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‘Nouvelle Vague’ celebra cinema revolucionário de Jean-Luc Godard

Redação

Publicado em 18 de dezembro de 2025 às 20:40 | Atualizado há 6 meses

Godard (à esquerda, de óculos) emerge diante da plateia interpretado pelo ator Marbeck
Godard (à esquerda, de óculos) emerge diante da plateia interpretado pelo ator Marbeck

Marcus Vinícius Beck

Depois de anos falando sobre filmes na revista Cahiers du Cinéma, um grupo de jovens trocou no fim dos anos 1950 a lauda jornalística pela câmera. Nascia a nouvelle vague, movimento francês que igualou o cinema ao melhor da pintura, da música e da literatura.

Em 1959, Claude Chabrol dirigia seus filmes e François Truffaut era premiado em Cannes. Respeitados nas rodas cinéfilas, os cineastas aliciaram Georges de Beauregard para que este bancasse o primeiro longa do camarada Jean-Luc Godard, o corrosivo crítico da Cahiers.

No dia 17 de agosto daquele ano, Godard escrevia ao produtor: “Espero que lhe traga uma boa grana. Agradeço sua confiança em mim. Espero que o seu filme seja de uma bela simplicidade ou de uma simples beleza. Sinto muito medo. Estou muito emocionado.”

Era o primeiro dia de filmagem: “Acossado”, ou “À Bout de Souffle”, como se fala em francês, seria enfim rodado. Transcorridos sessenta e seis anos, esse momento é registrado na película “Nouvelle Vague”, que será exibida nesta sexta (19/12) no Cine Cultura, às 19h30.

Eleito um dos dez melhores filmes de 2025 pela Cahiers du Cinéma, o longa coleciona elogios. A obra, nome provável para o Oscar, concorre ao Globo de Ouro em Melhor Filme (Comédia ou Musical). De fato, o cineasta Richard Linklater fez um tributo apreciável.

Ainda assim, o crítico Marcos Uzal indica na Cahiers: “Para admirar ‘Nouvelle Vague’, é preciso aceitar que Godard se torna um personagem ficcional; ou seja, não exigir fidelidade, mas sim desfrutar das projeções que sua imagem e mito permitem, com seus clichês.”

Metalinguagem

Godard emerge diante da plateia interpretado por Marbeck. Jean Seberg, por sua vez, revive na atuação de Zoey Deutch, enquanto Jean-Paul Belmondo renasce com a expressividade de Aubry Dullin. Sim, trata-se de um cinema metalinguístico. O filme do filme, em resumo.

Embora em preto e branco, com certa insolência e alguma malandragem, “Nouvelle Vague” não parece um pastiche nem mesmo um plágio escancarado, tal qual Godard apregoava. Ao contrário, o filme apresenta à plateia — especialmente aos jovens — algo godardiano.

Em 1959, o anti-herói foi vivido pelo então desconhecido Jean-Paul Belmondo. Como atriz principal, Godard queria alguém que fosse afamada. A estadunidense Jean Seberg estrelara “Santa Joana”, de 1957, sob a direção de Otto Preminger. Godard bateu o pé: é ela.

Para as filmagens, Seberg raspou os cabelos, antecipando o que se tornaria moda entre as mulheres nos anos 1960. Esse visual moderno, por sinal, resultou charmoso — seu pescoço, sexy, ficou à mostra, com suas curvas delineantes e sua pele delicada, meiga.

Belmondo aparece, aqui e ali, com cueca samba-canção. Juntos, ele e ela filosofam: Patricia fala de William Faulkner, de Pablo Picasso e de Pierre-Auguste Renoir. Ironia da vida, Seberg foi enterrada, em 1979, no cemitério de Montparnasse, próximo a Baudelaire, Sartre e Beauvoir.

Atriz norte-americana contracenou no filme com Jean-Paul Belmondo

Por “Acossado”, Seberg recebeu US$ 15 mil, um sexto do orçamento de que Godard dispunha. Na história, Michel Poiccard, de 26 anos (idade de Belmondo), rouba e mata. Em Paris, encontra a estudante Patricia Franchini, 20, que vende jornal na Champs Élysées.

De repente, Michel se apaixona por Patricia. Como diz o jornalista Roberto Muggiati, o enredo segue o esquema do boy meets girl — sem, todavia, happy end. O mocinho, afirma Muggiati, “é um bad boy e a mocinha acaba se revelando uma bad girl, uma delatora”.

O rosto do anti-herói está por toda parte — inclusive na primeira página do New York Herald Tribune. Na trilha sonora, o jazz do pianista Martial Solal celebra Paris. As cenas urbanas, aceleradas e espontâneas, são feitas sem permissão. Uma loucura, sem dúvida.

Escrevendo diálogos durante a madrugada, numa subversão que muitos duvidavam se fosse funcionar, as filmagens duraram 23 dias — indo de agosto a setembro de 1959. Desde então, a montagem é descrita por estudiosos como “revolucionária”. Rompia as amarras.

Sem a continuidade clássica, tempo sendo suprimido, câmera na mão, narrativa fragmentada — com inclinação para a digressão. A fotografia de Raoul Coutard, a agilidade de Belmondo e a modernidade de Seberg transformam o cinema. Eram jovens à procura de mudança.

É aqui que “Nouvelle Vague” acerta — Richard Linklater não atualiza Godard. “Em vez disso, o traz para o presente por meio de suas escolhas de filmagem: essencialmente, um grupo de jovens atores reunidos para uma aventura”, escreve Marcos Uzal na Cahiers.

“Assim, abandonamos rapidamente o jogo das comparações, porque esse não é o objetivo. O desafio é mais aberto, reside no reino do ‘é como…’ das crianças: ‘É como se eu fosse um diretor francês do final dos anos 50 e você fosse Godard, Truffaut e companhia…’”, acentua.

Godard, sem modéstia, acreditava que “Acossado” era o “melhor filme atual”. Mais do que isso, é uma obra que modernizou o cinema, tal qual James Joyce fizera em “Ulisses” com a literatura. Exatamente o que mostra Richard Linklater em “Nouvelle Vague”.

Jean Seberg (à direita) revive na atuação de Zoey Deutch, enquanto Jean-Paul Belmondo (à esquerda) renasce com a expressividade de Aubry Dullin

Nouvelle Vague

Direção: Richard Linklater

Duração: 1h45m

Onde: Cine Cultura (Praça Cívica)

Ingresso: R$ 20 (inteira)

Fotos: Netflix/ Divulgação


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