestas ocupações. Onde está verdadeiramente o problema? Na forma antidemocrática que este governo utiliza para implantar suas políticas públicas, o que gerou, por consequência, a necessidade das ocupações escolares.

Governo, sejamos práticos. Se você está mesmo preocupado com estudantes e seus familiares, é só atacar o problema em sua raiz: reveja a política das OS.

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