Desativada 2

O dia em que a literatura chorou

Redação DM

Publicado em 14 de abril de 2015 às 01:17 | Atualizado há 1 ano

Ontem dois romancistas e intelectuais do século 20 marcaram o mundo da literatura, a Alemanha e a América Latina, com suas mortes. O jornalista, historiador, ensaísta e ficcionista uruguaio Eduardo Galeano e o dramaturgo, poeta, intelectual e artista plástico alemão Günter Grass.

Eduardo Galeano nasceu em 3 de setembro de 1940 em Montevidéu. Iniciou sua carreira jornalística muito cedo. Aos 14 anos já vendia charges para o jornal El Sol, do Partido Socialista uruguaio. Em 1960 tornou-se editor do Marcha, um influente jornal semanal.

Em sua obra ultrapassava gêneros rígidos combinando a narrativa documental, o jornalismo, a análise histórica e política. Com o intuito de denunciar a opressão no continente latino, em 1971 publica sua obra mais conhecida, As Veias Abertas da América Latina.

O livro tornou-se um clássico entre os intelectuais da esquerda latino-americana por analisar o continente desde o período colonial, explicando como a riqueza e a fartura da região tornaram-se sua ruína.

Com o golpe militar uruguaio, Galeano foi preso em 1973 e obrigado a se exilar na Argentina, onde lançou a revista cultural Crisis. Três anos depois seu nome foi colocado na lista dos esquadrões da morte pelo general Jorge Videla, forçando-o a se exilar na Espanha, onde se dedicou à trilogia Memória do Fogo.

A trilogia conta a história das Américas destacando não apenas a opressão colonial como também atos individuais e coletivos de resistência. Os personagens são figuras históricas: generais, artistas, revolucionários, operários, conquistadores e conquistados, que são retratados em pequenos episódios que se iniciam com os mitos dos povos pré-colombianos e terminam no início da década de 1980.

Em determinados pontos, seus livros davam vida a sonhos de infância. Em O Futebol ao Sol e à Sombra, Galeano revisa a trajetória histórica do jogo que, quando criança, desejava ter como profissão. Nessa obra, Galeano narra a final da Copa de 1950, no Rio de Janeiro, que entrou para a história do futebol como Maracanazo. No jogo ocorreu a virada do Uruguai por 2 a 1 na seleção brasileira no estádio Maracanã.

 

Prestígio

Recebeu em 1975 e 1978 o prêmio Casa de Las Américas e o prêmio Aloa, promovido pelas casas editoras dinamarquesas, em 1993. A trilogia Memória do Fogo foi premiada pelo Ministério da Cultura do Uruguai e recebeu o American Book Award (Washington University, EUA) em 1989. Foi o primeiro autor homenageado com o prêmio à Liberdade Cultural, da Lannan Foundation (Novo México), em 1999.

Em 2005, Eduardo Galeano integrou o comitê consultivo da Telesur, uma emissora de televisão pan-latino-americana com sede em Caracas, na Venezuela. Em julho de 2008, Galeano foi agraciado com o primeiro título de Cidadão Ilustre do Mercosul.

Em declaração, explica que sua obra, apesar da clara inspiração e relevância histórica, não possui apenas o caráter histórico. “Sou um autor obcecado com a lembrança, com a lembrança do passado da América e, sobretudo, da América Latina, uma terra intimamente condenada à amnésia”.

Galeano esteve no Brasil em 2014, quando abriu a 2ª Bienal do Livro em Brasília. Na ocasião afirmou sobre seu livro As Veias Abertas da América Latina: “O tempo passou e descobri diferentes maneiras de conhecer e de me aprofundar na realidade. Não estou arrependido de tê-lo escrito, mas foi uma etapa que, para mim, está superada. Se eu relesse a obra hoje, cairia desmaiado, não iria aguentar”.

O autor faleceu aos 74 anos e, de acordo com o jornal El País, Galeano estava em sua casa em Montevidéu e a causa da morte foi um câncer no mediastino (região do tórax) que entrou em metástase.

 

Outra face do luto

Günter Grass nasceu em 16 de outubro de 1927 em Danzig. Fora convocado aos dezessete anos para servir nas Forças Armadas da Alemanha nazista na Waffen-SS. Ferido na guerra de 1945, foi preso e libertado no ano seguinte.

Em 1956 mudou-se para Paris, onde dedicou-se à literatura e publicou seu primeiro livro, o romance de crítica social Die Blechtrommel (O Tambor). Também escreveu poesias e peças de teatro e é reconhecido como um dos principais representantes do teatro do absurdo da Alemanha.

Grass participou de forma ativa da vida pública alemã e provocou polêmica em torno de sua produção. Foi responsável por renovar a literatura alemã do pós-guerra por meio de textos irônicos e grotescos que satirizavam o milagre econômico da reconstrução alemã pós-nazista.

Recebeu, em 1999, o prêmio Nobel de Literatura por O Tambor e é considerado o porta-voz literário da geração alemã que cresceu durante o nazismo. Descrevia-se como um devoto da iluminação em uma era cansada da razão.

Grass morreu aos 87 anos em uma clínica no norte da Alemanha. A morte foi anunciada pela editora do autor na rede social Twitter. A causa da morte ainda não foi divulgada.

OBRAS PUBLICADAS DE EDUARDO GALEANO

O escritor lançou mais de 40 obras, dentre elas:

 

  • De pernas pro ar
  • Dias e noites de amor e de guerra
  • O livro dos abraços
  • As palavras andantes
  • Vagamundo

Obras publicadas de Günter Grass

  • O Tambor
  • Katz und Mause (da tradução literal do alemão: u Gato e Rato)
  • Hundejahre (da tradução literal do alemão: Anos do Cão)
  • Maus Presságios
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