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MPB, rock, literatura e AVC

Redação DM

Publicado em 29 de novembro de 2016 às 00:52 | Atualizado há 2 anos

  •  Do caos ao cosmos, do cosmos ao cais – Dos mergulhos nos abismos líricos da dor
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  •  Operador do Direito é um dos pioneiros do rock pós-punk na Capital, com o 17º Sexo

– Re­a­pren­di a an­dar com mi­nhas pró­pri­as per­nas, após seis mes­es em ci­ma de uma ca­dei­ra de ro­das. Es­tou pro­gres­si­va­men­te me­lho­ran­do o pa­drão se­que­lar de AVC, de an­dar ar­ras­tan­do a per­na atin­gi­da, dan­do ver­da­dei­ros chu­tes, co­mo se fos­se o ca­pi­tão gan­cho.

 

As­sim o pro­cu­ra­dor do Es­ta­do, es­cri­tor, mú­si­co, exí­mio gui­tar­ris­ta, da­que­les que lem­bram Jimmy Pa­ge, o íco­ne do Led Ze­pel­lin, Fran­cis­co Kle­ber Pau­lo Pa­es Lan­dim re­la­ta a sua lu­ta di­á­ria pa­ra re­cu­pe­rar-se de um Aci­den­te Vas­cu­lar Ce­re­bral. Um não, dois. O pri­mei­ro, no ano de 2010. O se­gun­do ocor­ri­do, em 2014. O úl­ti­mo mais for­te do que o ini­ci­al.

– No­vas e ex­te­nu­an­tes ses­sões de fi­si­o­te­ra­pi­as, uso de jo­gos in­te­ra­ti­vos e ócu­los 3D, es­se re­cen­te­men­te usa­do pa­ra pa­ci­en­tes de Parkin­son

 

Cult

Com gos­to re­fi­na­do pa­ra a li­te­ra­tu­ra, ele lan­ça, ho­je, 29 de de­zem­bro, o seu pri­mei­ro li­vro. O edi­tor é o jor­na­lis­ta Iu­ri Go­di­nho, Con­ta­to Co­mu­ni­ca­ção. Os dois são par­cei­ros em pro­du­ções es­té­ti­cas e li­te­rá­ri­as. O tí­tu­lo do li­vro é Do ca­os ao cos­mos, do cos­mos ao cais – Dos mer­gu­lhos nos abis­mos lí­ri­cos da dor [2016]. Os tex­tos são acom­pa­nha­dos por re­fe­rên­cias mu­si­cais.

– O que me in­co­mo­da ain­da é mi­nha mão es­quer­da, que ain­da não pos­sui os mo­vi­men­tos fi­nos e ex­ten­são ne­ces­sá­rias pa­ra eu to­car mi­nhas gui­tar­ras ou mes­mo abo­to­ar com tran­qui­li­da­de e agi­li­da­de uma ca­mi­sa, mas es­tou na lu­ta e te­nho pro­gre­di­do len­ta, gra­du­al e vi­si­vel­men­te. Che­ga­rei lá, se Deus qui­ser, e se­rá o dia mais fe­liz da mi­nha exis­tên­cia.

Fi­lho de um ju­iz de di­rei­to per­se­gui­do pe­la di­ta­du­ra ci­vil e mi­li­tar, Hum­ber­to Pa­es Lan­dim, e de uma ar­tis­ta que to­ca san­fo­na, Lour­des Pa­es Lan­dim, Fran­cis­co Kle­ber Pau­lo Pa­es Lan­dim te­ve uma só­li­da for­ma­ção cul­tu­ral. Eru­di­ta. Na in­fân­cia, era go­lei­ro. Dos bons. O seu ti­me do co­ra­ção é o Flu­mi­nen­se. Apren­deu a to­car vi­o­lão, gai­ta e san­fo­na. Ele ga­nhou fes­ti­val de mú­si­ca.

Ri­ve­li­no, pro­pri­e­tá­rio de um es­pes­so bi­go­de, era um de su­as re­fe­rên­cias nas La­ran­jei­ras. Lo­go lo­go en­trou pa­ra uma tur­ma. Jo­vens re­bel­des clas­si­fi­ca­dos pe­la Tur­ma do Ma­né de Os Re­don­dos. Fran­cis­co Kle­ber Pau­lo Pa­es Lan­dim in­gres­sou na ban­da pi­o­nei­ra do rock pós-punk em Go­i­â­nia, 17º Se­xo. Se­xo, po­lí­ti­ca e rock´roll. Não sei se ha­vi­am dro­gas no cir­cui­to.

 

17º Se­xo

O tem­po pas­sa­va. Os ri­vais eram do “Eclip­se”. A re­fe­rên­cia pe­jo­ra­ti­va, “Krisps”. Uma ga­le­ra do “ba­la­co­ba­co”. Fran­cis­co Kle­ber Pau­lo Pa­es Lan­dim, Mar­co Au­ré­lio Cha­gas, Re­na­to Mar­ra, Wag­ner Ba­te­ra, Jo­ão Ci­rur­gi, Ri­car­do Di­as, Se­bas­ti­ão Te­a­tin­ni, Déo Mel­ga­do, Ju­li­an Mel­ga­ço. Ele man­ti­nha uma só­li­da ami­za­de com Bru­no Ben­fi­ca Ma­ri­nho e Mar­ce­lo Ben­fi­ca Ma­ri­nho.

Fran­cis­co Kle­ber Pau­lo Pa­es Lan­dim pro­du­zia po­e­sia com Iu­ri Go­di­nho. Ele es­ta­be­le­ce­ra um re­la­ci­o­na­men­to cul­tu­ral com Ebert Vên­cio, ho­je mé­di­co. O ho­mem for­mou-se em Di­rei­to e lo­go aca­bou apro­va­do no con­cor­ri­do con­cur­so pú­bli­co pa­ra Pro­cu­ra­dor do Es­ta­do. Cas­ou-se,  te­ve fi­lho e se­pa­rou-se. Na­da es­tra­nho à con­tem­po­ra­ne­i­da­de. Ape­sar de no­vo e ma­gro, o AVC

– Do pri­mei­ro AVC – três mes­es após –, já es­ta­va fa­lan­do e es­cre­ven­do com flu­ên­cia, sem he­si­ta­ções.

Tan­to as­sim o é que lo­go re­to­mei meu tra­ba­lho co­mo pro­cu­ra­dor do Es­ta­do, re­cor­da-se emo­cio­na­do o ve­lho rockei­ro, po­e­ta li­sér­gi­co e es­cri­tor. Na en­tão Re­pre­sen­ta­ção da Pro­cu­ra­do­ria-Ge­ral do Es­ta­do exis­ten­te na Se­cre­ta­ria Es­ta­du­al de Edu­ca­ção, e que era a se­gun­da mai­or Pas­ta do Es­ta­do em pro­ces­sos ju­rídi­co-ad­mi­nis­tra­ti­vos e pro­ble­mas de to­da or­dem, diz

– Mil re­u­ni­ões, de­ci­sões que ha­vi­am de ser to­ma­das ime­di­a­ta­men­te…

 

No­vo AVC

Ho­je es­tou en­fren­tan­do de no­vo as con­se­quên­cias de ou­tro AVC, só que ain­da mais bru­tal, com a per­da de mo­vi­men­tos, in­for­ma ao DMRe­vis­ta. Não te­nho dú­vi­das, fri­sa. “Se da pri­mei­ra vez tu­do vol­tou ao nor­mal, te­nho a fé ina­ba­lá­vel de que uma ho­ra tu­do se­rá co­mo an­tes, sob no­va rou­pa­gem, só que o tem­po de re­cu­pe­ra­ção des­sa vez tem si­do e se­rá mai­or que an­tes.”

– Mo­ti­vo: di­an­te da di­fe­ren­te mag­ni­tu­de da le­são ce­re­bral des­se der­ra­me, que me de­to­nou uma par­te con­si­de­rá­vel dos meus neu­rô­ni­os, con­su­min­do meus mo­vi­men­tos.

De bem com a vi­da, o le­ve Fran­cis­co Kle­ber Pau­lo Pa­es Lan­dim é ta­xa­ti­vo. “No meio de tan­ta dor e afli­ção, des­co­bri que rir de nós mes­mos é o me­lhor re­mé­dio não só pa­ra su­pe­rar o so­fri­men­to e o re­vés, mas so­bre­tu­do pa­ra tran­scen­der em pa­ra­gens e pai­sa­gens mais ame­nas e uni­ver­sos mais evo­luí­dos, já que a re­a­li­da­de crua é re­fú­gio dos que não tem ima­gi­na­ção.”

 

Cho­ro com­pul­si­vo

As­sim co­mo ja­mais me es­que­ce­rei da emo­ção e do cho­ro com­pul­si­vo que ti­ve quan­do, após mes­es de in­ter­na­ção, con­se­gui dar meus pri­mei­ros pas­sos no Crer, con­ta. Er­guen­do-me da ca­dei­ra de ro­das, re­la­ta. Ja­mais me es­que­ce­rei do pri­mei­ro tom­bo que le­vei no Hos­pi­tal após o aci­den­te vas­cu­lar ce­re­bral, tal co­mo aque­la an­ti­ga pro­pa­gan­da, iro­ni­za.

– O pri­mei­ro sou­ti­en a gen­te não es­que­ce.

 

 

Trechos do livro

Hoje acordei especialmente cansado. Essa rotina massacrante de mil e uma terapias que faço cotidianamente não é fácil. Perdi os movimentos em minutos e há mais de um ano travo uma luta diária contra a famigerada espasticidade, que aprisiona os movimentos como um carcereiro impiedoso acorrentando sua liberdade.

E haja fisioterapias, alongamentos doídos, aplicações doloridíssimas de botox nos músculos, repetições de movimentos que aparentemente são banais pra toda pessoa, mas extremamente exaustivos para um cérebro combalido por uma lesão pós-AVC. Corro o dia inteiro. É terapia oriental, hidroterapia, fisioterapias, acupuntura, estimulação intracraniana e outras coisitas mais, para se ganhar milímetros de melhoria por semana.

Então, é natural que às vezes a gente sucumba ao cansaço físico e ao stress emocional. A impossibilidade momentânea de tocar meus instrumentos, a dificuldade que hoje possuo de alcançar agudos com minha voz, que anteriormente era o natural – costumo brincar comigo mesmo dizendo que minha voz, de soprano virou um assoprando.

Alguns amigos brincam construtivamente: “Isso é bom Chico Kleber, finalmente você cantará com voz de homem e não com voz feminina.” Não é fácil, embora a gente se acostume dolorosamente com o perrengue de executar tarefas simples, como abotoar uma camisa, segurar um copo ou mesmo assoviar. Também não é so easy afastar do trabalho, do convívio com os colegas de trabalho, da vida normal, a impossibilidade momentânea de dirigir.

Tudo isso vai testando sua paciência, medindo suas forças à exaustão. Foi dentro desse contexto que hoje eu dei uma rateada no árduo caminho da reabilitação motora, física e emocional e fiquei muito down. Contudo, essa minha bicudice não poderia durar o dia inteiro, como não durou. Às 16 horas quando entrei na piscina do Crer na aula de hidroterapia logo chegou o pequenino amigo João Augusto, com seu sorrisão mais aberto, sincero e puro, desmontando minha marra em poucos segundos.

Pra sepultar de vez minha fraqueza, outro fato da tarde foi marcante para me levantar. Outro pequenino que faz hidro conosco, o Enzo, de dois aninhos, que teve paralisia cerebral, foi colocado experimentalmente e pela primeira vez no andador do João, andador esse que possui um desenho que possibilita melhor locomoção. Para surpresa de sua mãe e de todos que estavam na piscina, o pequeno Enzo saiu andando na máquina do Litle John.

Foi muito emocionante. Segurei as lágrimas pra não dar vexame, mas minha alma deu um sorrisão interior. Pronto, recebia ali uma lição pra melhor me ressintonizar com as boas frequências e a prosseguir com mais força e energia os passos da minha árdua caminhada. É. Um sorriso pura muda rotas, muda o mundo imediatamente, em poucos segundos.

 iuri

 

Serviço

 

Lançamento

Livro: “Do caos ao cosmos, do cosmos ao cais dos mergulhos nos abismos líricos da dor”

Edição: Novembro de 2016

Editora: Contato Comunicação

Autor: Francisco Kleber Paulo Paes Landim

Editor: Iuri Godinho

Avaliação da obra: Excelente

Data: Hoje, terça-feira

Horário: 19h30

Local: Hyundai Caoa

 

 

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