Desativada 2

O pop sobrevive ao tempo

Redação DM

Publicado em 9 de dezembro de 2016 às 00:50 | Atualizado há 2 anos

A artista plástica Esther Galvão retira de seu imaginário elementos que costuma plasmar em suas telas.  Figuras da cultura popular, cenas com mulheres bonitas e mesmo religiosidades fazem parte do traço forte da pintora.

Entre o sacro e a pop art, ela cria uma emblemática da figuração: os observadores de imediato captam as origens de suas inquietações.  A arte é pop. É atual. E comunicativa.

Não pop exclusivamente, como talvez almejem os puristas. Mas o que é mais pop do que não ser purista? Um dos princípios do movimento é a colagem – uma das técnicas utilizadas pelos adeptos desta corrente desde sua fundação.

Esther integra um novo grupo de artistas plásticos do Estado que tem marcado o debate sobre arte a partir do colorido industrial, das imagens intensas e ideais para as ilustrações gráficas. Vários artistas se filiam ao grupo, que tem em João Colagem um dos seus expoentes regionais. Odisseu Odisseu, Takinn e em alguns momentos Siron Franco conseguiram se expressar nesta linguagem.

A arte pop surgiu no início da década de 1950 na Inglaterra, mas teve um grande lastro nas exposições montadas nos Estados Unidos a partir de 1960.

A obra fundadora do estilo é “O que exatamente torna os lares de hoje tão diferentes, tão atraentes?”, de 1956.  A colagem de Richard Hamilton revela um artista perturbado com a pós-modernidade, marcada pela mudança da era da produção para os tempos do consumo. A obra merece uma leitura: marcas, propagandas e direcionamentos de consumo se misturam com um homem fortão ao lado de uma mulher de biquíni em pose para a propaganda. É a comunicação através do corpo, a persuasão das formas.

Dois temas são colocados em debate com a institucionalização da arte pop: a crise da sociedade capitalista e o fim de linha (ou ao contrário: a explosão) para a cultura de massas – expressão que os críticos da indústria cultural rejeitaram, por dar uma falsa impressão de que existiria uma “cultura” para as audiências.

O que existe, dizem os críticos, é produto: não importa se seja um enlatado ou um disco de Kate Perry. Andy Warhol – um dos ícones do estilo – vaticinou que toda esta fama duraria apenas “15 minutos”. Na era dos museus dentro de supermercados, a arte seria volátil, escorreria pelas mãos.

Este modelo de arte perpassou a produção pictórica de Goiás. Um dos pioneiros na mistura de rescaldos da cultura pop, João Colagem consegue muitas vezes ir além, como quando perpassa o expressionismo com seus retratos deformados e delirantes. Comanda um coletivo de colagem e se sobressai em exposições pelo mundo. Encarna perfeitamente seu tempo.

No sentido dado para a arte, como esfera pública de reflexão e questionamento, é a art pop que tem chamado a atenção e colocado o mundo para dialogar: em junho, a artista Ana Smile teve sua obra proibida por realizar uma fusão dos santos católicos com imagens de personagens da cultura pop.

Smile conta que começou sua produção ao ver um meme na internet. Na imagem, Batman carregava Robin, inspirado nas imagens sacras que povoaram corações e mentes na idade média.

SMILE

A obra de Smile foi judicializada: a Igreja Católica, em Goiás, se sentiu ofendida, processou e conseguiu na Justiça impedir que a artista se inspire nos santos católicos.

A simples proibição revelou, em Goiás, como a arte tem o poder de mexer e transformar as instituições. Uma simples santa pop reacendeu a chama do conservadorismo e colocou três campos antagônicos em choque: religião X justiça X arte.

Em Goiás, a arte de Esther é mais contemplativa.  As críticas da artista são polissêmicas e submersas no discurso.

A artista plástica utiliza técnicas da pintura figurativa sem, todavia, procurar o realismo ingênuo, a ironia ou mesmo a subversão. Mas sobra uma arte que comunica estranhamento e beleza.

Esther diz que independe de estilos. Quer mesmo é flagrar: “Gosto do olhar das pessoas, de suas expressões. De como um simples olhar diz tudo”.

Convidada a refletir sobre sua produção e linguagem, admite a pop arte em sua escala de expressões: “Minha arte é ora pop ora sacra. Em outros momentos, pinto daminhas dos anos 50 e 60”.

A artista admite que investe nas personagens femininas, mas sem ser obcecada com alguma mensagem feminista. Mais uma vez o olhar é tocado pela circulação das cenas produzidas na modernidade, nas quais a mulher é sempre uma centralidade.

Todavia, reconhece que seu olhar difere de um homem que descreve o mesmo fenômeno: “A mulher é muito mais sensível, tem uma sensibilidade à flor da pele, por isso consegue transmitir seus sentimentos em pinturas, gravuras ou em cores usando sempre cores fortes – o que é meu caso”.

O artista plástico Odisseu Odisseu, pseudônimo de um famoso jornalista em Goiás, não reconhece a arte pop como inspiração imediata para sua produção, mas reconhece que seu catálogo é uma crítica a toda ordem de coisas que se instaura nas artes plásticas e mesmo na sociedade.

Odisseu diz que os monstros que cria, absolutamente originais, são personagens com vida e que não teriam nenhuma dificuldade em migrar para as histórias em quadrinhos. Ao mesmo tempo em que pinta, ele desvenda os segredos da arte que tenta se sacralizar: “A arte não tem mais a função do passado, de ser sagrada, de ser algo genial. Ela tem função de fazer as pessoas pensarem, neste sentido é hoje uma metalinguagem. E reconheço que a arte pop pode ser, sim, uma crítica”.

Odisseu afirma, contudo, que muitas vezes a linguagem pop pode ser apenas conformista, voltada para o mercado, como Romero Britto.

Por ironia, Britto é hoje um dos maiores expoentes da pop art, mas sem o conteúdo que a caracteriza como insinuante e perigosa. Como tudo que faz cai no gosto das celebridades (principalmente por sua alegria e cor), sua verve é de extrema alienação. Enfim, um artista para bajular as elites.

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