O poder de Deus encarnado no jazz
Redação DM
Publicado em 22 de setembro de 2015 às 19:37 | Atualizado há 1 anoEm meados de 1965, quando o jazz ainda sustentava-se como um dos estilos mais consistentes da música mundial, uma vertente do gênero denominada spiritual jazz (em português, Jazz espiritual) emergia no cenário musical sustentada nas filosofias musicais do saxofonista John Coltrane. Ele acreditava na possibilidade de colocar o poder de Deus em suas notas, para levar positividade e cura às pessoas que ouvissem.
Não tratava-se de um Deus religioso, no início. O Deus do jazz exaltado por Coltrane vinha de sua própria força de vontade em superar vícios que o impossibilitavam de exercer seu trabalho com o máximo de sua criatividade. A heroína e o alcool já haviam causado ao jazzista muitos problemas e expulsões de bandas no auge de sua juventude e disposição. Uma espécie de conversão de consciência começaria a atingí-lo a partir de 1957.
O disco que materializaria o jazz espiritual de Coltrane é também considerado sua obra-prima. A Love Supreme, lançado em 1965, além de levar a fundo os anseios experimentais de John Coltrane, trazia em meio à música uma especie de ideologia meditativa, da busca pelos limite da consciência. Toda essa fase na vida de Coltrane fez com que ele se interessasse em compreender o mundo através de estudos inspiradores.Foi do Hinduísmo à Cabala, passou pelo Jiddu Krishnamurti, ioga, matemática, ciências, astrologia, história da África e chegou até Platão e Aristóteles.
No álbum Meditations, também de 1965, Coltrane registrou uma mensagem de encarte ao público, que revelava suas intenções musicais àquela altura. Em uma frase, oferecia seu trabalho aos ouvintes “para inspirá-los a realizar mais e mais de suas capacidades, para viverem vidas significativas. Porque esse é certamente o sentido da vida”. O jazz espiritual foi explorado por outros músicos como Pharoah Sanders (um dos discípulos de Coltrane), Alice Coltrane (sua última esposa) e vem sendo ainda explorado, como mostra álbum The Epic, lançado em 2015 pelo músico norte-americano Kamasi Washington.
Na fase positiva de Coltrane, depois de ter superado seus problemas com drogas, ele defendia a capacidade terapêutica da música, que curaria qualquer tipo de problema.”Eu gostaria de levar para as pessoas algo como a felicidade. Eu gostaria de descobrir um método que, se eu quisesse que chovesse, chovesse imediatamente. Se um de meus amigos estivesse doente, eu gostaria de tocar uma certa música e cura-lo; se ele estivesse falido, tocaria uma música diferente e ele receberia imediatamente todo o dinheiro que precisasse”.
“Free jazz”
Coltrane foi um dos difusores do estilo free jazz (em português, jazz livre), que propunha novas possibilidades de liberdade e improviso aos músicos do gênero. Outros jazzistas já encaravam essa novidade como uma forma de se expressarem com mais naturalidade, mas eram criticados por músicos então conservadores, criando uma espécie de rixa entre direita e esquerda no jazz, em meados da década de 1950. Foi da estabilização do freejazz que subgêneros como o spiritual jazz ganharam força.
Dentre os músicos que praticavam o jazz livre, estilo que buscava explorar os limites dos instrumentos envolvidos nas sessões, podem ser citados Moondog, Ornette Coleman, Charles Mingus, Sun Ra, Eric Dolphy, entre outros. O que mudava no free jazz, principalmente, era a dificuldade do grande público de assimilar a estrutura musical das composições. Isso implicava inclusive em questões comerciais, pois muita gente deixava de comprar os discos pelo nível de dificuldade e peso das músicas.
Coltrane faleceu em 1967, aos 40 anos, em decorrência de um câncer de fígado. Na época, muito se especulou sobre sua morte. O saxofonista Albert Ayler, em uma entrevista de 1968, afirmou que Coltrane tinha tomado a decisão de evitar a medicina tradicional durante seu tratamento, recorrendo apenas a um curandeiro hindu na luta contra o câncer. Alice Coltrane desmentiu essa possibilidade mais tarde, apesar de confirmar as fortes influências do hinduísmo na vida dela e de John Coltrane.