O nonsense é o normal
Redação DM
Publicado em 7 de abril de 2017 às 02:49 | Atualizado há 1 ano
Nunca antes na história do Brasil uma companhia de teatro havia adaptado um texto de Daniil Kharms. Mas a obra deste russo renegado, perseguido pela ex-União Soviética dos tempos de Stalin e que morreu de fome esquecido em uma solitária em 1942, continua bem viva, contemporânea e instigante. É o que tem mostrado o Grupo Martim Cererê, com o espetáculo “Cerimônia Para Personagens Estranhos – Miniaturas Grotescas”, que estreou nesta quarta-feira (5) e será reapresentado hoje, às 20 horas, no Teatro Sesc Centro.
O responsável pela direção da montagem – que veio à tona sem nenhum incentivo de leis culturais, custeado pela companhia – é Marcos Fayad. E mesmo com notáveis realizações no mundo artísticas – foi um dos idealizadores do Centro Cultural Martim Cererê e diretor do lendário Circo Voador, no Rio de Janeiro –, o diretor conheceu recentemente a obra de Kharms.
Porém, o trabalho do russo o intrigou tanto, que Fayad quase não fez outra coisa nos últimos seis meses, além de pensar em formas de teatralizar dezoito histórias que constam no livro Os sonhos teus vão acabar contigo: prosa, poesia e teatro, deste homem que foi pioneiros do absurdismo, estilo que deixou famoso nomes como Samuel Beckett. “Ainda sei pouco sobre Kharms, isto me deixa livre pra imaginar o que ele pensava”, disse o diretor.
Cabaré
É fato que em Cerimônia Para Personagens Estranhos – Miniaturas Grotescas, Fayad deu o seu olhar aos escritos do russo. Na estreia do espetáculo, o escritor Miguel Jorge, que estava na plateia, disse até que o espetáculo tinha a cara do diretor goiano.
Uma das maiores características da adaptação é que o diretor deu a Kharms o clima, figurino e agilidade do teatro de cabaré. Em cena, sobre um quadrado vermelho e quatro cadeiras escalou os atores Saulo Dallago, Guerhard Sullivan, Edimar Pereira e Leopoldo Rodriguez, para não só encenar, como ajudar a criar toda o universo da peça.
O quarteto, nota-se que além de muito ensaiado, está disposto a doar o corpo à estranhice de seus múltiplos personagens russos. E assim, como o autor, o grupo Martim Cererê não busca a risada a todo custo. Mas é fato que ela vem. Chega seja das coreografias impagáveis – feitas por Juliano Andrade, de uma trilha sonora que envolve tango soviético e “uns bolerões estranhos engraçados”, como diz Fayad –, ou do bordão “sem tirar nem pôr”. Isso, claro, sem citar diversas outras passagens.
Na peça, o riso o pode estar até no que não é dito. Mas o incômodo também. E ele chega principalmente na cena na qual um dos atores entra no palco com uma caixa na cabeça. Logo, fica ainda mais claro que, nada ali é por acaso e a atualidade ecoa das cenas que foram escritas em 1930.
“Tudo o que ele escreveu reflete perfeitamente o absurdo do nosso tempo. As histórias parecem loucas… Mas hoje também as pessoas estão mesmo loucas. Portanto, tudo parece normal”, analisa Fayad. Talvez por isso, ligar o nonsense, o absurdo da peça, com a contemporaneidade, pode não ser apenas uma das chaves para entender Kharms, como para motivar muita gente a sair de uma realidade de opressão.

Estreia do espetáculo Cerimônia para Personagens Estranhos – da Cia de Teatro Martim Cererê (GO)
Quando: hoje, às 20h
Onde: Teatro Sesc Centro (Rua 15, esquina com a Rua 19, Centro)
Ingressos : R$ 7 (comerciários e dependentes), R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia-entrada) e R$ 8 (conveniados)
Classificação: 12 anos